Siga-nos!

Opinião

A política atual virou seita?

Duas características das seitas se encaixam como luva no nosso atual cenário político.

Leandro Bueno

em

Na semana passada, fui assistir um debate que se travou em uma igreja aqui em Brasília, onde se debateu o atual momento político que o país atravessa e o Estado Democrático de Direito e fiquei impressionado ao ver ali um pastor que eu admiro muito pelas suas eloquentes pregações, falando como se fosse um mero militante político, atacando ferozmente o juiz federal Sérgio Moro, alguém que eu, coincidentemente, já atuei em vários processos com ele, por eu ser procurador, reconhecendo sua indiscutível seriedade e competência para estar à frente da Operação Lava-Jato, que vem desbaratando uma quadrilha que tomou de assalto à Petrobrás.

Aquilo me fez refletir como hoje no Brasil, os ânimos quando falamos de política, estão extremamente alterados, a ponto de haver brigas até familiares e de amigos de longa data por causa deste “FLA-FLU”, que temos visto entre aqueles que não suportam mais esse governo e os que querem sua manutenção, acusando os outros de “golpistas”. O interessante é que os políticos, objetos destas paixões, na maioria esmagadora dos casos não está nem aí para seus “súditos”.

E pensando sobre tudo isso, eu vi várias semelhanças entre a política atual e aquilo que chamamos de SEITA RELIGIOSA. Como já nos ensinou o reverendo Nicodemus Lopes, em excelente artigo trazido aqui no Gospel Prime, a palavra “seita” deriva da mesma palavra grega (háiresis), que significa heresia e serve para designar grupos religiosos, filosóficos ou políticos.

Ao ler o texto dele, ali podemos ver várias características interessantes que ele invoca para identificar uma seita, e passemos então ver como duas destas características  se encaixam como luva no nosso atual cenário político.

O exclusivismo

Em uma seita, uma das características que Nicodemus cita é que ali prega-se que somente os membros daquele grupo são salvos. Ou seja, esses grupos se veem como autênticos representantes de Deus na Terra, sendo que os demais estão apenas fadados ao sofrimento eterno.

Na política atual, a coisa é EXATAMENTE A MESMA. Por exemplo, se você pega os atuais defensores deste governo Dilma, o que você observa ali, é um discurso do tipo “apocalíptico”, “escatológico”. Defendem que se ela tomar um impeachment, voltaria o Brasil a época das cavernas, já que nas mentes autocráticas de muitos destes, eles são os legítimos representantes de tudo o que se fez de bom neste país.

Nesta retórica, os programas sociais se acabariam no outro dia, o que vejo inviável, pois seria uma espécie de suicídio político, sendo  que aquilo que veio antes deste governo, não existia ou não prestava. É o tipo de narrativa “histórica” fictícia, que poderia ser resumida como  a.L (antes de Lula)  e d.L (depois de Lula), na sua célebre ladainha: “Nunca antes neste país…”.

Por outro lado, vemos em muitos casos daqueles que não suportam o governo, coisas também absurdas do tipo: queremos a volta dos militares ao poder, invocação de um comunismo deste atual governo, etc. Porém, se você for perguntar para muitas destas pessoas o que é o comunismo, elas não têm a mínima ideia, confundindo até Hegel com Engels, ou vão te mandar ir “pra Cuba”, quando não dizer que seremos invadidos pelos países bolivarianos em conluio com este governo.

Ora, qualquer pessoa minimamente informada sabe que o comunismo como sistema econômico, ninguém o vê mais como viável, após a derrubada do Muro de Berlim e em face do mundo globalizado e multilateral que vivemos. Quando muito, poderíamos falar em marxismo cultural, da Escola de Frankfurt, mas aí seria objeto para outro artigo.

Neste sentido, o filósofo francês Jean Paul Sarte tem uma frase lapidar que é: O inferno são os outros. Se pararmos para pensar, como isso é verdadeiro no atual momento político, basta pensar que muitos defendem que o seu grupo é o único detentor da verdade “absoluta” e os outros que se opõem verdadeiros inimigos a serem destruídos. Daí, para rótulos como “coxinhas”, “enroladinhos”, “mortadela” e outros viram algo comum.

