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Opinião

Minha mãe é a maior referência cristã que tenho

Esse é o maior acervo que um filho pode receber de seus pais.

Alex Esteves

Publicado

em

Mulher cristã. (Photo by Olivia Snow on Unsplash)
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Minha mãe, Maria Luíza Esteves da Rocha Sousa, é uma senhora piauiense de 75 anos, bióloga, professora aposentada do Estado da Bahia, que frequentou a Assembleia de Deus de Alto Longá-PI dos 8 aos 10 anos de idade, e veio depois a manifestar sua decisão por Cristo numa Igreja Presbiteriana em Salvador, quando já cursava a faculdade de História Natural (hoje Biologia) na Universidade Federal da Bahia. Dez anos passados, estando já em Alagoinhas-BA como professora da rede estadual, voltou para a Assembleia de Deus – corria o ano de 1975.

Dona de uma mente privilegiada e conhecedora da Bíblia e das doutrinas cristãs, por muitos anos minha mãe ministrou aulas de escola dominical em diferentes classes: crianças, jovens e senhoras. Em razão de enfermidades e das contingências da idade, minha mãe só pode visitar a igreja uma vez por semana, e o faz justamente na escola dominical. Seus livros e revistas de escola dominical são cheios de anotações, destaques à caneta e nomes das pessoas por quem está orando. E, por algum tempo, ela distribuiu na igreja papéis com versículos, desenhos e palavras de incentivo, nominalmente identificados, com todo o carinho.

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A oração é uma constante na vida de minha mãe. Quando eu ainda morava na casa dos meus pais, era comum vê-la de joelhos junto à cama, orando e lendo a Bíblia. Sua vida é, para mim, a demonstração cabal de que é possível ser crente de verdade, praticando o que se prega e pregando o que se pratica. Ela, de fato, manifesta as virtudes cristãs do amor, da generosidade, da simplicidade, da humildade, da justiça, do “dar a outra face”, do conhecimento espiritual e do zelo pela Palavra de Deus.

Minha mãe lê bastante, não somente a Bíblia, mas tudo o que puder. Dei-lhe por esses dias uma Declaração de Fé das Assembleias de Deus no Brasil, e não tenho dúvidas de que o livro ficará todo rabiscado com sua indefectível caneta. Sua mente é lúcida, vivaz, dinâmica, inteligente e renovada, embora o corpo insista em não acompanhar sua velocidade (realmente aquela bengala de que hoje minha mãe precisa não combina em nada com a rapidez de seu raciocínio, muito menos com o frescor de juventude que nunca saiu do seu coração).

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“Dona Luíza” escreveu alguns livros e publicou dois, ambos de poemas (Nuance e Um Gosto de Mel). Esteve entre os fundadores da Casa do Poeta de Alagoinhas. Foi professora de ciências por mais de 25 anos, e “tomou conta” do laboratório do Colégio Estadual Luiz Navarro de Brito, em Alagoinhas. Mas tem outro feito notável: foi ela quem, qual José do Egito, trouxe do Piauí sua mãe e irmãos, alguns dos quais permanecem na Bahia até hoje.

Quando eu era bem pequeno, minha mãe me levou a alguns congressos da Assembleia de Deus (Entre Rios-BA, Camaçari-BA, Aracaju-SE,). Memórias muito importantes ficaram no meu coração de criança: a primeira vez que ouvi o louvor “Cicatrizes”; os momentos em que era entoado aquele do cantor Ozéias de Paula “A melhor coisa que eu já fiz”; uma palestra em que estava presente, como ouvinte e ainda forte e saudável, o pastor Aristóteles Gomes de Santana Bispo, pioneiro da Assembleia de Deus em nossa região; os momentos do café da manhã, as conversas de minha mãe com pessoas que ela admira, o ambiente pentecostal de que gosto de recordar.

Minha mãe, com seu procedimento, me ensinou a valorizar as pessoas simples. Digo isto porque, por sua aparência frágil e singela, pode ser que alguém eventualmente não a considerasse muito, mas ela fazia questão de conversar com pastores que admirava, bem como com senhoras cristãs que tinha em alta conta – e era sempre bem recebida e valorizada.

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Hoje, como ministro do Evangelho, procuro não apenas dar atenção às pessoas simples, mas me esforço por estabelecer contato com todos na igreja, tanto quanto possível, porque ali estão almas que o Senhor valoriza. Além disso, ao dialogar acabamos descobrindo jóias preciosas ou motivos de oração: é uma senhorinha octogenária que compõe louvores, é um senhor que está com receio de se submeter a uma cirurgia, é um “patriarca” rico em experiências com Deus, é um homem cuja sabedoria espiritual desafia e supera a baixa escolaridade…

Muitas reflexões me vêm à mente quando penso na minha mãe. Uma delas diz respeito ao exemplo de Cristianismo dentro de casa. Aqui cabe citar Pv 1.8: “Filho meu, ouve a instrução de teu pai e não deixes a doutrina de tua mãe”. Eu tive muitas referências cristãs, e jamais posso dizer que não conheci crentes verdadeiros. Mas tenho o privilégio de declarar que a maior dessas referências estava em casa. E ainda está lá, no mesmo endereço, com a mesma disposição espiritual e intelectual.

Como será que aquela menininha magra do interior do Piauí migrou para a Bahia, justo para Salvador, a fim de ser a primeira universitária de toda a sua parentela? Como aquela moça acanhada do interior conquistou tantas amizades? Que força tangeu aquela moça, tal como o vento empurra uma folha a longas e desconhecidas distâncias? Qual o plano de Deus para tudo isso? O que o nosso Senhor, em Seus perfeitos desígnios, quer nos ensinar?

No meu coração, guardo as tradições que minha mãe me transmitiu – e não foram poucas. Com ela apreendi um pentecostalismo clássico, a admiração e reconhecimento pelas importantes personalidades históricas ou contemporâneas de nossa confissão, o apego à Pessoa de Jesus, a regularidade na frequência aos cultos, o discernimento do que é e do que não é ortodoxo, o amor pela escrita, o apreço pelo uso da inteligência, o respeito às autoridades, e, enfim, o valor da pessoa humana, do afeto, da sensibilidade e da atenção ao próximo.

Que o leitor compreenda o compartilhamento dessas reminiscências de um filho crente. Em tudo o que eu faço para Cristo, caro leitor, minha mãe está, e é Cristo Quem preside a vida da minha mãe. Esse é o maior acervo que um filho pode receber de seus pais.




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