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Opinião

Modos de ser evangélico

Entre a espiritualidade ativista-coletiva e a espiritualidade mais devocional

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Marcha para Jesus em Curitiba
Marcha para Jesus em Curitiba. (Foto: Divulgação)
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Sendo assembleiano desde criança, recebi em minha formação religiosa traços de uma espiritualidade que pode ser classificada, neste artigo, como ativista-coletiva: o assembleiano típico – e o pentecostal de modo geral – valoriza a oração coletiva, a presença “nos trabalhos” da igreja, uma razoável quantidade de cultos durante a semana, as expressões verbais de louvor, certa ostensividade nas manifestações do ser cristão, o exercício da pregação compartilhado pelos crentes, uma linguagem de grupo (“varão”, “a paz do Senhor” etc.).

Não me refiro aqui somente ao ativismo básico que caracteriza o movimento evangélico contemporâneo (de raiz americana, evangelical), embora os fenômenos estejam historicamente relacionados: refiro-me, na verdade, a um traço mais específico do Pentecostalismo, que se evidencia numa espiritualidade que precisa se manifestar na congregação e de forma ostensiva. Um pentecostal de pouca vivência interdenominacional pode eventualmente se exasperar quando depara com outros modos de ser evangélico, pois confunde a sua identidade e cultura religiosa com a própria essência do servir a Deus.

Foi o que aconteceu comigo, quando conheci cristãos de diferentes denominações ao iniciar o curso universitário, pelos idos de 1996. Assustei-me com um estilo que para mim parecia pouco militante e muito liberal – à época, eu pensava mais em termos de usos e costumes, mas agora, mais maduro, posso ampliar a percepção e entender que havia ali modos diferentes de ser evangélico, não apenas quanto a usos e costumes, mas em termos de como se percebia o próprio relacionamento com Deus, a vida cristã, a Igreja, o mundo e a Bíblia.

Tendo saído de uma cidade do interior da Bahia, e com uma experiência apenas assembleiana, estava eu agora numa universidade federal em Minas Gerais, repleta de batistas históricos, batistas renovados, presbiterianos, assembleianos de mente mais aberta, metodistas, gente da Maranata, uma quantidade muito grande de crentes que não se encaixavam no modelo que eu considerava santo. Como diz minha filha adolescente, minha mente “bugou”.

Logo fui convidado a participar das reuniões do Ministério Campus, projeto mantido pela Convenção Batista Brasileira que atuava por meio de uma missionária dentro do campus universitário, auxiliando espiritualmente estudantes dentro de alojamentos e salas de aula. Ali eu convivi com batistas e deparei com um jeito diferente de cultuar a Deus: louvores serenos, um violão tranquilo, uma exposição bíblica simples, porém devocional, meditativa e prática. Estimulava-se a devoção pessoal, a piedade cristã, a autenticidade, a disciplina na oração individual e na leitura da Bíblia, o caminhar constante na fé.

Não demorou muito, eu já estava na Aliança Bíblica Universitária (ABU), onde conheci uma nipo-brasileira paulistana que congregava na Presbiteriana, tinha sido batizada na Igreja Cristã Evangélica e cuja família vinha de uma tradição Holiness – foi com essa moça que me casei pouco depois de me formar em direito. Além do temperamento mais tranquilo que o meu (muito mais tranquilo, diga-se), ela vinha de uma cultura religiosa mais devocional – não que o assembleiano não valorize as práticas devocionais; destaco aqui as ênfases de cada herança evangélica em particular. Se para mim, como membro de igreja pentecostal histórica, eram decisivas as manifestações tonitruantes de fé, para ela, e para os demais colegas abeuenses (quase todos presbiterianos), a fé se evidenciava num cotidiano de oração individual, leitura não homilética da Bíblia,  comunhão silenciosa, testemunho cristão registrado na escola, no trabalho e, enfim, no contato com o mundo das pessoas.

