Siga-nos!

Opinião

“Paulinização” da teologia?

Uma ponderação sobre Roger Stronstad

Alex Esteves

em

Apóstolo Paulo escrevendo cartas. (Foto: Reprodução)

Alguns estudiosos pentecostais têm denunciado o que seria uma “paulinização” da teologia sistemática tradicional, termo por meio do qual querem designar a construção de conceitos teológicos orientados predominantemente pela linguagem das Epístolas de Paulo, em detrimento dos demais escritos neotestamentários (especialmente o Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos).

Afirmam esses estudiosos que uma suposta superestimação da teologia paulina teria alijado da pneumatologia protestante a dimensão vocacional do Espírito Santo, com seus aspectos carismático e missiológico, paralelamente a uma valorização demasiada da dimensão soteriológica.

Esgrime-se o argumento principalmente contra a teologia calvinista-reformada, porque assim tais especialistas pensam reunir conceitos mais adequados à defesa de uma genuína teologia pentecostal.

No entanto, em sua tentativa de erigir uma perspectiva teológica pentecostal assentada em fundamentos não paulinos, esses autores, imergindo no que entendem ser uma “teologia lucana”, se submetem ao risco de recorrer a instrumentos exegéticos pouco recomendáveis, os quais devem ser avaliados com redobrada atenção, não apenas pela teologia reformada, mas também pela teologia pentecostal – enfim, pela teologia cristã protestante e evangélica e por todos aqueles que adotam o método histórico-gramatical de interpretação das Escrituras.

Neste ensaio, utilizarei o exemplo emblemático do teólogo canadense Roger Stronstad, tomando como referência seu livro Teologia lucana sob exame: experiências e modelos paradigmáticos em Lucas-Atos, publicado no Brasil pela Editora Carisma (dados bibliográficos indicados ao final).

Stronstad forma com Robert P. Menzies e Craig S. Keener um trio atualmente muito prestigiado por estudantes de teologia pentecostal, aos quais se associam nomes como Ian Howard Marshall, French Arrington e Amos Yong, entre outros.

Na mencionada obra, Roger Stronstad tem por objetivo demonstrar que Lucas-Atos, visto por ele como obra única em dois volumes, apresenta a Igreja como uma comunidade de profetas batizados, ungidos, “empoderados”, guiados e preenchidos pelo Espírito Santo (pp. 14, 15, 17, 20, 23-27, 192, 205, 207, 208, por exemplo).

O autor aponta para Lucas como “um narrador (…) extremamente habilidoso” (p. 23), que, por meio de uma “estratégia narrativa” caracterizada por episódios programáticos, inclusões e paralelismos (pp. 21-28), oferece elementos desse caráter profético nos cuidadosos relatos sobre Jesus, sobre a comunidade cristã primitiva e sobre seis “profetas carismáticos” (Estêvão, Filipe, Barnabé, Ágabo, Pedro e Paulo).

É positivo o empenho de Stronstad em analisar as ênfases teológicas de Lucas e Atos, assim como a sua valorização da qualidade literária do texto lucano; são também dignos de registro o seu trabalho intelectual, a sua dedicação a uma teologia bíblica dirigida ao público pentecostal-carismático e a maneira como organiza a obra, que se reveste de interesse acadêmico.

Entretanto, há na proposta teológica de Stronstad aspectos problemáticos, e o principal deles reside na tentativa de construir uma independência entre as pneumatologias lucana e paulina, tudo sob o manto de uma crítica redacional.

Com efeito, logo no início da obra, Stronstad afirma que, “apesar de haver amplo consenso no meio acadêmico de que cada autor bíblico seja interpretado em seu próprio direito e em seus próprios termos, ainda é normal ler Lucas através das lentes paulinas” (p. 15; destaque acrescido). No mesmo parágrafo, o autor rechaça o entendimento de que a pneumatologia de Lucas estaria “essencialmente ligada à pneumatologia de Paulo” (p. 15).

Para não deixar dúvidas de que enxerga autonomia na teologia lucana, o autor dá um passo à frente e declara: “Tenho interpretado Lucas-Atos independentemente de outros evangelhos e epístolas” (p. 15; destaque acrescido); diz que evitou interpretar Lucas como se ele fosse Mateus ou Paulo (idem); e observa que “Lucas, contrapondo-se a João ou Paulo, jamais relata explicitamente que o Espírito Santo efetua a salvação” (p. 16; destaque acrescido).

