Siga-nos!

Política

O cristão e a política

Não vejo, em um primeiro momento, qualquer óbice para um cristão atuar na política.

Leandro Bueno

Publicado

em

Publicidade


Pessoalmente, eu sempre entendi o Reino de Deus, como algo que se inicia no AQUI E AGORA, manifestado pela boas-novas que trazemos as pessoas, tendo como valores principais a verdade, a justiça, a paz, a fraternidade, o perdão, a liberdade, a alegria e a dignidade da pessoa humana.

É exatamente sobre essa perspectiva que busco escrever esse artigo, não esquecendo que poderíamos também falar sobre a outra realidade de Reino de Deus, que se estabelecerá em definitivo no fim dos tempos, no dia do Juízo Final e na existência eterna, porém, esta última ótica foge do que se pretende discutir aqui.

Publicidade

Neste sentido, penso eu que uma das ferramentas como esse Reino de Deus pode ser manifestado em nosso mundo é através da política, que é um termo derivado do grego antigo politéia, indicando todos os procedimentos relativos à “polis”, ou a cidade-Estado.

Em outras palavras, a política pode ser definida como a arte ou ciência da organização, direção e administração das esferas de poder, sendo que ela também se manifesta no âmbito individual, com nossas posturas diárias. Até mesmo para aquele que diz “eu odeio política e não me envolvo”, sua postura omissiva tem repercussão na esfera daqueles que nos governam.

Publicidade

Neste contexto, não vejo, em um primeiro momento, qualquer óbice para um cristão atuar na política. Acho até plenamente justificável também que um grupo social formado por milhões de pessoas, como é o grupo dos religiosos, se vejam representado na esfera pública, até para que determinadas questões, a meu ver, um tanto absurdas, não prosperem no congresso.

Entre esta questões, poderia citar, a liberação das drogas e aborto, operações de troca de sexo em menores de idade, mesmo sem autorização dos responsáveis (bastando o menor procurar a Defensoria Pública para ajuizar a ação), profissionalização da prostituição, implantação na marra da ideologia do gênero, como se fosse ciência, etc.

Ocorre que infelizmente, vários cristãos têm se lançado à política partidária sem qualquer preparo, parecendo muitas vezes, que os únicos requisitos a serem atendidos seriam ter um certo carisma e pertencer ao “grupinho” que lidera a igreja.

Publicidade

Muitos destes não possuem nenhuma visão coletiva, mas, sim, um mero afã de atender seus interesses econômicos imediatos, quando não enriquecer mais nesta atividade, já que para alguns, a igreja parece ter ficado pequena tamanha é sua volúpia  por fama e poder.

E é a partir de algumas observações que tenho feito, que escrevo esse artigo com bastante tristeza, pois não tenho dúvidas em afirmar que o procedimento de muitos cristãos que têm atuado no campo político tem sido muito vergonhoso, quando não característico de páginas policiais, criando uma grande dificuldade até para a evangelização, uma vez que se cria para um público mais heterogêneo e pluralista fora das igrejas, uma imagem distorcida de que a maioria dos evangélicos são gente de índole duvidosa.

Vejamos, então, algumas das situações que há muito já deveriam ter sido banidas do meio cristão no tocante à política e parecem não ter fim.

O artigo 37 da Lei das Eleições (Lei no. 9.504/97) diz que templos são considerados bens de uso comum para efeitos eleitorais, sendo, portanto, vedada a veiculação de propaganda de qualquer natureza, inclusive pichação, inscrição a tinta e exposição de placas, estandartes, faixas, cavaletes, bonecos e assemelhados. Há diversas notícias de templos e suas dependências sendo utilizados de tal forma.

Senão bastasse isso, outro tipo de propaganda nos templos muito comum é levar candidatos, muitos de caráter duvidoso, para falar no púlpito, ou colocá-los em destaque, chamando-os à frente para receberem orações e apresentá-los como representantes “nossos” no Congresso.

