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Jesus e a Festa de Hanuká – a Festa das Luzes

Judas Macabeu estabeleceu oito dias para a comemoração da Festa de Hanuká.

Alexandre Dutra

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Menorah de Hanukkah
Menorah (Foto: Reprodução/Freepik)

“Falou-lhes, pois, Jesus outra vez, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida.” (João 8:12)

Nesta semana, a partir do início da noite de quinta-feira (10/12) até o início da noite da próxima sexta-feira (18/12), judeus em todo o mundo celebram a Festa de Hanuká (חנוכה). Até os dias de hoje é uma das grandes festas judaicas.

O Nome Hanuká, significa Dedicação, é composto de duas palavras: Hanu (חנו) – descansaram, e kah (כה), duas letras hebraicas (kaf e he) cujo valor numérico é 25, ou seja, os Macabeus descansaram depois de sua vitória, no dia 25 de Kislev. O historiador Flávio Josefo a chamou de “Festa das Luzes”. Essa história está registrada no livro não canônico de I aos Macabeus. A festa comemora a dedicação do Templo judaico que havia sido profanado no ano 168 a.C. pelos greco-sírios.

Ou, como declarou o Rabino Lamm: “Hanuká é recordada não só pelo milagre das luzes do óleo queimando no Templo, mas também pelo milagre de trazer luz a um mundo na escuridão” (LAMM, p.351, 1999).

A história de Hanuká

A história de Hanuká se dá no período inter-bíblico, conhecido como os 400 anos de silêncio, que vai do profeta Malaquias até João, o batista, que quebra o silêncio profético anunciando a chegada do Reino dos Céus na pessoa bendita do Messias de Israel, o Senhor Jesus Cristo (Mateus 3).

Com a morte de Alexandre o Grande, em 323 a.C. seu vasto Império foi dividido entre seus 4 generais. Israel, depois de disputa de 20 anos com os ptolomeus, ficou sob controle do rei selêucida Antíoco III (223-187 a.C.).

Mas foi com Antíoco IV Epífanes, que chegou ao trono em 175 a.C., que a Judéia passou a enfrentar o perigo da assimilação helênica estipulada pelos greco-sírios. Epífanes destituiu e assassinou o sumo-sacerdote Onias III, substituindo-o por Jasão, seu irmão. Não contentes com a nomeação de Jasão, os judeus helenizados, depois de 3 anos, estabeleceram como sumo-sacerdote a Menelau que pactuava com as aspirações de helenizar todo o povo judeu.

Proibição e profanação

Houve uma revolta liderada por Jasão para conquistar Jerusalém baseada no boato que Antíoco IV Epífanes havia morrido em combate na campanha contra o Egito. Menelau teve apoio das tropas de Antíoco Epífanes e frustrou os planos de Jasão, porém a revolta continuou, o que levou Antíoco a proibir os judeus, sob pena de morte, de práticas tais como: o ensino da Torá (Pentateuco) aos jovens (além de ter queimado os rolos da Torá), a observância da circuncisão, o shabat e a casherut (lei dietética judaica – Levítico 11), com o claro propósito de assimilá-los à cultura helênica.

O Templo foi violado e saqueado, um altar com a estátua de Zeus foi construído no Templo de Jerusalém e fez-se com que os sacerdotes judeus sacrificassem porcos aos deuses gregos nas cidades e aldeias de toda a Terra Santa. A tentativa de anulação da vida judaica trouxe muitas dores ao povo judeu que era temente a Deus.

A revolta macabeia

Até que numa vila perto de Jerusalém, chamada Modiin, um sacerdote por nome Matatias (heb. Matatiahu, dádiva de Deus) da família dos Hasmoneus, recusou-se a sacrificar o porco e matou o sacerdote que queria fazê-lo em seu lugar. Matatias e seus cinco filhos reuniram uma milícia (civis não treinados para a guerra, inferiores em número, armas e capacidade de manobra contra uma força militar profissional forjada no campo de batalha), unificaram os grupos políticos judaicos e travaram durante três anos uma guerra contra Antíoco Epífanes, que resultou numa incrível vitória contra os inimigos idólatras expulsando todos os gregos da Judéia.

