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Opinião

Qual é o propósito da minha vida?

Estamos nós dispostos a pagar o preço de ir ao encontro do propósito de Deus na nossa vida?

José Brissos-Lino

em

Abraão. (Foto: JW)
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Todas as pessoas precisam de sentir que a sua vida tem um propósito e de o conhecer. O sentido da vida é algo inerente à condição humana. E no cristão ainda mais.

Victor Frankl era um jovem judeu austríaco, neuropsiquiatra, quando se viu preso no campo de concentração nazi em Auschwitz. Em enorme sofrimento entregou-se à memória da sua mulher, grávida, e também prisioneira.

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Decidiu então conversar imaginariamente com ela e evocar a sua imagem, o que o ajudou a manter-se vivo. No final da guerra, quando foi libertado, descobriu que a mulher tinha morrido assim como os pais e o irmão. Depois disso trabalhou na abordagem terapêutica que desenvolvera em Auschwitz, a que chamou Logoterapia, e veio a morrer com 92 anos.

O psicoterapeuta descobriu que os sobreviventes eram aqueles que estabeleciam um objectivo e encontravam um sentido futuro para a existência como, por exemplo, cuidar de um filho ou escrever um livro. Em O Homem em Busca de um Sentido (1946) o autor narra a sua dramática luta pela sobrevivência e desenvolve o seu método terapêutico.

Lucas evangelista conta-nos que o velho Simão conhecia o seu propósito na vida: “Ele, então, o tomou em seus braços, e louvou a Deus, e disse: Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, Segundo a tua palavra; Pois já os meus olhos viram a tua salvação; A qual tu preparaste perante a face de todos os povos; Luz para iluminar as nações, E para glória de teu povo Israel” (2:28-32). Mas todas as pessoas que encontraram o propósito da sua vida tiveram que pagar um determinado preço por isso.

No caso das figuras bíblicas, pensemos em Abraão. Todos sabemos que encontrou o propósito de Deus para a sua vida. Tornou-se o pai de muitas nações (Gn 17:5) e uma bênção para elas (Gn 12:2). Mas o preço foi alto e pode ser resumido em dois planos. Por um lado teve que se dispor a um profundo corte cultural, civilizacional e religioso, deixando para trás a cidade caldeia de Ur, isto é, a sua terra, a sua família e os seus deuses.

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Por outro lado teve que ousar um salto de fé, indo atrás dum Deus desconhecido que se lhe acabara de revelar. Não fazemos ideia da forma como o Deus da Bíblia se revelou a Abraão, mas compreendemos que terá sido uma revelação muito forte e convincente, de modo a fazê-lo arriscar uma mudança tão radical.

Também Moisés encontrou o sentido da sua vida, não apenas através da sua sobrevivência miraculosa que experimentou enquanto bebé, salvo do genocídio infantil promovido por um faraó xenófobo, mas também dos perigos do Nilo, e em especial na epifania experimentada muito mais tarde no Monte Horebe, perante a sarça que ardia e não se consumia, no solo que descobriu então ser sagrado e sobretudo na voz do seu Deus.

O preço que teve de pagar foi igualmente duro e passou pelo afastamento dos palácios e pelo silêncio e solidão do deserto durante longos quarenta anos. Moisés precisava de preparar o seu coração para a elevada tarefa que o Senhor lhe confiara, apesar das evidentes limitações, e que era conduzir um povo de escravos para fora do país porventura mais poderoso do mundo, em direcção à liberdade e levá-lo até à terra da promessa.

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Poderíamos falar de muitos outros exemplos bíblicos como David, que pagou o preço do ciúme de Saul, que o perseguiu com intenção de o matar, ou a crítica de Mical, sua mulher, quando David dançava perante Deus. Ou o preço de Simão, que foi uma vida inteira de espera pelo cumprimento da vinda do Messias, ou o preço de Paulo que implicou uma perda de estatuto, perseguições, prisões e morte.

Mas vejamos ainda o caso de algumas figuras históricas da cultura universal, como o caso de Hellen Keller, escritora, filósofa, conferencista e activista social americana, que deixou uma obra tremenda em favor dos deficientes.

O preço a pagar foi a sua condição de cega e surda de nascença. Ou a Madame Curie, cientista polaca que descobriu o raio X, e que pagou o preço de morrer de leucemia devido a exposição às radiações no apoio às tropas na Grande Guerra. Ou ainda a Madre Teresa de Calcutá, religiosa albanesa que mobilizou milhares de pessoas para apoio aos pobres dos mais pobres na Índia e que veio a ser Nobel da Paz, cujo preço que pagou foi viver na mais profunda pobreza, entre os mais pobres dos pobres.

Estamos nós dispostos a pagar o preço de ir ao encontro do propósito de Deus na nossa vida? Desistimos dele? Ainda andamos à procura?

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O propósito divino para a nossa vida – que no fundo constitui o nosso sentido da vida – pode não ser algo tão grandioso como nos exemplos acima invocados. Uma vez questionaram Susana Wesley sobre missões além-mar. Ela respondeu que tinha a elevada missão de ser uma boa mãe para os seus doze filhos. Entre eles estavam John e Charles Wesley, o fundador do Metodismo e um dos maiores hinólogos que a Igreja já conheceu.

Nasceu em Lisboa (1954), é casado, tem dois filhos e um neto. Doutorado em Psicologia, Especialista em Ética e em Ciência das Religiões, é director do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, em Lisboa, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e investigador.

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