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Estudos Bíblicos

O Lugar Santíssimo

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 8 do trimestre sobre “O Tabernáculo – Símbolos da Obra Redentora de Cristo”.

Tiago Rosas

em

Santo dos Santos. (Foto: Reprodução)

Hoje adentraremos ao lugar mais íntimo do tabernáculo, o Santo dos Santos ou lugar Santíssimo. Não chegaremos ainda a tocar na arca da aliança (assunto da próxima Lição), mas contemplaremos a beleza do véu e buscaremos ressaltar os significados espirituais e tipológicos que ali podem ser percebidos.

No deserto, Bezalel e Aoliabe costuraram o véu; em Jerusalém, cerca de 1.500 anos depois, o próprio Deus se encarregou de rasgá-lo ao meio, de alto a baixo! Outrora, o caminho era exclusivo para o sumo sacerdote, agora o caminho está aberto a todos que vierem pela fé, confiando no sacrifício do Filho de Deus!

I. O véu do lugar santíssimo

1. As cores e colunas

Como já vimos nas Lições passadas, as cores branca, azul, púrpura e carmesim estavam presentes desde a entrada do pátio até o lugar mais íntimo do tabernáculo. Toda aquela casa de ouro no deserto estava revestida do colorido que adornava o ambiente sagrado e lembrava aos hebreus de que um pedacinho do céu estava presente entre eles.

A grossa e colorida cortina que separava o lugar Santo do lugar Santíssimo estava sustentada por quatro colunas de madeira de acácia (ou cetim) revestidas em ouro e assentadas sobre bases de pratas (Êx 26.32). Certamente era uma cortina comprida, grossa e pesada, demandando o suporte daquelas quatro colunas. Uma vez armada com o tabernáculo, tocar nela e abri-la era privilégio apenas do sumo sacerdote, quando levava o sangue da expiação para aspergir sobre o propiciatório no grande Dia da Expiação (Lv 16).

2. Figuras dos querubins

Bem como na primeira cortina que cobria o telhado do tabernáculo (Êx 26.1), naquele véu também estavam bordados figuras de querubins (Êx 26.31). Além de estarem bordados nas cortinas, os querubins estavam esculpidos em cima do propiciatório, a tampa que cobria a arca da aliança (Êx 25.18-22). É muito significativo que os querubins estivessem tão presentes ali. O autor da carta aos hebreus faz menção aos seres angelicais esculpidos sobre o propiciatório como “querubins de glória” (gr. cherubin doxes), demonstrando que a presença desses anjos realça a glória do ambiente.

Os hebreus adoravam ao SENHOR que estava entronizado “entre os querubins” (1Sm 4.4) e “acima dos querubins” (2Sm 6.2; Sl 80.1; 99.1; Is 37.16). Deus está entre os querubins porque está ladeado por eles, assistido ininterruptamente pela adoração e pelos serviços destes seres angelicais; e está acima dos querubins porque o majestoso trono de Deus é infinitamente superior à glória de seus querubins. Não há ninguém acima de Deus nem comparável a ele em glória!

Ademais, como se vê na primeira menção a esses seres celestiais, quando Deus os pôs diante da entrada do Éden para proteger aquele paraíso primitivo e, especialmente, a árvore da vida (Gn 3.24), pode-se inferir que há também uma conotação de proteção angelical ao tabernáculo do SENHOR. Quem olhasse de fora podia ignorar que tão modesto templo móvel estivesse na verdade revestido de ouro em seu interior e sob a vigilância dos anjos de Deus, os guardiões da glória celeste!

3. Fios trançados

O linho fino trançado (Êx 26.21, NVI; ou “torcido”, ARC; “retorcido”, ARA) garantiria maior resistência e durabilidade àquele véu, além de evitar transparência para que o Lugar Santíssimo não ficasse exposto. Precisaria ter cerca de cinco metros de altura por cinco metros de largura, afim de esconder todo o ambiente onde ficava oculta a arca da aliança.

II. O propósito do véu interior

1. Definir o espaço mais santo do tabernáculo

Como Rouw e Kiene disseram, havia três entradas naquela “casa de ouro” do deserto [1]. Cada entrada (ou porta) definia um cômodo e seu grau de santidade. A primeira entrada era a do pátio, onde sacerdotes, levitas e homens comuns podiam ter acesso; a segunda entrada era a do Lugar Santo ou santuário, onde somente os sacerdotes entravam diariamente; a terceira e última entrada era a do Santo dos Santos. Ninguém podia “pisar em território santo” inadvertidamente, pois as cortinas estavam ali para sinalizar o limite até onde cada um podia ir.