Se formos ser honestos, muitas destas “orações” são meras hipocrisias, que acabam não sendo capazes de encobrir os verdadeiros interesses que as motivaram. Será que muitos destes líderes a que me refiro orariam e chamariam o “Zé-ninguém” da esquina para subir ao púlpito e receber uma oração, mesmo  que ele muitas vezes já fosse um membro fiel daquela igreja há anos ?

Quando um líder se presta a tal tipo de papel, a meu ver, está apenas tirando de muitos de seus membros a capacidade de pensar, de raciocinar, indo totalmente contra um maior grau de consciência política, principalmente nestas igrejas onde a palavra do “ungido de Deus”, do “apóstolo” é quase uma ordem de Deus na Terra para essa gente. Então, para quê pensar?

Publicidade

Por outro lado, pessoalmente, fico estupefato com determinados projetos de lei que são apresentados pelas bancadas evangélicas, muitos totalmente irrelevantes e outros infelizmente parecendo produto de alguém que só olha para o próprio umbigo ou do seu grupo e não para toda a coletividade. Cito 2 exemplos.

Recentemente, vi um deputado que apresentou um projeto de lei querendo isentar os líderes religiosos de poderem ser processados pelos crimes de difamação e injúria. Para quem não sabe, difamação é imputar um fato ofensivo à reputação de alguém e a injúria é você ofender a dignidade (atributos morais) ou decoro (atributos físicos) de outra pessoa. Pergunto: É papel de um cristão cometer crimes como estes, e ser isento de tais delitos contra a honra com base em outra lei?

Ademais, foi aprovada uma lei em uma cidade no interior de Minas Gerais, que reservou vagas nas ruas frontais e laterais das igrejas para os líderes religiosos estacionarem seus veículos.

Fico pensando o que passaram a achar as pessoas do lugar, que não pertencem àquela igreja ou que são céticas, quando, querendo estacionar seu veículo nas proximidades das igrejas, vêem estas reservas específicas para líderes religiosos, ainda mais quando já temos vagas para deficientes, para idosos, etc., e poucos estacionamentos disponíveis. Não é nada difícil imaginar o nível de animosidade e repulsa que muitos devem ter ficado.

Além disso, uma coisa que me causa espécie são projetos da bancada religiosa que só visam dinheiro e outras vantagens econômicas.

Recentemente, uma revista semanal brasileira e um conhecido jornal citou alguns conhecidos líderes religiosos que estavam enrolados com a Receita Federal, chegando a autuações de R$ 300 milhões.

Porém, um polêmico “jabuti” (como se chama a artimanha legislativa de querer inserir um tema totalmente estranho à uma medida provisória), aumentou a isenção fiscal, ao livrá-los das chamadas “comissões.”

Na prática, funciona assim, como esclarece-nos um recente artigo de um jornalista-econômico que li: o líder pode receber um salário mínimo oficialmente e continuar pagando contribuição previdenciária e imposto de renda sobre essa remuneração. À parte, por causa de seu desempenho, ele pode receber uma comissão – “ajuda de custo” para moradia, transporte, educação – da ordem de R$ 100 mil, por exemplo, sem que esse valor seja tributado.

Pergunto: Onde está Jesus nisso? Não consigo ver. E o mais esdrúxulo foi me deparar pouco tempo depois com um video amplamente viralizado nas redes sociais, onde um destes pastores citados nas reportagens, aparece em um evento, onde diz que a autuação fiscal que sofrera fora uma “perseguição DEMONÍACA” (sic.).

Nesta hora, dá vontade de ler para esse líder, o que Paulo escreveu em Romanos 13:1, 6-7, verbis: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridade que existem foram pore le instituídas… Por este motivo também pagais tributos: porque são ministros de Deus, atendendo constantemente a esse serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem honra, honra.”

