Siga-nos!

Opinião

O evangelho não é apenas uma boa notícia

Para aqueles que não estão dispostos a renunciar a sua própria vida, o evangelho não é uma notícia agradável

Cláudio Santos

em

Cristo e o Homem Rico. (Foto: Pintura de Heinrich Hofmann)

Jesus era confrontador em seus sermões. A base do seu ministério era mostrar aos homens o quanto estavam perdidos e precisavam de salvação. Frequentemente, a mensagem dele era desagradável, alarmante e revelava o pecado. Alguns ao ouvirem as verdades das Escrituras reagiam com desdém ou não aceitavam.

Literalmente, a palavra “evangelho” significa “boa mensagem”, “boa notícia” ou “boas-novas”. De fato, o evangelho é a boa notícia para aqueles que se arrependem e se submetem a serem discípulos fiéis e dependentes do seu Senhor. Contudo, não é uma boa notícia para aqueles que o rejeitam. Sobre este aspecto da mensagem, John MacArthur faz a seguinte observação: “O evangelho, entretanto, não é todo boas-novas. Aliás, não é uma boa-nova para aqueles que rejeitam a Cristo”.[1]

Na Bíblia temos situações distintas com dois personagens conhecidos, que nos ensinam algumas lições e verdades importantes, além de nos mostrar exemplos das reações, negativa ou positiva, que o evangelho pode provocar nas pessoas.

O jovem rico (Marcos 10.17-22)

Na primeira, estamos diante de um jovem religioso e rico (um homem de posição e riquíssimo, segundo o relato de Lucas 18.18-23), que pergunta a Jesus o que ele deve fazer para herdar a vida eterna: “Bom mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (v. 17). Após ter ouvido a mensagem de Jesus diretamente para ele: “Vai, vende tudo o tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então vem e segue-me” (v. 21), o moço sai contrariado com esta palavra “retirou-se triste porque era dono de muitas propriedades” (v. 22).

Pedro (João 6.66-69)

Na segunda situação, temos Pedro, o apóstolo. Ele estava presente quando Jesus pregou uma das mensagens mais desagradáveis aos judeus em João 6.22-65, ao se intitular como “O Pão da Vida” (vs. 35 e 48). Nesta fala, ele se referiu ao maná que o povo de Israel tinha comido no deserto (Êxodo 16.15) como uma coisa passageira, ou seja, um alimento físico que satisfaria por certo tempo, mas logo eles ficariam com fome novamente. E por que Jesus usou essa linguagem? Algumas pessoas ao verem que ele operou o milagre da multiplicação de pães em Cafarnaum, foram atrás dele para terem mais, em outras palavras, queriam apenas o benefício material (João 6.1-15 e 22-27). Ele se identificou como o Pão que desceu do céu, mas diferente do pão que o povo comeu na época de Moisés, quem comesse deste Pão viveria eternamente. Com esta afirmação, ele revelava que a salvação só poderia ser alcançada através dele. Jesus usou este tipo de linguagem (metáfora) diversas vezes em João.[2]

Este discurso em nada agradou aos judeus, afinal, muitos entre eles acreditavam que Jesus não era o Filho de Deus, pois se acreditassem teriam que segui-los e significaria abandonar a Lei de Moisés e tradições. Afirmar isso para uma plateia que nasceu e foi criada ouvindo dos pais que a provisão de Deus no deserto, através do maná, era uma das coisas mais maravilhosas da história do povo de Israel, era no mínimo chocante.[3] Por isso, alguns murmuravam (v. 41) tentando provar que ele era apenas um homem comum, filho de José (v. 42). Isso escandalizou os ouvintes que afirmaram: “Duro é este discurso; quem o pode ouvir?” (v. 60). Depois de ouvi-lo, além de ficarem chateados, o abandonaram. (v. 66).