Todo o ambiente do tabernáculo era santo. Na verdade, toda a extensão do arraial dos hebreus deveria ser sempre mantida sobre santidade, visto que aquele era o povo do Senhor. Não obstante, quanto mais o adorador se aproximava da “nuvem sobre o propiciatório” (Lv 16.2), mais rigorosas eram as exigências de Deus, afinal, quanto mais próximos do Santíssimo estivermos, mas santos deveremos ser! (Sl 15) As palavras de Tiago são contundentes: “Alimpai as mãos, pecadores; e, vós de duplo ânimo, purificai os corações” (Tg 4.8).

2. Expressar a beleza da santidade de Deus

O alto, largo e espesso véu do Santíssimo, colorido e com bordados de querubins, denota a beleza e a grandeza da glória de Deus que se manifestava naquele mais íntimo ambiente do tabernáculo. O próprio Deus prometeu que apareceria numa nuvem, quando no Dia da Expiação fosse vertido o sangue no propiciatório (Lv 16.2).

Tal qual o véu multicor, as vestimentas dos sacerdotes (que estudaremos com maiores detalhes na Lição 11) deveriam ser confeccionadas de tal modo a conferir “glória e ornamento” aos ministros de Deus (Êx 28.2). Cor, beleza e riqueza se podiam ver tanto no lugar Santíssimo como nas vestes sumo-sacerdotais – o que demonstra uma sintonia entre Aquele que é adorado e o adorador.

Diferente dos repugnantes deuses do Egito ou de Canaã, o Deus de Israel é santo e todos devem adorá-lo na beleza de sua santidade (Sl 96.9).

3. Limitar a aproximação do adorador até que viesse o “véu perfeito”

A ordem de Deus foi expressa: “não entre no santuário em todo o tempo, para dentro do véu, diante do propiciatório que está sobre a arca, para que não morra” (Lv 16.2). Isso é o pacto mosaico, isso é a Lei, isso é a antiga aliança: não se aproxime com frequência, pois ainda há uma barreira entre nós – diz Deus. Era imperativo que aquela distância fosse mantida, bem como a frequência ao lugar Santíssimo fosse restrita a apenas um dia do ano, para que os homens ao mesmo tempo:

a) Zelassem pela santidade do Senhor, enquanto se percebessem a si mesmos pecadores;

b) Ansiassem por mais da presença de Deus, o que teriam se buscassem de todo coração;

c) Compreendessem, especialmente agora sob a revelação do Novo Testamento, que somente mediante o sacrifício perfeito de Jesus Cristo é que o homem pode ter livre acesso à presença de Deus, e não por meio de sacrifícios animais.

O autor da Carta aos Hebreus deixa claro como a luz do sol ao meio dia o significado tipológico daquele véu do tabernáculo: “Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne (Hb 10.19,20). O véu do Santíssimo prefigurava o próprio corpo de Jesus, que foi rasgado na cruz do Calvário para nos abrir um novo e vivo caminho para o Pai! Agora, Deus já não mais diz “fiquem à distância” ou “não se aproximem com frequência”, mas sim “vinde a mim todos vós” (Mt 11.28) ou “chegai-vos a Deus” (Tg 4.8).

III. Como era o lugar santíssimo

1. Formato quadrangular

Sobre as dimensões do tabernáculo, Leo Cox comenta: “Aceitamos que o santuário (o Lugar Santo) tivesse 9 metros de cumprimento e o lugar santíssimo (o Santo dos Santos), 4,5 metros, embora em nenhum lugar da Bíblia encontraremos esta informação” [2]. De fato, a Bíblia não dá as dimensões do Lugar Santo ou do Santíssimo no tabernáculo do deserto.

Entretanto, a opinião predominante entre os comentaristas bíblicos de que as dimensões do Santo dos Santos era algo em torno de 4,5 ou 5 metros de cumprimento pela mesma largura, advém de uma analogia [3] com o templo de Salomão, que sabidamente tinha o dobro do tamanho do tabernáculo: 27 metros de cumprimento por 9 metros de largura (1Re 6.2). No templo construído por Salomão o Lugar Santíssimo tinha 9 metros de cumprimento por 9 metros de largura (1Re 6.20); se o tabernáculo era análogo, como parece ser, então teria a metade desse tamanho, logo, um quadrado de 4,5 metros de cumprimento por 4,5 metros de largura

2. Cômodo mais íntimo da casa

O quarto de nossas casas costuma ser aquele ambiente mais íntimo e no qual não levamos as visitas. Elas podem ter acesso à cozinha, ao banheiro e ao quintal, mas no quarto somente os domésticos entram, somente quem é da família.

