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Sociedade

Produtora diz que é possível ser feminista e cristã

“Eu acredito que para Deus, o homem e a mulher têm o mesmo valor. E é exatamente isso que o feminismo prega!”, declarou Rebeca.

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Rebeca Eler

É possível conciliar o feminismo com a religião? Para a produtora cultural Rebeca Eler, 26, esta resposta é positiva. Em entrevista a Helena Bertho, colunista do Uol, ela contou como foi o processo para conciliar propostas antagônicas.

Rebeca foi criada dentro de Igreja Batista, e como tal, cresceu ouvindo a doutrina cristã, que orienta nas questões comportamentais, uso e costumes, matrimônio, vida familiar. “Eu tinha que ser doce, usar roupas recatadas e sonhar com um casamento, a única coisa que me faria uma mulher completa”, relatou.

Ao ingressar na faculdade, cursando Produção Cultural, ela teve contato com um outro universo. Conheceu mulheres com outros estilos de vida, lutavam por direitos iguais e também pela liberdade de ser quem desejavam. A produtora se identificou de imediato com a colegas.

“Me descobri feminista como elas. Mas como eu poderia ser feminista e cristã ao mesmo tempo? As duas coisas não eram excludentes?”.

A produtora que passou a infância e a adolescência frequentando os cultos, percebeu que na igreja apenas os homens na maioria das vezes detinham a palavra, faziam as orientações litúrgicas, enfim as mulheres ficavam em segundo plano. “Isso sempre me incomodou. Eu sempre me questionava por que a mulher não podia ter o mesmo valor que os homens. Mas nem eu entendia isso muito bem, então guardava essas dúvidas para mim”.

O contato com o feminismo na faculdade fez a produtora entrar em um conflito existencial. “Passei por um processo doloroso. Minha crença estava dentro de tudo na minha vida, de quem eu era, do meu valor. Eu parecia estar encarando um paradoxo: ou continuava com a minha fé e me submetia a tudo isso que era parte da religião, ou a renegava”.

A princípio, Eler quis abrir mão da vida cristã. Deixou de ir à igreja por um ano e meio, pois não aceitava a forma e a estrutura em que estava inserida. “Essa foi uma vivência muito dolorosa, a fé sempre tinha sido parte da minha vida.  Até que um dia fui a uma comunidade que tinha um pensamento bem mais libertário. As falas ali dentro eram diferentes, era tudo sobre respeitar os lugares de cada pessoa, a diversidade”.

Essa nova experiência de fé, a fez refletir se o problema estava na crença ou na estrutura da religião.

“Afinal, Deus é algo que transcende, mas a religião, a igreja, foi criada por homens. Então ela pode ser diferente”.  Com uma linha de pensamento definida, ela começou a buscar por igrejas onde a comunidade estivesse repensando a forma de viver a religião.

Receba chegou a conclusão que o ponto de encontro entre o feminismo e a religião é a igualdade dos gêneros. “Eu acredito que para Deus, o homem e a mulher têm o mesmo valor. E é exatamente isso que o feminismo prega!”.

Rebeca é presbiteriana

A igreja que mais se aproximou dos seus ideais foi a Presbiteriana. Entretanto não deixou de ser crítica e avaliar o que é ensinado.  Ela acredita que a igreja atual contribui para a violência contra a mulher. “É algo muito sutil, que está nessa construção do imaginário de como a mulher tem que ser, porque é isso que sustenta a violência. É a mulher achar que deve ser dócil, submissa, falar baixo, obedecer ao marido”, explicou.

Sua opção religiosa definiu-se pelo bom acolhimento recebido. A produtora é seletiva em relação ao cumprimento das doutrinas recebidas nos cultos.  “Hoje, por exemplo, não me defino mais pelo sonho do casamento. Quero casar, sim, mas essa não é a medida do meu sucesso, do que me faz mulher. Tenho também liberdade para me expressar, ser quem sou, me vestir como gosto, por exemplo, sem medo de punição divina.