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Opinião

Mais lições do deserto

O deserto tem os seus perigos, mas Deus está sempre connosco.

José Brissos-Lino

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Deserto. (Photo by Giorgio Parravicini on Unsplash)

Em artigo anterior dissemos que o deserto por onde o povo de Israel teve de passar, durante quarenta anos, é comparado por alguns a esta vida terrena de lutas e dificuldades constantes.

Mas ainda assim, há grandes lições que podemos aprender da jornada do deserto. Vejamos algumas outras lições do deserto. 

Presença de Deus

Era uma constante nos rituais do tabernáculo. O centro de adoração israelita localizava-se no meio do acampamento, de forma a facilitar o acesso a todo o povo de igual modo.

A shekinah (glória do Senhor) haveria de se manifestar no compartimento mais íntimo do tabernáculo, o Santo dos Santos, mas Iavé fazia-se também presente através dos ofícios sacerdotal e levítico, desde o altar dos holocaustos à mesa dos pães da proposição, desde a bacia de cobre até ao altar de incenso e ao menorah.

Se estás a atravessar o deserto não percas o sentido da presença de Deus, nem deixes de O adorar.

Direcção divina

Era Iavé, o Deus de Israel que dirigia os passos dos hebreus assim como o ritmo da jornada. Através da coluna de fogo à noite e da nuvem durante o dia Deus não só indicava a direcção e o momento de avançar ou de montar o arraial, mas também acompanhava o Seu povo, fazendo-o percepcionar o senso da Sua presença.

A ideia de um Deus que era companheiro de jornada do seu povo era francamente inovadora. Os deuses dos gregos estavam no Olimpo e os dos egípcios tinham a sua própria habitação, mas o Deus de Israel fazia-se presente no tabernáculo, em fases de fixação do acampamento, mas também seguia com os israelitas nos períodos de marcha, quando o templo portátil era desmontado e retomada a jornada.

Mesmo no deserto precisas de orientação divina. Talvez ainda mais no deserto.

Provisão

Logo no início dos dias do deserto o Senhor começou por providenciar água potável e depois o alimento único que caía como orvalho pela madrugada, o famoso maná do céu.

Iavé, que tinha libertado os hebreus da escravidão do Egipto e que os conduzia agora pelo deserto do Sinai até à Terra Prometida, era um Deus responsável e provedor. Tinha que os alimentar onde não havia alimento disponível e fornecer água potável. E fê-lo, tal como alimentou mais tarde Elias no deserto. Lembremo-nos que o Deus de toda a provisão nos alimenta sempre que temos que passar pelo deserto.

Deus continua a ser Deus mesmo quando estamos a atravessar o deserto.

Protecção

A certa altura a praga das serpentes venenosas constituiu uma ameaça mortal para os israelitas, até que Moisés recorreu ao Senhor pedindo protecção. Foi então que a serpente de bronze foi fixada numa haste e elevada, trazendo assim cura e protecção a partir daí.

Deus tinha prometido que “nenhuma enfermidade” os molestaria, daquelas que tinham caído sobre os egípcios: “E o Senhor de ti desviará toda a enfermidade; sobre ti não porá nenhuma das más doenças dos egípcios, que bem sabes, antes as porá sobre todos os que te odeiam” (Deuteronómio 7:15), todavia não lhes prometeu imunidade total. Mas bastava-lhes a Sua presença constante, pois a velha promessa mantinha-se: “eu sou o Senhor que te sara” (Êxodo 15:26).

O deserto tem os seus perigos, mas Deus está sempre connosco.

A presença de Deus na nossa vida, mesmo em tempos de deserto, implica a Sua orientação, provisão e protecção.

Nasceu em Lisboa (1954), é casado, tem dois filhos e um neto. Doutorado em Psicologia, Especialista em Ética e em Ciência das Religiões, é director do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, em Lisboa, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e investigador.

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