O Santo dos Santos era o cômodo mais íntimo do tabernáculo, e Deus não levava até ele outra pessoa senão o líder espiritual, o sumo sacerdote. O povo entrava no Lugar Santíssimo apenas representado no sumo sacerdote, que oferecia o sangue da expiação por toda a nação. O único modo de sermos introduzidos na presença de Deus e desfrutarmos de sua intimidade é mediante a aceitação do sangue de Cristo como único meio para purificação de nossos pecados e reaproximação com Deus! Não à toa ele mesmo disse: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo 14.6).

Você deseja estar mais perto de Deus? Então creio que podemos cantar juntos este clássico da hinódia evangélica:

Mais perto quero estar
Meu Deus, de Ti!
Ainda que seja a dor
Que me una a Ti,
Sempre hei de suplicar
Mais perto quero estar
Mais perto quero estar
Meu Deus, de Ti!

 3. Lições do Lugar Santíssimo

Ao morrer na cruz, Jesus nos consagrou um novo e vivo caminho pelo véu da sua carne, a carne que ele prometeu entregar pela vida do mundo (Jo 6.51). Quando expirou na cruz, “o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo” (Mt 27.51). De alto a baixo porque foi o próprio Deus do céu que o rasgou, permitindo agora que pelo sangue de Cristo todos pudessem vir à Sua santíssima presença.

Segundo Champlin, “o véu do templo era extremamente espesso e resistente. Tinha a largura de uma mão de espessura, tecido com 72 dobras torcidas, cada uma feita com 22 fios. Media cerca de 18 metros de altura por nove metros de largura”  [4], de tal modo que nem mesmo duas juntas de bois poderiam rasgar! Somente a força do Todo Poderoso, aquela mesma que de quando em quando tomava Sansão contra os filisteus, é que poderia rasgar aquela verdadeira parede de tecidos!

E foi o que aconteceu naquele final de tarde que antecedia a Páscoa, enquanto os sacerdotes ministravam os sacrifícios da tarde. O véu se rasgou! As barreiras de separação foram removidas, as cortinas divisórias foram feitas inúteis, e agora todo são convidados à irem até o Senhor! Sua graça se há manifestado salvadora a todos os homens (Tt 2.11).

Conclusão

Não há palavras melhores para concluirmos este estudo do que as de Buttrick, citadas por R. N. Champlin: “Quantas cortinas divisórias Cristo rasgou de alta a baixo com a sua morte! A divisão entre sacerdotes e adoradores se dissipou; a igreja é o sacerdócio de todos os crentes. A divisão entre judeus e gentios se dissipou; agora os gentios podem ir além do átrio exterior, entrando no Lugar Santo, sim, e até mesmo, no próprio Santo dos Santos. A barreira ente escravo e liberto ruiu, porquanto todos são servos de Cristo e, por isso mesmo, usufruem de perfeita liberdade”[5]. Louvado seja Yavé Shammah – o Senhor está presente! Sim, Ele está mais perto de nós do que o ar que nós respiramos. Sem véus…

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Referência

[1] Jan Rouw e Paul Kiene. A casa de ouro, Depósito de Literatura Cristã, p. 35
[2] Leo Cox em Comentário Bíblico Beacon, vol. 1, CPAD, p. 211
[3] Analogia: processo cognitivo de transferência de informação ou significado de um sujeito particular para outro sujeito particular, e também pode significar uma expressão linguística, correspondendo a este processo. Podemos a partir do templo de Salomão conjecturar, através de analogias, algumas coisas quanto ao tabernáculo de Moisés, dentre elas as dimensões do Lugar Santo e do Lugar Santíssimo.
[4] R.N. Champlin. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, 11° ed., vol. 6, Hagnos, p. 623
[5] R.N. Champlin. op. cit.

 

Casado, bacharel em teologia (Livre), evangelista da igreja Assembleia de Deus em Campina Grande-PB, administrador da página EBD Inteligente no Facebook e autor de dois livros: A Mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira (2016) e Biblifique-se: formando uma geração da Palavra (2018).

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