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Outro aspecto interessante é que, para mim, àquela altura um jovem pentecostal inexperiente, todo não pentecostal era um “tradicional”, sem distinção, sem matizes. Na realidade, eu nem sabia que minha namorada vinha de um movimento cuja origem, assim como o Pentecostalismo, se abeberava de John Wesley (1703-1791), o pai do Metodismo e do Movimento de Santidade (Holiness). Constrange-me supor que demoremos tanto tempo para perceber as diferentes possibilidades de ser evangélico, enquanto destacamos mais as divergências do que as convergências.

Na ABU ouvi falar de “unidade na diversidade”. Lembro de eles acharem muito bom terem em seu círculo alguns pentecostais: os batistas ficavam no Ministério Campus, os presbiterianos reuniam-se na ABU, os assembleianos criaram o Grupo Pentecostal de Evangelização Universitária (GPEU), e eu… participei dos três. Eu gostava daquele ambiente efervescente de evangelização, estudos bíblicos, contato com pastores e missionários, discipulado dentro do campus, a possibilidade de conviver com tantos evangélicos enquanto estudava direito. Antes de chegar a Viçosa-MG, eu pensava que seria muito solitário como cristão na universidade, mas não foi nada disso: encontrei muitos irmãos em Cristo, e aprendi com eles. Essa experiência mudou a minha percepção do reino de Deus.

Quando cheguei a um curso superior em teologia na cidade de Campo Grande-MS, nos idos de 2007 (e em que estudei por quase dois anos), deparei com cristãos de diferentes denominações, mas já estava um tanto “calejado”. Minhas preocupações voltavam-se mais aos problemas do próprio Pentecostalismo, como as infiltrações provenientes da Teologia da Prosperidade. E de lá p’ra cá novas reflexões se apresentaram, como aquela que versa sobre a maneira pela qual devemos preservar a identidade pentecostal assembleiana – no nosso caso – diante da influência calvinista, sem que, nessa empreitada, incorramos no erro do bairrismo, do sectarismo.

A controvérsia que opõe arminianos-pentecostais e calvinistas-cessacionistas é mais ou menos recente, no que concerne à sua popularidade e à batalha empreendida por pentecostais brasileiros em defesa de sua cosmovisão, doutrina e teologia. Mas o meu ponto aqui está relacionado às convergências, não às divergências.

Com efeito, nesse gradiente de estilos evangelicais, dentro do Cristianismo Histórico e Ortodoxo, podemos aprender uns com os outros. Podemos, por exemplo, aprender com os reformados, em cuja tradição o culto se debruça sobre elementos essencialmente neotestamentários, como a oração, o louvor, a pregação expositiva, sem a interferência de ações em que interlocutores falam entre si, deixando Deus “de fora”. Podemos aprender com as comunidades cristãs que procuram cultivar uma comunhão fraternal mais simples, menos engessada, menos centralizada em estruturas de poder eclesiástico.

Podemos aprender com o estilo batista de ser democrático, missionário, cooperante. Podemos aprender com o Movimento Holiness e seu interesse numa vida cristã mais frutífera no campo moral e operacional. Podemos aprender com o estilo congregacional de igrejas como a Cristã Evangélica, cujo nome um tanto “genérico” pode dificuldar sua identificação, mas que serviu para que, por exemplo, minha esposa viesse a receber uma sólida formação doutrinária, uma visão de mundo genuinamente cristã e um claro interesse pelas práticas devocionais.

Vivemos, meus amigos, este paradoxo: por um lado, precisamos conhecer e preservar nossa identidade confessional, valorizando nossa memória afetiva e nossas referências, cada um em seu lugar; por outro lado, não podemos perder de vista nossa visão de reino. Nosso campo é o mundo, nossos irmãos estão na (mesma) Igreja de Cristo, nossas bases de fé compartilhadas são a essência do Evangelho, nossa cultura pode influenciar a sociedade, nossa cosmovisão precisa estar pautada nos pilares oferecidos pela Bíblia Sagrada, e as missões não se fazem de forma bairrista. No campo e no reino, todos somos iguais.

 

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