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Opinião

Liberdade ou violação religiosa?

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É do conhecimento histórico e antropológico a característica humana em buscar o divino através do culto e da crença, de modo que, em toda história da humanidade os conflitos de natureza religiosa sempre existiram.

Historicamente são inúmeros os exemplos trágicos de genocídios, violência, dor e ódio em nome da fé, ovacionados pelo fundamentalismo religioso. Tornando-se, cada vez mais importante a liberdade religiosa para a edificação de uma sociedade mais livre.

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  • Infelizmente, ainda no século XXI, inúmeras guerras e violências são promovidas pelo extremismo religioso, que incontestavelmente promovem mortes em nome de Deus.

    Qualquer formato de violência contraria o espírito das escrituras sagradas. O modelo bíblico de vida segundo o evangelho, não se comparava a nenhum modelo de partido religioso da época de Jesus.

    Para se compreender melhor a liberdade que Cristo Jesus propunha durante o seu ministério, é necessário compreender os níveis de aprisionamento que escravizavam as pessoas, incluindo os encarceramentos religiosos da época.

    Assim como hoje, as manifestações religiosas e políticas na época de Jesus se dividiam em grupos ou agremiações. Onde, alguns desses grupos eram conhecidos como, fariseus, saduceus, zelotes, e essênios.

    1 – Fariseus. Provavelmente o partido dos fariseus foi criado no período anterior a guerra dos macabeus, com a finalidade de oferecer resistência ao espírito helênico caracterizado pelos costumes da Grécia. Os fariseus eram conhecidos como legalistas, separados, e formalistas, exigindo o cumprimento integral da lei. Eles controlavam as sinagogas e a religião. Jesus denunciou severamente a hipocrisia e orgulho farisaico – “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de iniquidade.” Mt 23.25

    2 – Saduceus. Era um grupo fechado, com muita influência política, que se orgulhavam da lei mosaica, eram também, conhecidos como o partido da aristocracia e dos sacerdotes abastardos. Interpretavam a pobreza como rejeição divina e tinham o controle do sinédrio e do templo. Jesus também denunciou esse partido religioso – “E Jesus disse-lhes: Adverti, e acautelai-vos do fermento dos fariseus e saduceus”. Mt 16.6

    3- Zelotes. Esse grupo representava o desenvolvimento na extrema esquerda entre os fariseus. Segundo Flávio Josefo, o fundador foi Judas de Gamala, e o significado do termo “zelote” é aquele que tem “zelo” ou ardor por Deus e pela Torah. Os participantes desse grupo desejavam acabar com o jugo romano e anunciar o reino Messiânico.

    O escrito Jean Yves Leloup escreveu que – “Os zelotes eram apoiados pelo povo assoberbado pelos impostos, mas também pelos fariseus que, apesar de não aprovarem sua violência, compartilhavam do seu zelo pela rígida aplicação da Torah. Eles também eram chamados de “sicários”, nome derivado deste pequeno punhal do qual eles nunca se separavam e que era um lembrete de que existe uma violência e uma guerra justa quando a honra de Deus, de sua terra e dos homens a quem ela é prometida é injuriada ou colocada em xeque”.

    4 – Essênios. O partido dos essênios enfatizava a observação minuciosa da lei, viviam em comunidades distantes e isoladas no deserto. Nos seus ensinos, submetiam os discípulos a rituais de iniciação, e conforme adquiriam conhecimentos, passavam para graus mais avançados.

    É impressionante, observar que, o objetivo comum desses grupos religiosos eram sempre o poder, controle e autoridade sobre o povo, tudo em nome de Deus e sua palavra.

    Seria mera coincidência, ou uma tendência humana, quando nos deparamos com grupos religiosos com o mesmo espírito em nossos dias? Claro que atualmente, esses grupos possuem outros nomes, mas que, continuam controlando, determinando, usufruindo, e abusando do povo, em nome de Deus.

    Infelizmente, a repressão e a violência produzida pela religiosidade atingem níveis cada vez mais elevados, principalmente em dias de extrema carência humana. O slogan mais apropriado para determinados ambientes religiosos seria – “É proibido pensar”. Literalmente, existem ambientes que amputam o pensamento e a reflexão.

    A proibição do pensamento é avassalador nos dias atuais, os mecanismos de sugestão, condicionamento, e aprisionamento mental, ganham formatos diversos a cada instante. Cada vez mais, temos visto uma sociedade manipulável e menos pensante.

    A ausência da criatividade causada pelo massacre do pensamento é um fenômeno que tem se instalado principalmente no meio cristão, contrariando o método de discipulado desenvolvido por Jesus, uma vez que, Cristo Jesus nunca amputou a singularidade do pensamento, pelo contrário, sempre estimulou os processos de pensamento e reflexão. As parábolas provam isto, Jesus, desejava que as pessoas exercitassem o privilegio do pensamento.

    Porém, a ideologia de causa e efeito propagado principalmente pela teologia da prosperidade (onde o resumo dos significados da vida é atrelado apenas ao ato de ofertar ou sacrificar), geram um simplismo no minimo fatal na caminhada cristã. E, mais do que isto, a revelação de Deus torna-se escassa e superficial, enquanto a projeção do próprio ego em um deus disfarçado de divino começa a ser cultuado.

    Os espaços para debates sadios são escassos, porque cada vez mais os “donos” de “igrejas” criam ambientes de domínio e exclusivismo. As ideias e as reflexões não são geradas em ambientes de persuasão emocional, ou muitos menos, em lugares que predominam o poder e a desigualdade humana.

    Para Sócrates, o melhor método para a educação era o diálogo, a conversação, e a discussão reflexiva, onde o individuo fala e o outro analisa, questiona, e apresenta suas críticas, sugerindo alternativas, e provocando seu interlocutor a continuar. Esse método foi tradicionalmente chamado de “maiêutica” – palavra que vem do termo grego e significa “parteira”. Para Sócrates, o professor era como uma parteira que auxilia o aluno no nascimento do conhecimento.

    A interação de Jesus com os seus discípulos, demonstra exatamente esse principio de liberdade e respeito nos relacionamentos, principalmente dentro do contexto Igreja.

    Porém, é percebido que, o empobrecimento das ideias tem gerado o aumento de frustração e medo, sendo que, os frutos das reflexões saudáveis e produtivas são produzidos em ambientes de liberdade e cumplicidade.

    É verdade que a Igreja enfrentou e sobreviveu aos massacres do período da idade média, mas seria engano acreditar que, as perseguições e as violências acabaram, de fato, elas só mudaram de performances, porque constantemente presenciamos os enforcamentos e extermínio da criatividade e do pensamento.

     

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