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Opinião

O fórum teológico dos ouvidos moucos

O “eu sou de Paulo, eu sou de Apolo” da Igreja de Corinto vem tomando formas distintas ao longo da história, e nos dias modernos alguns viram nos limites denominacionais barreiras intransponíveis para a comunhão fraternal.

Alex Esteves

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Criança com as mãos nos ouvidos
Criança com as mãos nos ouvidos. (Foto: Getty)

As redes sociais trouxeram à baila não apenas o tribunal dos justiceiros sociais e do politicamente correto, além dos comentaristas especializados em assuntos diversos: trouxeram também, e a toda carga, o fórum teológico dos ouvidos moucos, para promoção de debates surdos em que alguns calvinistas, arminianos, dispensacionalistas, amilenistas e pentecostais lançam petardos inúteis, produzindo barulho e calor, mas nenhuma luz, com piadas e ironias para mostrar quem está com a razão.

Debates teológicos são importantes, necessários e podem ser muito ricos. Comentários avulsos sobre temas teológicos têm o seu lugar, podendo ser feitos, claro, nas redes sociais e em qualquer outro espaço, em homenagem à liberdade de expressão e ao bom siso.

Mas a estreiteza da plataforma das redes impede que se promovam debates mais profundos, e – aqui esta o ponto principal deste artigo – o ânimo das discussões não pode ser bairrismo, tribalismo, provincianismo, muito menos revanchismo.

O “eu sou de Paulo, eu sou de Apolo” da Igreja de Corinto vem tomando formas distintas ao longo da história, e nos dias modernos alguns viram nos limites denominacionais barreiras intransponíveis para a comunhão fraternal. Na segunda metade do Séc. XX, a expansão das igrejas pentecostais no Brasil assistiu a certa dificuldade de relacionamento entre pentecostais e “tradicionais”, dificuldade esta alimentada reciprocamente, com argumentos do tipo “Tal igreja é fria”, “Tal igreja não conhece a Bíblia”.

Felizmente (em algum sentido), o cenário evangélico se ampliou e se alterou, e notadamente em cidades com maior interação social entre crentes de diferentes denominações houve uma mudança de atitude quanto a cristãos de confissões distintas. A pluralidade impôs novas perspectivas, querendo ou não. Todavia, o provincianismo parece ter migrado do simples denominacionalismo (às vezes de tipo feudal) para algo que parece (só parece) mais sofisticado: o confessionalismo briguento de internet.

Se, por um lado, já não se diz com o mesmo orgulho “Eu sou presbiteriano”, “Eu sou batista”, “Eu sou assembleiano”, isto se fez substituir por “Eu sou calvinista”, “Eu sou arminiano”, “Eu sou dispensacionalista”, “Eu sou amilenista”, “Eu sou pentecostal”. Não percebem que a leitura de alguns livros teológicos não os autoriza a defenestrar do Cristianismo Histórico correntes teológicas e confissões de fé que, reunidas, formam um arcabouço respeitável, reformado no sentido amplo e contrário ao liberalismo teológico.

Tais debatedores surdos esquecem das contundentes exortações paulinas contra discussões “inúteis e vãs” (cf. Tt 3.9), “questões e contendas de palavras”, com “altercações sem fim” (cf. I Tm 6.3-5; ver também II Tm 2.22-26). Emprego estas citações tendo consciência do seu contexto imediato, mas estou hermeneuticamente autorizado a dirigir a aplicação dos mencionados textos a toda espécie de debate vazio, insistente, não edificante, autocentrado, que desperdiça tempo e do qual nada se aproveita, servindo apenas de motivo para a construção de trincheiras reforçadas a cada declaração favorável “do lado de cá” ou desfavorável “do lado de lá”.

Há, sim, um aspecto positivo nesse fenômeno de debates ampliados: crentes de variadas idades, confissões e papeis na Igreja têm se interessado por temas teológicos, o que é muito importante. Entretanto, o jeito adequado de dar vazão a essa curiosidade é estudar teologia, nos diferentes modos em que ela pode ser estudada: leitura de livros e artigos (acadêmicos ou não); participação em cursos on line ou presenciais (nos níveis básico, médio ou avançado); acompanhamento de vídeos de pregação e palestras; inscrição em seminários, conferências, simpósios, mesas redondas. Não se excluem páginas em mídias e redes sociais, nem mesmo aplicativos de mensagens, instrumentos que, se bem aproveitados, podem contribuir para boas conversas sobre teologia, doutrina e passagens bíblicas.

Estamos diante de um problema real (embora vivido no mundo virtual). Tanto é assim que em 2015 diversos pastores brasileiros subscreveram uma Nota Pública sobre Debates entre Calvinistas e Arminianos, cujos derradeiros parágrafos estão assim dispostos (conforme transcrição extraída do site Voltemos ao Evangelho):

Reconhecemos as diferenças marcantes historicamente existentes entre as tradições calvinistas e arminianas, notadamente em referência à doutrina da salvação. Todavia, tais divergências teológicas não suplantam a comunhão cristã que deve haver entre os irmãos dessas duas vertentes da cristandade. Em uníssono, à luz das Escrituras Sagradas, enfatizamos que a salvação somente se alcança em Cristo somente, mediante a graça somente, pela fé somente (Rm 3.24; Ef 2.8; Tt 2.11).

Finalizamos com a menção ao episódio em que o calvinista George Whitefield foi perguntado se esperava ver o arminiano John Wesley nos céus. Sua resposta foi: “Não. John Wesley estará tão perto do Trono da Glória, e eu tão longe, que dificilmente conseguirei dar uma olhadela nele”. Assim se tratam verdadeiros cristãos que discordam em questões de soteriologia, mas que não fazem nada por contenda ou vanglória, e consideram os outros superiores a si mesmos (Fp 2.3). E, sobretudo, estes sabem o preço custoso com que foram comprados por Cristo Jesus.

Considero que a referida Nota Pública pode e deve nortear nosso comportamento, na internet e de modo geral, quanto às controvérsias teológicas que orbitam em torno de nossa comunhão.

Agora, uma nota ao mesmo tempo conclusiva e adicional: suponho que este texto será lido e bem interpretado por alguns, enquanto outros entenderão exatamente o contrário do que eu escrevi; ainda outros farão comentários tendo lido apenas o título e o subtítulo. E isto comprovará o que estamos dizendo.

Se não conseguem interpretar um texto simples, e já saem tecendo comentários cheios de razão e afetada sapiência, o que não farão com as grandes doutrinas da Fé Cristã? Aqui tomo de empréstimo uma indagação muito sugestiva que consta do Livro de Jeremias (12.5): “Se te fatigas correndo com homens que vão a pé, como poderás competir com os que vão a cavalo?”

Ministro do Evangelho (ofício de evangelista), da Assembleia de Deus em Salvador/BA. Foi membro do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Fraternal dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Estado da Bahia, antes de se filiar à CEADEB (Convenção Estadual das Assembleias de Deus na Bahia). Bacharel em Direito.

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