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Opinião

Quando a verdade engana

A figura de Jesus Cristo exerce uma atracção generalizada desde sempre. Daí muitos o quererem rotular como profeta, revolucionário, mártir ou político, passando ao lado da sua verdadeira identidade e missão.

José Brissos-Lino

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Gleisi Hoffmann. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
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A presidente do PT (Partido dos Trabalhadores) e deputada federal Gleisi Hoffmann publicou no seu Facebook a seguinte mensagem, por altura da última Páscoa: “Os Evangelhos são claríssimos: Jesus morreu porque confrontou o Templo, um sistema de dominação e exploração dos pobres.” Esta perspectiva é recorrente no discurso de quem não tem fé mas admira a figura do Mestre Jesus Cristo. E de facto não faltam razões para O admirar, como fez Ghandi e tantos outros ao longo da história.

Mas temos de admitir que existe uma dificuldade básica para muitos conseguirem compreender que o Cristo que nunca aceitou prebendas, que nunca se deixou seduzir pelo poder e que sempre assumiu a defesa dos mais pobres, sofredores, socialmente desprotegidos e humanamente vulneráveis, seja o mesmo que inspira uma religião que, ao longo dos tempos, se revelou tantas vezes elitista e amancebada com o poder secular, e que caiu de forma recorrente na pregação da aceitação passiva da injustiça, da resignação e do sofrimento.

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O erro de Hoffmann é querer fazer de Jesus Cristo um político, esquecendo a sua verdadeira identidade e missão. Quem conhece minimamente as Escrituras sabe que Jesus é Deus, o Filho do Deus vivo: “E Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mateus 16:16), conforme Pedro declarou num singular momento de inspiração conferido pelo Espírito Santo.

À partida poderíamos até dizer que nem ao diabo lembrava querer fazer de Deus um líder político nesta terra de desventuras humanas. Mas de facto lembrou. Logo no início do seu ministério público Jesus foi tentado por satanás no deserto. Foi-lhe oferecido o poder secular: “Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares” (Mateus 4:8,9). Mas a sua resposta foi assertiva: “Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás” (Mateus 4:10).

Proclamar apenas uma parte da verdade pode ser mais perigoso do que mentir por completo. É facto que Jesus afrontou o poder religioso de Jerusalém, assim como também afrontou Roma (isso a deputada não diz), mas tais acções têm que ser enquadradas no contexto geral da sua missão divina e da sua condição de Salvador do mundo.

Ora, isso não faz dele um político, nem sequer um mártir, mas sim o Cordeiro de Deus que veio providenciar Salvação a uma humanidade perdida e longe de Deus: “No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29).

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Se Hoffmann estivesse minimamente interessada em conhecer a fé cristã deveria conhecer as palavras do próprio Cristo, quando questionado por Pilatos: “O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (João 18:36). Isto é, o reino de Deus é de carácter espiritual e não temporal. Querer transformar a figura de Jesus Cristo num líder político é distorcer por completo o sentido das Escrituras e a essência do Evangelho. Nunca o foi. Nunca o quis ser. Recusou sê-lo.

Nem sequer se trata dum mártir, pois a Bíblia diz: “Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca” (Isaías 53:7). Como está escrito, Ele entregou-se à morte voluntariamente: “Por isto o Pai me ama, porque dou a minha vida para tornar a tomá-la. Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai” (João 10:17,18). Além disso o contexto geral do Novo Testamento é de sujeição às autoridades e de intercessão a Deus por elas.

É essencial que todos os líderes políticos de países com tradição cristã entendam isto. E já agora também os próprios líderes religiosos, que tantas vezes se esquecem de que a sua missão é servir um reino que “não é deste mundo” e que só deve ser servido por eles no plano espiritual e não em lutas políticas “deste mundo”.

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Nasceu em Lisboa (1954), é casado, tem dois filhos e um neto. Doutorado em Psicologia, Especialista em Ética e em Ciência das Religiões, é director do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, em Lisboa, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e investigador.