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estudos bíblicos

Uma introdução ao conceito histórico do arminianismo

O sinergismo entre Deus e homem, cuja atuação se dá através da graça preveniente e do livre-arbítrio humano.

Vinicius Couto

em

Jacó Armínio. (Reprodução)

Salvação é um tema que sempre gerou e continua a gerar curiosidades e anseios no cerne da alma humana. Certo jovem abastado procurou Jesus e perguntou: “Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?” (Mc 10.17).

Em outra ocasião, um dos doutores da Lei, querendo experimentar a Cristo, questionou: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (Lc 10.25).

Alguns sistemas de crença dizem que a salvação se dá por meio de boas obras, atribuindo mérito ao ser humano e invalidando o sacrifício de Cristo por meio de uma auto salvação. Outros sistemas pregam uma esperança baseada em constantes reencarnações, nas quais o esforço humano as proporcionará melhores condições em suas vidas subsequentes.

Há, ainda, o sistema universalista, o qual prefere ludibriar a consciência do homem sob o falso entendimento de que no final das contas todos serão salvos, independentemente da Obra Vicária de Cristo e sua eficácia para com aqueles que O receberam (Jo 1.12). Todas essas posições são contrárias à perspectiva da Palavra de Deus (cf Ef 2.8,9; Hb 9.27; Jo 3.16).

Neste artigo poderemos observar os dois principais sistemas que discorrem sobre a salvação do homem dentro do protestantismo. O primeiro se baseia na predestinação divina, cuja atuação é unicamente monergista, e o último no sinergismo entre Deus e homem, cuja atuação se dá através da graça preveniente e do livre-arbítrio humano.

Antecedentes históricos

Esses dois conceitos paradoxais remontam aos dias de Agostinho, o qual defendia que o homem é predestinado por Deus e, portanto, não possui capacidade de escolher Cristo e Sua obra salvadora. Para que o homem seja salvo, é necessário que Deus atue com sua graça irresistível e o regenere.

As doutrinas soteriológicas de Agostinho foram formadas antes e durante o embate da controvérsia pelagiana. Pelágio foi um austero monge e popular professor em Roma. Sua austeridade era puramente moralista, ao ponto de não conseguir conceber a ideia de que o homem não podia deixar de pecar.

Pelágio estava mais interessado na conduta cristã e queria melhorar as condições morais de sua comunidade. Sua ênfase particular recaía na pureza pessoal e na abstinência da corrupção e da frivolidade do mundo, resvalando no ascetismo.

Ele negava a ênfase de Tertuliano ao pecado original, sob a argumentação de que o pecado é meramente voluntário e individual, não podendo ser transmitido ou herdado. Para ele, crer no pecado original era minar a responsabilidade pessoal do homem.

Ele não concebia a ideia de que o pecado de Adão tivesse afetado as almas e nem os corpos de seus descendentes. Assim como Adão, todo homem, segundo o pensamento pelagiano, é criador de seu próprio caráter e determinador de seu próprio destino.

No entendimento pelagiano, o homem não possui uma tendência intrínseca para o mal e tampouco herda essa propensão de Adão, podendo caso queira, observar os mandamentos divinos sem pecar. Ele achava injusto da parte de Deus que a humanidade herdasse a culpa de outrem e desta forma negava a doutrina do pecado original.

Desta forma, Pelágio passou a ensinar uma doutrina exageradamente antropocêntrica e focada no livre-arbítrio, ensinando que, ao criar o homem, Deus não o sujeitou como fizera com as outras criaturas, mas “deu-lhe o privilégio singular de ser capaz de cumprir a vontade divina por sua própria escolha”.

Como Pelágio baseava suas teorias em uma abordagem moralista, entendia que a desobediência do homem vinha do exemplo e dos costumes observados ao redor, podendo pela própria força, alcançar a perfeição mediante grande esforço de sua própria vontade.

Em contrapartida, Agostinho sustentava que Adão fora criado em um estado original de retidão e perfeição e estaria, em seu estado original, isento de males físicos, dotado de alta intelectualidade, bem como num estado de justificação, iluminação e bem aventurança inigualáveis, além de ter a inclinação de sua vontade para a virtude.

A gravidade do pecado de Adão foi tal, que a consequência foi uma tragédia para a humanidade, a qual se tornou uma massa de pecado (massa damnata), isto é, um antro pecaminoso e propagador de pecadores. As bases agostinianas para a doutrina do pecado original se encontravam em passagens como Sl 51; Ef 2.3; Rm 5.12 e Jo 3.3-5.