Se as palavras ainda guardam sentido, precisamos reconhecer o peso do advérbio “independentemente” e do verbo “contrapor-se”, pois se trata de termos empregados por Stronstad para identificar o cerne de sua proposta teológica. O mesmo se deve dizer quanto ao uso da expressão “lentes de Paulo”, assim como da afirmação de que a pneumatologia lucana não está “essencialmente ligada” à pneumatologia paulina (destaque acrescido).

Mais algumas informações serão úteis para uma apreciação do método exegético escolhido por Stronstad. Por exemplo, apesar de atento a quantidades, o autor subestima a extensa porção que Atos dedica ao ministério de Paulo, e chega a afirmar o seguinte:

  1. que Lucas apresenta Paulo, não tanto como apóstolo, mas sobretudo como “profeta carismático”, ao lado de Pedro, Estêvão, Filipe, Barnabé e Ágabo, e uma das razões dessa “recusa determinada” estaria no fato de Paulo não atender aos “critérios históricos para o apostolado” (pp. 151, 152);
  2. que Lucas relata a experiência carismática de Paulo conforme experiência de Pedro, o que seria comprovado pelos recursos da estratégia narrativa lucana (pp. 27, 196-198, 200, 201);
  3. que, para Lucas, o “primeiro e maior herói da comunidade carismática de Lucas” não é Paulo, mas Pedro (p. 196), mesmo afirmando, pouco depois, que Lucas deliberadamente constrói sua narrativa de tal modo a equilibrar os ministérios de Paulo e Pedro, com o objetivo de evitar hostilidades entre os grupos cristãos formados por gentios e judeus (pp. 200, 201).

As assertivas de Stronstad, consideradas em conjunto, causam estranheza, pelas seguintes razões:

(1) Lucas, conquanto evangelista, teólogo e historiador inspirado pelo Espírito Santo, em nenhum momento se apresenta numa condição de quem estabelece doutrina independentemente dos apóstolos, pois o que escreve resulta de seu esforço de pesquisa junto aos que foram testemunhas presenciais e ministros da Palavra (cf. Lc 1.1-4; At 1.1-4) – a doutrina da Igreja Primitiva era a “doutrina dos apóstolos”, e esta compunha o objeto de estudo de Lucas (cf. At 2.42);

(2) Lucas acompanhou o ministério do apóstolo Paulo, sendo este o líder da equipe missionária (cf. At 16.10-17; 20.5,6, 13-16; 21.1-18; 27.1-44; 28.2-16; Cl 4.14; II Tm 4.11);

(3) Atos dos Apóstolos ocupa-se, em sua maior parte, da conversão e ministério de Paulo (cf. At 9.1-31; 13-28; cf., ainda, 7.58 e 8.1);

(4) pelo menos sete discursos de Paulo são relatados em Atos dos Apóstolos, o que, no mínimo, aproxima a teologia lucana da teologia paulina (cf. At 13.16-41; 17.22-31; 20.18-35; 22.1-21; 24.10-21; 26.1-29; 28.17-20, 25-28);

(5) é plenamente comprovado, portanto, que Lucas aprendeu teologia com Paulo – a esse respeito, alguns objetam com a afirmação de que I Tm 5.18 conteria uma citação de Lc 10.7, mas (a) não se pode provar, por causa disso, que Paulo estivesse citando Lucas, já que a frase também se acha em Mateus, e (b) é provável que Paulo estivesse citando um provérbio muito conhecido da época, o qual foi dito por Jesus para reforçar o princípio de Dt 25.4 (cf. Mt 10.10; Lc 10.7; I Co 9.9), declaração esta a que Paulo se refere como sendo ordem “do Senhor” (cf. I Co 9.14);

(6) Stronstad parece modelar sua avaliação da obra de Lucas sem considerar evidências internas, porque “precisa” comprovar a hipótese de que o propósito teológico de Lucas como redator/editor seria apresentar o nascimento de uma comunidade de profetas ungidos, na qual uma figura como Paulo surge como “profeta carismático” ladeado por outros tantos.

Admiradores da perspectiva de Stronstad costumam alegar que não se trata de contradição entre Lucas e Paulo, mas, sim, de ênfases distintas. Não é simplesmente isto, porém, o que Stronstad defende, pois suas premissas e seu emprego da crítica redacional projetam em Lucas a imagem de um redator responsável pela elaboração de um documento engendrado a partir de conceitos teológicos criados de maneira independente, os quais estariam esquecidos sob a penumbra de uma “paulinização” protestante da teologia.

Em tese, não haveria dificuldade em aceitar que obras de autores distintos se complementassem a partir de respectivas ênfases autônomas, mas o ponto central aqui defendido é que isto não se verifica substancialmente na relação entre Lucas-Atos e as Epístolas Paulinas. O cerne do problema, desse modo, não é simplesmente lógico, mas factual.