A oração de al Hanissim, recitada durante a Amidá de Hanuká expressa bem a quem é atribuída a vitória dos macabeus.“Em Tua magna misericórdia, estiveste ao lado deles na hora da aflição… e entregaste os fortes nas mãos dos fracos, os numerosos aos que estavam em minoria reduzida, os impuros aos puros, os maus aos justos, os frívolos aos que cumprem a Tua Torá…”

Apesar de Matatias ter sido o personagem a iniciar a grande revolta dos judeus contra a opressão de Antíoco Epífanes, foi seu filho Judas Macabeu (Martelo) quem liderou a expulsão dos gregos e conquistou a vitória sobre os inimigos.

As lutas continuaram, mas em 162 a.C., Lísias, regente de Antíoco V, ofereceu condições generosas a Judas, concedendo perdão total aos rebeldes, e plena liberdade religiosa (I Mac.6:58s; II Mac.13:23s). Para convencê-los à conciliação, ele ordenou que Menelau fosse condenado à morte.

A data

A data de 25 de Kislev de 165 a.C. é o grande marco da vitória da no único Deus contra os pagãos politeístas que queriam destruir o monoteísmo bíblico. A celebração heroica de um povo que lutou bravamente para defender suas tradições, seus valores espirituais e a sua religião. Por fim é nessa data, três anos depois da profanação do Templo, que o serviço da adoração é restabelecido através da purificação e dedicação do Templo judaico, que foram lideradas por Judas Macabeu. O Templo de Jerusalém foi solenemente purificado, o altar profanado foi removido, suas pedras colocadas em um local separado no Monte do Templo, e a adoração ao Senhor restaurada.

Como bem colocou Herman Wouk: “A festa assinala os oito dias durante os quais o Templo foi restaurado para o culto de Deus. Os serviços religiosos prosseguiram desde então durante mais de dois séculos, até que os romanos derrubaram Jerusalém no ano 70 e destruíram a casa do Eterno, que ainda está para ser reconstruída”.

O milagre do azeite

Conta-se a história de que quando os judeus chegaram ao Templo, na tentativa de purificá-lo, procuraram acender a Menorá, castiçal de sete braços que deveria estar aceso continuamente no Templo, encontraram apenas um vaso com o óleo e o selo do sumo-sacerdote que queimaria por apenas um dia. Aconteceu então o milagre, o vaso com óleo para um dia durou oito dias, o tempo suficiente para se produzir o novo óleo. Por isso, Hanuká é conhecida como a Festa das Luzes.

A festa

Judas Macabeu estabeleceu oito dias para a comemoração da Festa de Hanuká, sendo celebrada a cada ano (conf. 1 Macabeus 4.36-59). Os ritos da festa tem como tom a alegria (1 Mc 4.56-59), canta-se sobretudo o Hallel (Salmos 113-118 – que também são entoados na Páscoa) e acende-se a Hanukiá.

Hanukiá é o nome dado ao castiçal de oito braços mais um braço, o nono sendo chamado de “shames” (o servo), com o qual se acende a cada noite da festa uma luz. A Hanukiá deve ser colocada perto de uma janela, para  “proclamar o milagre”.

A Hanukiá é acesa logo após o aparecimento das estrelas por um espaço de pelo menos meia-hora. Ela é acesa da direita para a esquerda, na primeira noite. Na segunda noite, é acrescida uma vela à esquerda, e assim a cada noite, é adicionada mais uma vela.

Jesus e Hanuká

O evangelista João, que curiosamente apresentou o ministério do Senhor Jesus através das festas bíblicas de Deus à Israel (a festa da Páscoa: João 2:13; 6:4; 11:55; 12:12; 13:1; uma festa não especifica em João 5:1; festa dos Tabernáculos: João 7; a festa da dedicação João 10:22), destacou, no contexto dos capítulos 8 ao 10, a festa de Hanuká. Vemos nesses capítulos evidências de que Jesus a celebrou no Evangelho de João: “E em Jerusalém havia a festa da dedicação, e era inverno. E Jesus andava passeando no templo, no alpendre de Salomão” (10:22-23).