Uma vez que o homem havia cedido ao pecado, a natureza humana foi afetada obscuramente pelas consequências do mesmo, tornando-se desordenada e propensa para o mal. Sendo assim, sem “a ajuda de Deus é impossível, pelo livre-arbítrio, vencer as tentações desta vida”. Essa ajuda divina para escolher o certo, ou retornar para Deus, era Sua graça, a qual Agostinho define como “um poder interno e secreto, maravilhoso e inefável” operado por Deus nos corações dos homens.

Para Agostinho, a graça divina antevê e provoca cada impulso na vontade do homem. Essa graça é expressão da soberania de Deus, não podendo ser resistida. Para explicar o antagonismo da irresistibilidade frente ao livre-arbítrio, o Bispo de Hipona diz que a liberdade do homem é baseada nas motivações. Sendo as decisões do homem, portanto, um fruto do meio, o homem não regenerado que vive em uma atmosfera de concupiscência escolherá o mal. A graça divina, porém, cura o homem e restaura seu livre-arbítrio, substituindo seu sistema de escolhas.

Outros referenciais históricos

A questão do livre arbítrio é um tema que sempre teve seu espaço na teologia, fosse na antiguidade clássica, na era patrológica ou na contemporaneidade. Normalmente no embate predestinação x livre-arbítrio, o nome mais lembrado é o do eminente teólogo supracitado Agostinho, cuja notoriedade contra a controvérsia de Pelágio é consabida, entretanto, outros nomes também são dignos de consideração.

Justino Mártir (100-165) dizia que, embora não tenhamos tido escolha alguma no nascimento, em virtude dos poderes racionais que Deus nos deu, podemos escolher viver ou não de modo aceitável a Ele, não havendo desculpas quando agimos erroneamente. Ele dizia, ainda, baseado na pré-ciência divina que, Deus não predetermina as ações dos homens, mas prevê como irão agir por sua própria vontade, podendo inclusive, anunciar antecipadamente esses atos.[viii] Concordavam com a livre escolha do homem os apologistas Atenágoras (133-190), Teófilo (?-186) e Taciano (120-180).

Vale a pena comentar a opinião de Tertuliano (160-220). Ele cria que o homem é como um ramo cortado do tronco original de Adão e plantado como uma árvore independente. Sendo assim, o homem herdou através da transgressão de Adão a tendência ao pecado. Como resultado do pecado de Adão, carregamos mácula e impureza. Apesar disso, o homem detém livre-arbítrio e é responsável por seus próprios atos.[ix]

Muitas controvérsias em torno do livre-arbítrio se deram por equívocos exegéticos. Clemente de Alexandria (150-215), negava o pecado original baseado, por exemplo, em Jó 1.21. Segundo ele, a declaração de que Jó havia saído nu do ventre de sua mãe, deixava implícito que as crianças entram no mundo sem pecado. Essa má interpretação e ênfase exagerada no livre-arbítrio, levava-o a professar que “Deus deseja que sejamos salvos por nossos próprios esforços”.[x]

Outros esforços na defesa do livre-arbítrio também se deram nas disputas contra os maniqueístas. Estes questionavam a benevolência de Deus e lhe outorgavam a autoria do pecado. Se o homem herda de Adão a culpa e o pecado, não possuímos poder de escolha. Logo, raciocinavam eles, Deus é o autor do mal. Contra esses argumentos, levantaram-se homens como Cirilo de Jerusalém (313-386), Gregório de Nissa (330-395), Gregório de Nazianzo (329-389) e João Crisóstomo (347-407).

Infelizmente, eles acabaram negando o pecado original afirmando que crianças recém-nascidas estão isentas de pecado, embora cressem que a raça humana foi afetada pelo pecado de Adão.[xi]

Referências

[i] MCGIFFERT, Arhur Cushman. A History of Christian Thought, Volume 2. Charles Scribner’s Sons, 1953, p. 125.
[ii] Ibid, p. 126.
[iii] KELLY, J. N. D. Patrística: Origem e desenvolvimento das doutrinas centrais da cristã. Vida Nova, 1994, p. 270.
[iv] AGOSTINHO, Aurelio. De civitate Dei 14.11.
[v] AGOSTINHO, Aurelio. Enarrationes in Psalmos 89.4.
[vi] AGOSTINHO, Aurelio. De gratia Christi et Peccatum Originale 1.25.
[vii] AGOSTINHO, Aurelio. De gratia et libero arbitrio liber 31; De Spiritu et Littera 52.
[viii] KELLY, J. N. D. Op. Cit., p. 125.
[ix] Ibid, p. 131.
[x] Ibid, p. 134.
[xi] Ibid, p. 263-264.

Ministro ordenado da Igreja do Nazareno. Doutorando em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Mestre em teologia pela Faculdade Batista do Paraná, graduado em teologia pela Faculdade Nazarena do Brasil e em administração de empresas pela Universidade Castelo Branco.

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