Por exemplo, se você observar nas redes sociais, pessoas que apoiam o governo, você muito dificilmente (para não dizer, impossível), verá essas pessoas postando os diversos casos de malversação do dinheiro público que temos visto neste governo.

Fica parecendo que a fantasia que se criou de um “projeto de país”, que, seria melhor do que todos os outros, fosse mais importante, ou mais relevante, a ponto de omitirem ou se calarem com tantas desventuras, para não dizer gatunagens, que temos visto no governo atual.

Por outro lado, os que são contra o governo, também em muitos casos se mostram arredios a mostrar os crimes e acusações graves que acompanham os seus políticos favoritos. Aí, a pergunta que aparece é: O que é mais importante? A tomada do poder ou o país?

A divinização de seus líderes

Uma outra característica bem marcante das seitas é a idolatria cega a seu líderes, que são colocados como seres especiais com autoridade divina.

Infelizmente, para esses membros da seita,  eles são totalmente incapazes de verem os crimes e abusos de toda naturalmente que eventualmente esses “seres divinos” cometem.

É algo que vemos também em algumas igrejas, onde se você falar mal, entenda aqui, falar mal como contrariar a orientação do “ungido de Deus”, prepare-se que o anjo da morte está à sua espreita. Ou seja, é um tipo de relação infantilizada demais, que não reconhece nem o fato de que mesmo o “ungido de Deus” pode cometer pecados dos mais cabeludos como qualquer um de nós.

No caso da política, vemos, e aqui nem precisamos citar nomes, políticos profissionais que se colocam como a RESERVA MORAL DA NAÇÃO. São políticos que parecem viver em um messianismo, que acho que só existia na época da Guerra dos Canudos.

Colocam-se como verdadeiros seres especiais, prontos a atacar e fulminar as injustiças sociais, nem que para isso tenham que jogar com os sentimentos de massas umas contra as outras. Quem nunca ouviu, por exemplo, aquela conversa de que as “zelites brancas” odeiam os pobres e é por isso que não gostam deste governo? Quem ainda dá crédito para isso?

Discursos como esses servem apenas para dividir a sociedade. Desde o império romano, existe uma máxima militar que dizia DIVIDIRE ET IMPERA (divide e governa). Ou seja, há políticos que sabem como usar bem a psicologia das pessoas para dividi-las e ir se mantendo “ad eternum” no poder, até quando não der mais.

Infelizmente, vivemos em um país, historicamente marcado por injustiças sociais, racismo, desigualdades sem fim, o que causou no interior de muitas pessoas, dores, mágoas, ressentimentos de difícil cura, ainda que plenamente compreensível dentro deste contexto histórico que citei.

Assim, se aparece um determinado grupo que se coloca como porta-voz apto a dar visibilidade para essas pessoas, muitos egressos de minorias ou pessoas que não se sentem adaptadas ao “sistema”, como ele é, passam a ver estes líderes como verdadeiros “deuses”, ainda que não admitam isso nem para si mesmo, apesar de todos terem pé de barro.

E isto é um fenômeno psicológico, emocional, e quando isso está instalado, temos que o diálogo com quem pensa diferente, fica interditado, inviabilizado. Isto porque, o diálogo só é viável quando há racionalidade na questão, quando a coisa vira emocional, a coisa fica “fechada pra balanço”.

Assim, ficar discutindo pontos de vistas diferentes neste caso é perda de tempo, perfumaria pura.

Conclusão

Com esse artigo, busco não atacar ninguém nas suas convicções pessoais. Todos devem ser respeitados nas suas opções. Ocorre que esse amor exacerbado na política pode virar uma espécie de fanatismo, de idolatria, que tira o espaço que deveria ser de Deus em nossas vidas. Deus nos oferece um Reino que é eterno, de justiça, verdade, paz, fraternidade, perdão, liberdade, alegria e dignidade da pessoa humana.

Porém, muitos parecem estar mais entretidos com as migalhas do poder temporal e do que podem auferir com ele. O meu desejo de coração é que sejamos de um partido, que é muito mais transcendente do que aqueles criados pelo nosso corrupto sistema político: o partido da solidariedade, algo que independe de “líderes personalistas” ou de agremiações partidárias X ou Y.

Publicidade