É neste cenário que Jesus pergunta aos seus doze apóstolos: “Porventura, quereis também vós outros retirar-vos?” (v. 67). É possível imaginar o silêncio que houve ao escutar esta pergunta tão confrontadora. Entre eles, Pedro levanta e responde: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus.” (v. 68). 

A reação do jovem rico diante de Jesus

Qual seria a diferença do jovem rico em relação a Pedro? Se lermos Marcos 10.19-21, vamos notar uma evidente diferença: “Sabes os mandamentos: Não mataras, não adulterarás, não dirás falso testemunho, não defraudarás ninguém, honra a teu pai e tua mãe. Então, ele respondeu: Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude. E Jesus fitando-o, o amou e disse: Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então vem e segue-me”. Qual foi a resposta? Ele se retirou triste.

É bem provável que o jovem rico fosse um exemplo para cada um de nós, sendo o mais aplicado em praticar os mandamentos. Com certeza, a maioria dos evangélicos não passariam ilesos diante da lista de mandamentos, talvez o próprio Pedro não fosse tão perfeito quanto o jovem, no entanto ele estava em falta: era apegado as suas riquezas materiais, era dono de muitos bens. É claro que Jesus não incentiva a ninguém viver uma vida miserável, o que ele estava ensinando ali não era que para sermos salvos devemos ser pobres. A lição de Jesus nesta passagem é que nossa postura religiosa não o impressiona, afinal de contas, podemos praticar os mandamentos visíveis, aqueles que os homens não podem nos condenar, no entanto, ainda assim, estaremos em falta se fomos apegados às coisas materiais ou qualquer outra coisa que para nós tenha valor.

Poderia o jovem rico se arrepender? Poderia ele largar tudo e seguir Jesus? Na verdade, era o que ele deveria ter feito, mesmo que o seu sentimento fosse contrário àquele chamado. Não sabemos o que aconteceu a ele depois desse episódio, todavia uma coisa é certa: se ele não atendesse o chamado de Jesus, não seria salvo.

O pecado do jovem rico era o apego aos seus bens, mas isso não quer dizer que a mensagem exclui aqueles que têm um pecado diferente. Jesus nos chama ao arrependimento, a deixarmos tudo por amor a ele, ainda que isso vá nos custar muito caro. Infelizmente, alguns rejeitam essa mensagem e preferem seguir a vida com seus prazeres canais. C. S. Lewis, em seu livro Cristianismo Puro e Simples, exemplifica o que Cristo quer fazer em nós:

“Cristo diz: quero tudo o que é seu. Não quero uma parte do seu tempo, uma parte do seu dinheiro e uma parte do seu trabalho: quero você. Não vim para atormentar o seu ser natural, vim para matá-lo. As meias-medidas não me bastam. Não quero cortar um ramo aqui e outro ali; quero abater a árvore inteira. Não quero raspar, revestir ou obturar o dente; quero arrancá-lo. Entregue-me todo o ser natural, não só os desejos que lhe parecem maus, mas também os que se afiguram inocentes – o aparato inteiro. Em lugar dele, dar-lhe-ei um ser novo”.[4]

A reação de Pedro diante de Jesus

Alguns rejeitam a mensagem, outros encontram nela a coisa mais agradável de suas vidas, ainda que a mesma se apresente como uma ofensa aos conceitos, ideologias ou concepção religiosa, ainda que massacre o ego e filosofias humanistas ou qualquer sentimento de justificação própria. Quem entende que está perdido e precisa de salvação, responde a mensagem de Jesus com humildade e sinceridade, não quer receber apenas o pão que perece, mas acima de tudo o Pão da Vida que alimenta a alma e salva o pecador da perdição eterna. John MacArhur diz, com razão, que os que estão sendo verdadeiramente salvos têm que, e haverão de, aceitar o lado negativo como motivação para se arrependerem.[5]

Neste sentido, o evangelho é uma boa notícia que carrega, consequentemente, uma má notícia para aqueles que não estão, como o jovem rico, dispostos a renunciarem a sua própria vida. O próprio Jesus expôs isso quando disse:

“Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvará. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder-se ou a causar dano a si mesmo? Porque qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do Homem…” – Lucas 9.23-26.

