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Opinião

O símbolo negligenciado

Uma abordagem missiológica IV

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O sincretismo não vitima apenas o cristianismo romano com suas cruzes e crucifixos como vimos no episódio da “cruz comunista” (veja aqui). Na verdade, a maioria dos cristãos sente-se ofendida quando a simbologia de sua fé é deturpada.

Um bom exemplo de sincretismo esquerdista é o relatado por Norma Braga em seu post “A ceia agridoce”. Não é que sincretismo também seja um termo usado para a promiscuidade entre ideias não religiosas, mas é que o que fundamenta o esquerdismo é uma estrutura religiosa ateia e anticristã.

Como disse no artigo anterior, o sagrado tem uma linguagem que precisa ser corretamente interpretada. As diferentes instâncias dessa linguagem (símbolo, mito, rito e dogma) possuem regras de hermenêutica próprias, assim como os diversos gêneros literários da Bíblia exigem também abordagens específicas.

Nossa hermenêutica do sagrado não pode se confundir, pois, do contrário, não apenas o sincretismo deturpará a mensagem evangélica, mas o paganismo, a idolatria, o nominalismo e o materialismo se assentarão no lugar onde não devem estar (Mc 13:14).

Gostaria de chamar a sua atenção para duas leituras possíveis sobre o símbolo do “Crucifixo comunista”. A primeira é a ironia de ser a cruz um instrumento do tribunal romano, logo um mecanismo da “justiça dos homens”, contra a qual Jesus prevaleceu na ressurreição.

A ironia está na profética “simbologia pela culatra”, pois o crucificado na cruz da “justiça do marxismo”, sistema que assassinou mais de 100 milhões de pessoas, também irá prevalecer sobre o comunismo, assim como ocorreu com o Império Romano.

A segunda leitura é que, embora o protestantismo histórico e o movimento evangélico moderno tenham se apegado à imagem da “cruz vazia” como um contraponto à mensagem “mórbida” do crucifixo católico, a verdade é que a cruz vazia nada fala sobre o que ocorreu no terceiro dia.

Vazar a cruz ou deixa-la vazia (e aqui respondo à pergunta feita no artigo anterior) é apenas apontar para o fato de que o corpo de Jesus não está mais ali. A cruz vazia ou vazada só corrobora, de fato, para o esvaziamento do ensino sobre o preço pago por Jesus na cruz.

Vazar a cruz ou deixa-la vazia é fazê-la apontar numa direção equivocada, esvaziando-a da tragédia cósmica do sacrifício do cordeiro por causa dos nossos pecados.

Para fugir à idolatria de uma imagem sobre a cruz e evitar a quebra do 2º mandamento, a cruz vazia é, ainda assim,  meramente igual às cruzes dos bandidos que morreram ao lado de Jesus ou àquela usada na Parada Gay em São Paulo.

Nas palavras do próprio Cristo, a mensagem da cruz é validada, tão somente, por QUEM foi crucificado nela e não por ela mesma (Mt 23:16-22). É sempre Deus quem toma um elemento ordinário e o transforma em extraordinário.

A cruz precisa, portanto, estar sobrecarregadíssima da mensagem da Paixão, pois essa é a loucura de Deus para judeus e gregos. E na cruz, como símbolo, deve sobejar impetuosamente a morte, a dor, a morbidez, a tragédia, o abandono, a aparente falta de sentido, enfim, a agonia de Cristo em seu sacrifício por causa dos meus pecados.

A mensagem evangélica total não será dada numa cruz vazia e nem vazada, mas, no terceiro dia, num túmulo esvaziado pelo poder do Espírito Santo.

O sepulcro, cuja pedra foi removida, é um símbolo que não pode (e não deve) ser substituído por uma cruz vazia e nem vazada, mas apresentado como a resposta divina às indagações suspensas no ar daquela tenebrosa sexta-feira.

Só o sepulcro vazio, ornado apenas pelos lençóis de linho que envolviam Jesus, é o símbolo que completa a mensagem evangélica, apresentando-se como um símbolo contra o outro. Todavia, não para substituir a cruz, mas como a resposta retumbante e poderosa do Evangelho Total de Deus para o drama da história humana.

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