Na referência de João 10:22 é contada a história dos macabeus de forma bem abreviada. Nos capítulos 8 e 9 é falado sobre a transição de milagres que acontecem nesse período apontando para o Messias que é a luz do mundo. Os milagres pessoais (João 9), como os milagres do povo judeu ao longo dos séculos.

Em João 8:12b Jesus se declara a luz do mundo “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida”, uma alusão direta ao Tanach; como no Salmo 27:1 “O SENHOR é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O Senhor é a força da minha vida; de quem me recearei?”, o Messias seria a luz do Eterno; a vinda do Messias traria um tempo de luz para a nação de Israel (Is. 60:19-22 cf. Ap. 21:23-24) e para os gentios (Is. 42:6; 49:6).

É importante destacar que esses primeiros versículos de João 8 ainda são uma referência à celebração da festa de Sucot (Tabernáculos), abordada detalhadamente no capítulo 7. Em João 8:12-20 há uma disputa entre o Senhor Jesus e os fariseus, enquanto ele ensinava no templo, lugar onde ficava a Menorá (castiçal de sete braços).

Judas Macabeu assemelhou a festa de Hanuká com a festa de Sucot (Tabernáculos  – cf. 2 Macabeus 1:9), a duração de oito dias, a prática da iluminação especial do Templo e a entrada com os ramos são similaridades bem marcantes em ambas as festas (Lv. 23:40 comp. 1 Mc. 4:57). O símbolo principal de Hanuká são as luzes acendidas em cada uma das noites de celebração.

Em João 9:1, já no contexto de Hanuká, Jesus vê um cego de nascença: “E, passando Jesus, viu um homem cego de nascença”, Ele declara novamente que é a luz do mundo (João 9:5) e na sequencia cura o cego untando-lhe os olhos com lodo, pedindo para que vá se lavar no tanque de Siloé e este voltou vendo (Jo. 9:6-7). O nome Siloé – em hebraico significa “enviado”, presumivelmente o nome se originou porque as águas eram “enviadas” ou brotavam da fonte para o tanque. Na presente circunstância este nome tem um significado mais elevado, apontando para Cristo como o enviado do Pai, uma verdade repetidamente apresentada no Evangelho (MOODY).

Em João 10 o Senhor Jesus se declara o bom pastor que dá sua vida pelas ovelhas. Sua messiânidade é questionada e o milagre de curar um cego de nascença é trazido à tona (Jo. 10:19-21). A partir desse momento o evangelista João revela o contexto da festa em que o Senhor Jesus se apresentou como a luz do mundo – a festa de Hanuká: “E em Jerusalém havia a festa da dedicação, e era inverno” (João 10:22).

Os fariseus pedem para Jesus que se declare abertamente se ele é o Messias esperado (João 10:24). O Senhor Jesus responde por meio de suas obras (João 10:25). Curar um cego de nascença era um dos sinais esperados do Messias.

A luz da Hanukiá

A luz de Israel

é simbolizada através da Menorá, que vem da palavra hebraica ner (נר), significando “chama” ou “lâmpada”. Na Bíblia, esta palavra tem um significado espiritual mais profundo. Por exemplo, quando o rei Davi envelheceu, seus homens lhe pediram para que não fosse com eles para a peleja “para que não apagues a lâmpada (ner) de Israel” (2 Samuel 21:17). No capítulo seguinte, Davi proferiu um magnífico hino de ação de graças: “Porque tu, Senhor, és a minha lâmpada (nerí); e o Senhor ilumina as minhas trevas” (2 Samuel 22:29). Portanto, não é de admirar que Jesus se referisse a si mesmo como a “luz do mundo” (Julia Blum).

Para alguns judeus messiânicos pode-se ver um paralelo entre Jesus, que é o Messias, e a celebração de acender as luzes da Hanukiá: “Yeshua [Jesus] é a luz do mundo (Jo.8:12), veio como servo (Mc.10:45) para dar luz a todos (Jo.1:4-5), para que possamos ser luz para os outros (Mt.5:14) (apud. Victor Buksbazen Stern, p. 214).

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Pastor Batista, Diretor dos Amigos de Sião, Mestre em Letras - Estudos Judaicos (USP).

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