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opinião

Os dragões de Hollywood

Não havendo inimigos reais, a esquerda arranja alguns imaginários.

Filipe Samuel Nunes

em

Halle Berry (Reprodução)

Douglas Murray, no seu último livro, “The Madness of Crowds: Gender, Race and identity”, faz uma análise vincada da cultura moderna. Nele, Murray faz referência à síndrome de “São Jorge na reforma”.

Ele escreve o seguinte: “Depois de matar o dragão, o bravo guerreiro corajoso encontra-se a percorrer a terra em busca de lutas ainda mais gloriosas. Ele precisa dos seus dragões. Eventualmente, depois de se cansar na perseguição de dragões cada vez mais pequenos, poderá até ser encontrado a esgrimir a sua espada no ar, imaginando-se a matar dragões”.

Faz lembrar Dom Quixote a lutar contra moinhos imaginários. Estas imagens de dragões e moinhos imaginários, contra os quais lutar, ilustram perfeitamente o que está a acontecer com a esquerda moderna. A gula desta esquerda em cancelar, derrubar e censurar, é infinita. E, não havendo inimigos reais, arranjam-se alguns imaginários. Contra o patriarcado, contra o homem branco, contra direito de expressão, marchar, marchar!

A última vítima desta serpente voraz foi Halle Berry. Há apenas uma semana, a bela e talentosa atriz negra, estava toda entusiasmada com o seu próximo papel como “homem transgênero” num novo filme.

Cito a raça de Berry apenas para ilustrar que, como mulher de cor, ela já tinha um trunfo minoritário na sua busca de sucesso, um passe recentemente válido, mas agora cancelado. É que houve uma súbita mudança de regras! Halle antecipou ingenuamente o cumprimento do seu trabalho como atriz – personificar outra pessoa – e o desafio de interpretar uma mulher que se “transgenera” num homem.

“Ela é uma personagem de um projeto que adoro”, jorrou Berry no Instagram. “Quero experimentar esse mundo, compreender esse mundo. Quem foi esta mulher? … É isso que quero experimentar, compreender, estudar e explorar… É uma mulher, é uma história feminina – que muda para um homem, mas quero compreender o porquê disso”. Menina tola!

Ela cometeu dois erros politicamente incorretos – um, pensar que lhe poderia ser permitido habitar alguém com disforia de gênero na insana indústria de “entretenimento” atual; e dois, “confundir” a personagem com uma ex-mulher e não com um transexual masculino.

“Através do misgendering, e depois de enquadrar isto como uma ‘história de mulher’, Halle mostra que não é realmente ela que deve ter este papel”, tuitou um crítico.

Outro disse: “Se queres ‘compreender esse mundo’, deixa um homem trans desempenhar o papel e depois vê o filme”. Agora, aqui levanta-se outra questão, se um “homem pós-transicionado” retrata um “homem transgénero pré-transicionado”, isso não seria igualmente ofensivo em termos de apropriação do gênero e, portanto, inválido? (Caramba! A coisa é complicada mesmo!).

Como é agora de rigor, o movimento LBGTQ+ não só fez Halle Berry pedir desculpa, como também a fez rastejar. O seu tweet confessional raia a auto flagelação salpicado de psico-basbaquice:

“Durante o fim-de-semana tive a oportunidade de discutir a minha consideração sobre um próximo papel como homem transgénero, e gostaria de pedir desculpa por essas observações. Como mulher cisgénero compreendo agora que nunca deveria ter considerado este papel, e que a comunidade transexual deveria inegavelmente ter a oportunidade de contar as suas próprias histórias. Estou grata pela orientação e conversa crítica dos últimos dias e continuarei a ouvir, educar, e aprender com este erro. Juro ser uma aliada na utilização da minha voz para promover uma melhor representação no ecrã, tanto na frente como atrás das câmaras”.

Se não fosse risível, a situação seria no mínimo patética. De repente teremos aí a comunidade de amantes de gatos a reclamar por causa do papel de Halle Berry em Catwoman. Já nada me espanta!

Entretanto, o raro ator-diretor abertamente conservador Nick Searcy (Justified) perdeu pouco tempo a denunciar o fascismo progressivo de Hollywood, no seu próprio tuíte:

“Como homem conservador, gostaria de pedir desculpa pelos maridos abusivos, assassinos em série, Klansmen, funcionários corruptos, e outros tipos de democratas que tenho representado ao longo dos anos. Não sou democrata, e devia ter deixado os democratas terem a oportunidade de contar as suas próprias histórias”.

Mas, há outra questão elementar. Se for esta a regra de ouro a partir de agora, será impossível encontrar atores para todo o tipo de personagens representados nos filmes de Hollywood. Por exemplo. Será legítimo usar um ator americano para representar um Viking? Os povos nórdicos vão ficar chateados! Poderá um ator fazer a voz dum golfinho nos filmes de animação? Os golfinhos vão ficar chateados! Um ator sóbrio poderá fazer de bêbado? Os bêbados vão ficar chateados! Enfim! Ridículo!

Entretanto, podemos destruir uma centena de filmes. Verdadeiros clássicos que não obedeceram a estas regrinhas politicamente corretas. Só alguns exemplos:

– Scarface (A Força do Poder) – Al Pacino, num papel fantástico, faz de Cubano.

– Birdcage (Casa de Doidas) – Robin Williams, numa interpretação lumimosa, fazia de companheiro gay. Ora, o desaparecido ator era assumidamente heterossexual.

– A Brilliant Mind (Uma Mente Brilhante) – Russell Crowe, num dos seus filmes mais emblemáticos, faz de John Nash, brilhante matemático. Todavia, sofrendo de esquizofrenia, e que se saiba Russell Crowe não é esquizofrênico. Mas, onde achar um ator para esse papel!?

De acordo com a brigada dos bons progressistas de Holywood estes (e outros) filmes nunca seriam feitos. Seriam cancelados. Os progressistas continuam a lutar contra dragões imaginários. Com a benção de São Jorge.

Formou-se em Teologia na Inglaterra, exerceu trabalho pastoral durante 25 anos em Portugal e vive há 12 anos no Brasil onde ensina Inglês como segunda língua.

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