É estranho que alguma perspectiva pentecostal necessite se afastar assim da teologia paulina, pois o próprio Paulo fornece elementos robustos para a pneumatologia pentecostal: quem ora pelos discípulos de Éfeso, para que recebam o batismo no Espírito Santo, não é Lucas, mas Paulo (cf. At 19.1-7); não é Lucas quem escreve I Co 12 a 14, mas Paulo; não é Lucas quem escreve aos coríntios sobre sua pregação com “demonstração do Espírito e de poder”, mas Paulo (cf. I Co 2.4); não é Lucas quem, dirigindo-se aos “insensatos gálatas”, associa o recebimento do Espírito e a concessão do Espírito à operação de maravilhas, mas Paulo (cf. Gl 3.2, 5); novamente, não é Lucas, mas Paulo, quem escreve aos tessalonicenses sobre o poder do Espírito, exortando-os, ainda, a que não desprezassem as profecias (cf. I Ts 1.5, 6; 5.19, 20).

Se alguém, para defender a teologia pentecostal, precisa alterar a exegese pentecostal tradicional sobre Lucas e Atos e, além disso, classificar a pneumatologia paulina como exclusivamente soteriológica, surgem importante questões:

  • esses teólogos não conseguem ver a teologia paulina como fonte de teologia pentecostal-carismática?
  • em Lucas e Atos eles não veem teologia de João Batista, do Senhor Jesus Cristo, de Mateus, de Marcos, de Paulo, de Pedro, de Estêvão…?
  • a começar da promessa do batismo no Espírito Santo ou revestimento de poder pela descida do Espírito Santo (cf. Mt 3.11,12; Mc 1.8; Lc 3.16; 24.49; Jo 1.33; At 1.4-8), o que Lucas estava a fazer, senão um registro do que ouvira das testemunhas oculares e “ministros da Palavra”, os “apóstolos que [Jesus] escolhera (cf. Lc 1.2 e At 1.2)?

Curiosamente, o mesmo Stronstad que destaca a narrativa de Lucas-Atos como “história seletiva” (pp. 31-34), destinada a veicular proposições teológicas extraídas de um cenário muito maior, deixa de considerar o caráter responsivo das Epístolas de Paulo, o que deve ser identificado como uma omissão teológica relevante, porque as ênfases dadas por Paulo em suas Epístolas não significam que sua pneumatologia seja exclusivamente soteriológica, mas, sim, que era necessário dar destaque à doutrina da salvação, como ocorre em Romanos, Gálatas e Efésios.

Lucas e Atos são considerados justificadamente como obras de grande interesse espiritual, mas não por alguma independência, autonomia ou contraposição, e, sim, por seu conteúdo identificado com a doutrina dos apóstolos, que o médico Lucas teve condições de aprender … pelas lentes de Paulo e de outros personagens da Igreja.

Por fim, se determinados autores (cessacionistas ou não) interpretam erroneamente os escritos lucanos, isto não se deve às “lentes paulinas”, mas às lentes do intérprete. O próprio Lucas utilizou as lentes paulinas, e seria bom e agradável que assim todos fizéssemos.

Notas:

  • Referência bibliográfica da obra em comento: STRONSTAD, Roger: experiências e modelos paradigmáticos em Lucas-Atos; tradução de Celso Roberto; revisão de Eliana Moura e Joelson Gomes. – Natal, RN: Carisma, 2018, 240p.
  • Sobre I Tm 5.18, o leitor pode consultar o Novo Comentário da Bíblia (São Paulo: Edições Vida Nova, 1963, Volume II, p. 1321) e o Comentário Bíblico Pentecostal (Rio de Janeiro, CPAD), na seção em que Deborah Menken Gill tece considerações sobre a Primeira Epístola de Paulo a Timóteo.
  • Para uma consideração bíblica do tema da “paulinização” da teologia, sugiro ao prezado leitor o exame do texto Teologia pentecostal: paulina ou lucana?”, publicado em 13 de setembro de 2019 no blog de Ciro Sanches Zibordi, teólogo assembleiano e renomado escritor da CPAD, além de trechos do seu livro Barnabé: o pregador de fé e obras, recém-lançado pela mesma editora (2019, especialmente a seção às pp. 58, 59).

Ministro do Evangelho (ofício de evangelista), da Assembleia de Deus em Salvador/BA. Foi membro do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Fraternal dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Estado da Bahia, antes de se filiar à CEADEB (Convenção Estadual das Assembleias de Deus na Bahia). Bacharel em Direito.

Publicidade