Outra situação muito comum são projetos de lei aprovados apenas para colocar eventos religiosos nas agendas culturais da cidade, com o intuito de receber verbas dos municípios. Pessoalmente, em um país como o nosso, onde falta de tudo, acho totalmente absurdo dinheiro público empregado, por exemplo, em Marchas para Jesus, Marchas GLBT ou qualquer outro tipo de evento do gênero, que promova festividades que não interessem à toda a coletividade. Cada grupo deve arcar com suas festas, mas não é isso o que temos visto.

Outrossim, não é incomum ver líderes religiosos, que colocam seus fiéis para votarem em massa em um candidato X ou Y, para durante os mandatos, caso esses candidatos sejam eleitos, passem a auferir prestígio politico e vantagens econômicas, até com doações de terrenos para igrejas.

Finalmente, gostaria de destacar algo que para mim é um dos maiores erros de muitos políticos da bancada evangélica que é esse confronto aberto, focado praticamente apenas na questão homossexual, na falta de um projeto maior de nação a ser apresentado.

Se há trechos bíblicos que veem a homossexualidade como um pecado, temos que essa é uma questão eminentemente espiritual, a qual a pessoa prestará conta a Deus, como qualquer outra pessoa também o fará, já que todos estamos destituídos da glória de Deus (Romanos 3:23).

Assim, como regra, não há espaço, a meu ver, para querer se limitar direitos civis para determinadas pessoas, já que todos são cidadãos e pagam impostos. Ou seja, não me parece nem de longe razoável, invocar a orientação sexual de uma pessoa para limitar seus direitos civis, já que nem todos na sociedade plural em que vivemos adotam o texto bíblico como referencial para suas vidas e nunca vi na Bíblia uma determinação para que nossa fé seja imposta como lei a outras pessoas.

O maior problema que vejo nesta questão é um embate, muitos vezes extremamente pobre, entre a bancada religiosa e defensores de direitos GLBT, que agem da mesmíssima forma. Parece que o mundo girasse apenas em volta deste tema, evidenciando-se um debate de sexo dos anjos e bizantino demais.

E essa “guerrinha santa” é fomentada em especial por uma mídia ávida para ver o “circo pegar fogo”, e ver a pecha de homofóbicos, misóginos, fundamentalistas (uma das palavras mais mal-empregadas nos debates hoje em dia), etc., ser colada na cara da parte da população que é religiosa.

Vale lembrar, neste ponto, que uma das formas mais inteligentes pelas quais se busca calar os religiosos hoje no debate público é colar rótulos e dizer que eles só podem se expressar dentro das quatro paredes de suas igrejas. E usar rótulos é a forma mais marota que se vale àquele que não quer pensar, já que o todo nunca pode ser julgado pela parte.

Sucede que muitos destes políticos religiosos, com sua atabalhoadas, para não dizer, risíveis intervenções midiáticas, acabam fazendo o jogo destes grupos que querem ridicularizá-los. E por tabela, acabam tais políticos prestando um total desserviço à parcela da população que dizem representar.

Concluindo, entendo que a política é um campo extremamente delicado para quem tem valores sólidos e quer, de fato, agradar a Deus. Porém, é um dos meios que Deus concedeu ao homem para a implantação de seu reino neste mundo. A Bíblia mesmo é cheia de exemplos de líderes como Davi, que foi colocado como alguém com o “coração de Deus” (I Samuel 13.14) e outros terríveis, como Saul, Acabe, etc.

Assim, penso que quem decidir entrar nesta área, que antes de tudo, faça uma análise honesta e profunda, a fim de saber quais são suas reais motivações e, caso seja eleito, que nunca pense que os fins justificam os meios. Quem pensava assim era Maquiavel, em seu livro O PRINCÍPE, porém, esta não é a ética que nos ensina a Bíblia.




Gosta do nosso conteúdo? Considere ajudar nosso ministério! Saiba mais em apoia.se/gospelprime


Comente!
Publicidade
    Publicidade
    Publicidade

    Trending