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Devocional

O sal da terra

Jesus quis ensinar que se não tivermos sabor somos apenas calhaus, pedras de sal, só temos o sal no nome, e não prestamos para mais nada senão para o desprezo dos homens.

José Brissos-Lino

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Colher de Sal (Jason Tuinstra / Unsplash)

Nos tempos bíblicos o sal tinha inúmeras aplicações, como tempero da comida, conservante dos alimentos, desinfectante ou unidade de troca, muito utilizado nas feiras francas (mercados que não utilizavam moeda, apenas procedendo à troca de bens).

No Antigo Israel os recém-nascidos eram lavados e esfregados com sal (profilaxia) antes de serem enfaixados (Ezequiel 16:4).

Os livros de Números e Crónicas apresentam o sal como símbolo de amizade, e por isso comer sal com outra pessoa era sinal de amizade nalgumas regiões do Mediterrâneo.

Quando uma cidade era destruída, era comum lançar sal nos escombros e na terra, mostrando o desejo de que nada mais crescesse ali (Deuteronómio 29:22,23).

O pagamento dos soldados e outros funcionários do Império Romano era feito com pedras brancas de sal, que depois eram trocadas por outros produtos. Era o seu salário, palavra que deriva de sal.

Pelo menos desde os romanos que se começou a construir salinas no litoral do império, com vista à exploração deste produto natural. A região onde moro, Setúbal (Portugal) séculos atrás era um importante entreposto do comércio do sal e a cidade de Alcácer chama-se “do Sal”.

Mas o sal era também elemento de ofertas cerimoniais. De acordo com a lei e os profetas, o sal era uma parte importante do antigo sacrifício religioso hebraico:

“E todas as tuas ofertas dos teus alimentos temperarás com sal; e não deixarás faltar à tua oferta de alimentos o sal da aliança do teu Deus; em todas as tuas ofertas oferecerás sal” (Levítico 2:13).

“E oferecê-los-ás perante a face do Senhor; e os sacerdotes deitarão sal sobre eles, e oferecê-los-ão em holocausto ao Senhor” (Ezequiel 43:24).

No Evangelho de Mateus (5:13) Jesus a compara os discípulos ao sal

A Igreja é o sal que evita a corrupção (do mundo), através do exemplo ético dos cristãos, e não das leis dos homens, e por isso não pode deixar-se confundir com o seu papel na sociedade. O papel da Igreja não é fazer leis.

Procede à sua participação cívica, dá a sua opinião, mas se cair no engodo de se envolver na arena da política hipoteca a dimensão profética que está na sua natureza, trocando a glória de Deus pela glória dos homens, vendendo a sua primogenitura (espiritual) por um prato de lentilhas como Esaú.

A Igreja é o sal que interrompe a decomposição e a destruição (da sociedade), preservando-a através da sua presença na comunidade, não por imposição, mas por testemunho.

Mas Jesus advertiu-nos de dois perigos:

Se não tivermos sabor como é que a sociedade há de ser preservada da corrupção total?:

Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há-de salgar?” (a).

Se não tivermos sabor somos apenas calhaus, pedras de sal, só temos o sal no nome, e não prestamos para mais nada senão para o desprezo dos homens:

Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens” (b).

O Mestre chamou-nos para sermos sal, mas não para nos transformarmos em sal

A mulher de Loth é um símbolo dos crentes que se transformaram em monumentos de sal, que para nada servem… A natureza do sal não é ser ostentativa mas prestativa… A utilidade simbólica e espiritual do sal não é a aparência (o parecer) mas a essência (o ser).

Sal fora do saleiro

Também não somos chamados para ser sal escondidos dentro do saleiro.

Sejamos sal que opera na vida das pessoas, fora do saleiro, para testemunho do Evangelho e glória de Deus.

Nasceu em Lisboa (1954), é casado, tem dois filhos e um neto. Doutorado em Psicologia, Especialista em Ética e em Ciência das Religiões, é director do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, em Lisboa, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e investigador.

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