Siga-nos!

Internacional

Médico que salvou mais de mil vítimas do Estado Islâmico conta os horrores da jihad

“Não havia um caso pior que o outro. Todos eram insuportáveis”, lembra Mirza Dinnayi.

em

Mirza Dinnayi salvando meninas. (Foto: Arquivo Pessoal)

O médico Mirza Dinnayi atuou em 2016 cuidando das vítimas do Estado Islâmico no Iraque, conseguindo salvar mais de mil pessoas, incluindo vítimas da etnia yazidi, da qual ele faz parte.

Uma das vítimas que mais chamou sua atenção foi Lamya, uma jovem yazidi de 16 anos que estava com o rosto queimado após conseguir escapar de uma explosão que matou duas de suas colegas que também tentavam fugir dos terroristas.

Até ser encontrada, Lamya sofreu de diversas formas. Foram um ano e meio vivendo violência e estupros, sendo vendida como escrava sexual de Mossul a Hawija.

“A encontrei cega, muito machucada, sem forças. Ela tinha muita vergonha. Não falava, não tinha vontade de viver. Os médicos não tinham condições de tratá-la no Iraque”, lembra Dinnayi à BBC Brasil.

Desde 2007 ele mantém a organização não governamental Luftbrücke Irak (Ponte Aérea Iraque) que oferece assistência para yazidis sobreviventes do Estado Islâmico e Lamya foi incluída neste programa.

De março a dezembro de 2015 a ONG conseguiu levar para a Alemanha, parceira do programa, cerca de 1,1 mil crianças e mulheres yazidis que passaram a receber tratamento médico e psicológico.

Mirza Dinnayi com Lamya. (Foto: Arquivo pessoal)

“Conseguimos salvar um olho de Lamya e, aos poucos, ela foi voltando à vida”, recorda o médico e ativista.

A jovem revelou o desejo de contar sua história ao mundo e, um ano mais tarde, recebeu o Prêmio Sakharov do Parlamento Europeu junto a outra sobrevivente yazidi, Nadia Murad, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2018.

Problemas emocionais

Dinnayi tem um trabalho importante de ajudar tantas vítimas dessa guerra, tanto que foi reconhecido com o Prêmio Aurora pelo Despertar Humanitário entregue em outubro deste ano.

Mas o trabalho lhe trouxe vários problemas emocionais, como depressão e estresse pós-traumático.

“Não havia um caso pior que o outro. Todos eram insuportáveis. Havia crianças que viram a mãe ser estuprada, meninas pequenas estupradas na frente das mães. Não gosto de lembrar”, revelou ele que mora na Alemanha desde 1994.

“Algumas imagens, eu jamais esquecerei. Imagine ter na sua frente uma menina de oito anos que te conta como foi estuprada sete, oito vezes ao dia durante meses por soldados do EI. No outro dia, uma adolescente com queimaduras de terceiro grau em todo o corpo, que tinha atado fogo em si mesma para se suicidar e escapar do tormento”, relata.

Publicidade