Siga-nos!

opinião

Israel, Schwarzenegger e a Espada

Não há qualquer comparação entre a Kristallnacht e o que aconteceu no Capitólio.

Filipe Samuel Nunes

em

Manifestantes favoráveis a Trump dentro do Capitólio
Manifestantes favoráveis a Trump (Foto: Manuel Balce Ceneta/AP)

Todos concordam que a invasão do Capitólio foi um ato imoral. E todos concordam que foi um ato de grunhos. E todos puderam ver que a multidão consistia não só de palhaços com chifres, mas também de antissemitas vis, um dos quais ostentava uma t-shirt desprezível celebrando o gaseamento dos judeus em Auschwitz.

No entanto, a comparação incessante desta incursão criminosa com a ascensão dos nazis na década de 1930 é completamente patética. As pessoas que descrevem as artimanhas da máfia do Capitólio como um “golpe fascista” ou uma sequela da Noite de Cristal estão a minimizar de forma irresponsável os crimes sem precedentes dos anos 30, comparando-os a uma proeza oportunista e de curta duração na América do século XXI. A partir do momento em que aqueles imbecis invadiram o Capitólio, os comentadores estavam eufóricos com o espectro dos anos trinta. “Isto é definitivamente fascismo”, diziam observadores ultrajados.

Arnold Schwarzenegger levou este analfabetismo histórico a novas fantasias vertiginosas. Num estranho vídeo no Twitter em que ele esgrime uma espada enquanto repreende Trump e dá um ralhete na corja do Capitol, Schwarzenegger diz que os acontecimentos lembravam-no da Kristallnacht em 1938.

“Quarta-feira foi a Noite de Cristal aqui mesmo nos Estados Unidos”, disse ele, para aplauso dos meios de comunicação social liberal e dos Twitteratis. Parecia mesmo Conan, o Bárbaro: Só músculos.

Ignorância histórica

A ignorância histórica aqui exposta seria engraçada se não fosse tão trágica. A Kristallnacht, ou a Noite de Cristal, foi um pogrom violento, sustentado e militarizado contra os Judeus na Alemanha nazi em Novembro de 1938. Estava bem organizado. Foi liderada pela Sturmabteilung (tropa de assalto), a primeira ala paramilitar do Partido Nazi, que foi assistida por muitos cidadãos alemães racistas. Utilizaram paus e martelos para destruir sinagogas e empresas de propriedade judaica. Mais de 90 judeus foram massacrados nesta orgia de violência racista e 30.000 foram transportados para campos de concentração. Mais de 1000 sinagogas foram incendiadas (95 só me Viena). Tudo isto aconteceu no espaço de dois dias. Este acto bárbaro é considerado como o ponto de partida do Holocausto, a Solução Final.

Falar desse momento, absolutamente abjeto da história humana no mesmo fôlego que a idiotice em exposição no Capitólio não é apenas um erro – é obsceno. Schwarzenegger pode pensar que mencionar a Kristallnacht ajuda a sublinhar o carácter repelente da máfia do Capitólio, mas na realidade tudo o que realmente faz é diminuir o mais grave crime contra a humanidade. Estão a tornar a Kristallnacht vulgar, trivial, corriqueira mesmo.

Kristallnacht e Capitólio não são comparáveis

Não há qualquer comparação entre a Kristallnacht e o que aconteceu no Capitólio. A Kristallnacht foi um enorme esforço militarista concertado que abarcou toda a Alemanha Nazi; o acto no Capitólio foi um protesto ridículo (obviamente grave!). A Kristallnacht foi organizada pela ala militar do partido do governo; a invasão do Capitólio foi o trabalho de uma centena de cidadãos estúpidos que não tiveram o apoio duradouro de ninguém. Nem mesmo o de Trump (a sua hesitação inicial também foi de grunho). A Kristallnacht foi um ataque racista dirigido contra um grupo étnico específico; a situação do Capitólio foi caótica e um breve intervalo no processo político. A Kristallnacht deu o pontapé de saída para o Holocausto; a corja do Capitólio foi dispersa e espera sentenças judiciais. Nada faz prever que venha aí um purga rácica nos Estados Unidos. Esta emoção barata de chamar “nazis” a Trump e aos seus apoiantes é uma brincadeira de meninos mimados.

Schwarzenegger não está sozinho, é claro. Nos últimos quatro anos e meio, através dos meios de comunicação liberais, todo o tipo de ideias, pessoas e grupos que as classes tagarelas desaprovam, têm sido rotulados de nazis. “É como a década de 1930” tornou-se o grito infantil dos políticos e comentadores “nutella”.

O relativismo cínico do Holocausto

Sejamos claros: esta atitude é historicamente imprecisa. Isso é mau! Mas há pior. Tudo isto alimenta o flagelo do Relativismo do Holocausto, a ideia de que o Holocausto não foi tão grave como se diz. A ideia segue este raciocínio: Afinal, se a Kristallnacht acontece a cada cinco minutos, e se Trump, se Salvini, se Bolsonaro, são literalmente como Hitler; então todas aquelas coisas que aconteceram na década de 30 não podem ter sido tão más. Foram apenas perturbações e tensões políticas, como as que temos experimentado em grande parte do mundo ocidental nos últimos anos.

Esta forma de pensar é errada e perigosíssima. Porquê? Porque relativiza, minimiza e diminui os crimes do regime nazi. Normaliza-os. Reduze-os a meros protestos desordeiros ou a um acidente de percurso. E do relativismo do Holocausto à negação do Holocausto, vai um passo de criança. As pessoas têm de deixar de usar o Holocausto como ponto de exclamação, ou uma vírgula, na sua retórica politico-social. A transformação do Holocausto numa arma política está a espalhar a ignorância histórica e a atiçar as chamas de novas formas de antissemitismo. Esta exploração cínica do sofrimento histórico dum povo está a causar danos muito mais graves do que o assalto grunho ao Capitólio.

Você pode gostar
Será que o público entende quando você prega?
Adquira o curso que é focado em desenvolver e destravar a Oratória de futuros Líderes Cristãos.
SAIBA MAIS! »

Termine o ano memorizando a Bíblia!
Memorize os livros da Bíblia e suas passagens de um jeito super dinâmico. Fortaleça sua fé para comunicar a Palavra de Deus do jeito fácil!
SAIBA MAIS! »

Se capacite em administrar melhor suas finanças!
Veja como você pode ser mais próspero financeiramente à luz da Palavra de Deus.
SAIBA MAIS! »

Formou-se em Teologia na Inglaterra, exerceu trabalho pastoral durante 25 anos em Portugal e vive há 12 anos no Brasil onde ensina Inglês como segunda língua.

Trending