Como nós, Pedro não era perfeito. Talvez fosse o apóstolo que mais teve momentos de não-convertido. Não é difícil encontrar nos Evangelhos situações onde ele parecia o menos santo dos apóstolos. Ele duvidou e começou a afundar na água (Mateus 14.27-32), foi repreendido com veemência depois de ter dado lugar a Satanás (Mateus 16.21-23), Cristo orou por ele para que a sua fé não desfalecesse (Lucas 22.31-34), em uma atitude de raiva cortou a orelha de Malco, servo do sumo sacerdote (João 18.10), além de ter negado Jesus por três vezes (Mateus 26.69-75). Com todos estes erros é fácil pensar que Pedro não amava Cristo de fato.

Este é o mesmo Pedro que foi questionado por Jesus: “quereis também vós outros retirar-vos?”. Depois de um discurso como aquele, ele poderia ter feito como o jovem rico e alguns que deixaram o Mestre, mas por que ele não o fez? Seria Pedro menos pecador que o jovem? Não! É evidente que Pedro ainda não estava com sua fé madura e fortalecida, como vemos no seu discurso perante o Sinédrio (Atos 4.5-21), mas o apóstolo reconhecia, apesar das suas falhas, que não havia salvação fora de Jesus Cristo.

Essa verdade é expressada quando ele declara abertamente: “…para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna”. Com tal declaração, Pedro estava expondo aquilo que, com certeza, o levou a viver e morrer pelo evangelho. Ao receber o confronto de Jesus, ele não deu as costas, pelo contrário, se rendeu em amor e reconheceu que não há salvação em nenhum outro. Isso fica mais explícito quando lemos seu discurso perante as autoridades, os anciãos e escribas “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (Atos 4.12).

Deus tolera fracos, imperfeitos, pessoas que a sociedade considera desprezíveis, aqueles que são excluídos e em nada são exemplo, isso é próprio da sua graça, amar quem não merece amor, como vemos na parábola do fariseu e o publicano (Lucas 18.9-14). No entanto, Deus não olha nossos pecados com algo comum ou simples. Ele exige que reconheçamos que somente através da sua obra na cruz podemos ser salvos. É impossível haver salvação para aqueles que aceitam apenas a parte da provisão, mas não se submetem a correção e disciplina. Quando há essa sujeição, há também justificação que acontece pela graça que transforma as nossas vidas. 

REFERÊNCIAS E NOTAS:

[1] [5] MACARTHUR, John. Com Vergonha do Evangelho. 1. ed. São José do Campos, SP: Editora Fiel, 1995, p. 152-153.

[2] A linguagem através de metáforas foi muito recorrente no relato de João. Podemos ver claramente o mesmo tipo de exposição em outras passagens: a Luz (8.12); a Porta (10.9); o Bom Pastor (10.14); a Ressurreição e Vida (11.25); o Caminho, a Verdade e a Vida (14.6) e a Videira (15.5). Junto com o Pão em 6.35 somam sete metáforas usadas por Jesus para dizer “Eu Sou”.

[3] Segundo Rev. Hernandes Dias Lopes, “aqueles que comeram o maná no deserto morreram, mas aqueles que comem do pão da vida jamais morrerão, eternamente. O maná do deserto era comido com os dentes, mas o pão da vida é tomado pela fé. O maná era ingerido fisicamente e alimentava o estômago; o pão da vida é recebido pela fé e alimenta a alma. O pão não é apenas para ser conhecido, mas, sobretudo, para ser apropriado. Só quem se alimenta de Cristo, vive por ele” – LOPES, Hernandes Dias. João: as glórias do Filho de Deus. 1. ed. São Paulo-SP, Hagnos, 2015, p. 209.

[4] LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. 3. ed. São Paulo-SP, Editora WMF Martins Fontes, 2009, p. 259.

Cristão e jornalista.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE