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Opinião

Fuja da hipocrisia com a renovação da mente

A hipocrisia pode ser definida como “a recusa de aplicar a nós os mesmos valores que se aplicam aos outros”

Leandro Bueno

em

Recentemente, me deparei com uma situação inusitada na igreja. Tem um irmão que eu tive conhecimento seguro de que ele tempos atrás traía sua esposa.

Pois bem, nesta igreja, foi pregar um pastor que é amigo meu, e que estava visitando o templo, já que se mudara para outro estado.

Ocorre que este pastor quando estava para viajar para minha cidade a fim de pregar, contraiu dengue e acabou ficando muito inchado. Assim, ele quando pregou na igreja naquele final de semana, preferiu não utilizar a sua aliança de casamento, que estava apertando demais o seu dedo, causando ainda mais dores.

E aí, ocorreu o fato inusitado: Esse mesmo irmão adúltero, após o culto, na hora de cumprimentar o pastor na saída do templo, jogou uma indireta para ele, de forma debochada e rindo, dizendo: “É, pastor, vejo que seu casamento não vai bem”, olhando em direção ao dedo dele. O interessante é que este irmão nem deixou o pastor se explicar, apesar deste já ter começado ali a falar, e ele (o irmão) se retirou, deixando o pastor bastante constrangido com aquilo.

Quando soube disso me lembrei de um caso rumoroso que ocorreu tempos atrás aqui no Distrito Federal, quando um pastor que era conhecido por suas eloquentes pregações um tanto moralistas com relação à família, teria sido pego, conforme foi noticiado, em adultério com a própria mulher do seu pastor auxiliar, causando um grande escândalo naquela denominação, a ponto disso ter sido veiculando até em um jornal de grande circulação na cidade, sem qualquer vínculo religioso.

Neste sentido, o meu saudoso avô Hermes Bueno era um cara de pouquíssima instrução formal, mas conhecedor, como poucos, dos meandros da vida e do agir das pessoas e, me dizia, quando eu ainda estava em tenra idade: “Fique com um pé atrás sempre destes tipos de pessoas que “vivem arrotando” santidade a todo momento. Principalmente, destes que gostam até de beijar a mão dos padres (costume do interior de Goiás onde ele vivia)”.

Não sei se esse conselho dele era algo mais oriundo de uma desconfiança com as pessoas em geral, mas acabou me influenciando no sentido de não “endeusar” ninguém, não achar que alguém pode tomar o lugar de Deus na minha vida.

Mas, o que os dois exemplos que mencionei mostram?

A chamada HIPOCRISIA, que é uma palavra derivada do latim hypocrisis e do grego hupokrisis, sendo que ambos os termos trazem a ideia da representação de um ator, atuação, fingimento (no sentido artístico).

Quem tem uma definição que acho perfeita para HIPOCRISIA é o professor do conceituado MIT (Massachussets Institute of Technology), Noam Chomsky, que afirma que a hipocrisia pode ser definida como “a recusa de aplicar a nós os mesmos valores que se aplicam aos outros”, conforme escreveu no texto “Distorted Morality: America´s War on Terror ?”

Gosto, inclusive, demais do nome deste texto dele: DISTORTED MORALITY, ou seja, uma MORALIDADE DISTORCIDA, que é exatamente o espelho de todo hipócrita.

Interessante notar que, Jesus, enquanto esteve neste mundo, teceu diversas críticas aos fariseus e doutores da lei, como podemos ler em Lucas 11:37-54, Lucas 20:45-47, Mateus 23:1-39, Marcos 12:35-37.

E se analisarmos com cuidado estas críticas trazidas por Jesus, o foco principal delas era exatamente a questão da HIPOCRISIA.

Por exemplo, Jesus criticou o fato deles pregarem sobre Deus, mas converterem pessoas para uma religião morta, fazendo assim dos prosélitos duas vezes mais filhos do geena (inferno) do que eles próprios (Mateus 23:15).

Em outra crítica, Jesus mostra como eles se apresentavam como justos por serem escrupolosos seguidores da Lei, mas na verdade não eram justos: a máscara de justiça escondia um mundo obscuro de pensamentos e atos indignos, como vemos em Mateus 23:27-28, verbis: “eram semelhantes aos sepulcros caiados (branqueados com cal) , que por fora parecem realmente vistosos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundície”.

Quando leio essas passagens, a visão que me vem é a seguinte: Os fariseus e doutores da lei eram pessoas extremamente estudiosas das 613 mitzvot, ou seja, os mandamentos da Lei mosaica encontrados na Torá e na lei rabínica.

Porém,usavam toda essa erudição e conhecimento teológico, não para a edificação do povo em geral, mas, muitas vezes apenas para jogar fardo e sentimento de culpa em um povo já bastante oprimido pela invasão romana, com seus altíssimos impostos e cerceamento de liberdades que chegou ao ápice com a destruição do Templo de Jerusalém, em 70 d.C., e início da diáspora, a dispersão dos judeus pelo mundo.

Ocorre que o ponto nevrálgico é que muitos destes fariseus e doutores da lei eram pródigos para abrir a boca e condenar o pecado de pessoas do povo, mas , escondiam atrás desta postura, os próprios pecados, buscando passar a ideia de “santarrões” e Jesus não aceitou aquela hipocrisia generalizada.

E infelizmente, vejo que na igreja, um ambiente propício para a hipocrisia, devendo tal comportamento ser atacado com veemência, pois temos que ser pessoas coerentes com aquilo que pregamos, lembrando também que quem cabe julgar o próximo é Deus e não o nosso tribunal de “justiça própria”.

E por que eu penso que é um ambiente propício para a hipocrisia?

Porque, nas igrejas, há uma expectativa de todos, em geral, de que ali estão reunidas apenas pessoas corretas, de bem, que se pecam, isso ocorre apenas como um mero “ponto fora da curva”, uma eventualidade.

Ou seja, cria-se no imaginário dos fiéis, uma espécie de EXPECTATIVA MORAL ELEVADÍSSIMA, em alguns casos a gerar até neuroses em ambientes mais legalistas, esquecendo as pessoas que, nas igrejas, como em qualquer lugar, há pecadores e que carecem do perdão, da misericórdia de Deus. A diferença é que se o indivíduo é, de fato, convertido, nasceu de novo, o pecado estará ali presente, mas, ele não terá mais prazer recorrente naquilo. A prisão que aquele pecado gerava não tem mais a força anterior.

Assim, se “no mundo”, a pessoa pode sair, por exemplo, transando com todo mundo, e aquilo, às vezes, é até visto como algo positivo ( o cara é o “garanhão”, o cara é o “pegador”, “o safadão”), em uma igreja, isso seria motivo de reprovação caso se tornasse público.

Se “no mundo”, muitas vezes, até a corrupção é vista como algo que “todo mundo faz”, já que vivemos no país do “jeitinho”, em um ambiente religioso, se isso tornasse público, seria um escândalo.

E aí, o que ocorre muitas vezes, a meu ver? Muitos irmãos que estão incorrendo em pecados como os citados, bem como outros pecados, ficam “escondidos no armário”, colocam esse “LADO B” de suas vidas debaixo do tapete, ou quando eventualmente são descobertos, atribuem a culpa ao diabo, ao fato da “carne ser fraca”, ou ainda que estão sendo “perseguidos por satanás”, que estaria revoltado pelo fato daqueles irmãos serem “tão crentes”, etc.

Mas, o que mais me chama a atenção neste processo que menciono e aí que está a questão da hipocrisia que trato nesse artigo é que muitos irmãos que estão pecando em determinadas áreas são os primeiros a apontarem os dedos em ristes para os outros que estão fazendo as mesmíssimas coisa, ou tomam uma outra atitude que é de posar de santo, querendo apenas usar de pregações e exortações legalistas para colocar jugo em cima dos outros, sem qualquer olhar de graça e compaixão.

Ou seja, é como se esses irmãos a que me refiro PROJETASSEM o seu próprio pecado na vida dos outros.

Na área da psicologia, como nos esclarece Tavris Wade, em seu livro “Psychology – 6th Edition Prentice Hall 2000”, entende-se por projeção, uma espécie de mecanismo de defesa no qual os atributos pessoais de determinado indivíduo, sejam pensamentos inaceitáveis ou indesejados, sejam emoções de qualquer espécie, são atribuídos a outra pessoa.

Com efeito, no primeiro exemplo que citei no texto o aspecto que fiquei mais refletindo foi que a pessoa foi atacar o pastor EXATAMENTE na área em que este irmão pecava, sendo que poderia eventualmente querer falar mal daquele líder em qualquer outra área. Mas, por que a fixação no PECADO QUE ELE MESMO TEM ? O mesmo padrão vemos no segundo caso que mencionei.

Um exemplo muito triste disso que estou falando, no ambiente eclesiástico, se deu com o famoso tele-evangelista Jimmy Swaggart, que renunciou em fevereiro de 1988 ao seu ministério, depois de ter sido fotografado com uma menina de programa em um motel na Lousianna, estado no sul dos Estados Unidos, chegando a chorar compulsivamente e confessar sua “falha moral” perante sua congregação com 7.000 membros, porém, sem adentrar em nenhum detalhe do ocorrido.

Ocorre que a hipocrisia de Swaggart, a meu ver, não se deu pelo programa sexual que ele praitcou, mas, pelo fato de que poucos meses antes, proferiu um ataque furioso a outro tele-evangelista famoso na época, seu rival Jim Bakker, que havia sido pego em adultério com sua secretária.

Casos como estes acabam esfacelando a fé de muitos e repercutindo de forma extremamente negativa para os de “fora da igreja”, que, às vezes e com razão, se mostram hostis aos religiosos, principalmente quando estes posam de “certinhos” cheios de arrogantes, mas agem com um testemunho de vida horrível, principalmente quando não está com os “da igreja”.

O caso de Swaggart, por exemplo, foi explorado à exaustão por uma mídia ávida para fazer panis et circensis (pão e circo) da desgraça dele, a ponto de várias bandas de rock e metal terem composto músicas para “homenageá-lo”, como o Metallica, com a música “Leper Messiah, Ozzy Osbourne, com “Miracle Man”, o Iron Maiden, com “Holy Smoke” e até Lou Reed, na faixa “Strawman” do álbum “New York”, de 1989, quando fez alusão aos “sins of Swaggart” (pecados de Swaggart).

Mesmo dentro do ambiente da igreja, o estrago é extremamente doloroso, pois infelizmente vários cristãos ainda confundem Deus com a igreja e seus líderes e membros. É como se psicologicamente esses irmãos colocassem Deus e a Igreja em um “mesmo pacote”, em um mesmo kit. E isso tem um impacto maior ainda naquelas pessoas que vêm seus líderes quase como “semi-deuses” ou idolatram determinados irmãos, por serem portadores de dons espirituais, quando não possuem uma aura de “ungidos de Deus”.

Assim, se um destes líderes ou “ungidos” pecam feio e isso é trazido a público, a fé de muitos é esfacelada, pois não estavam firmadas na rocha que é Jesus, mas, sim, em pessoas e suas circunstâncias.

Neste contexto, eu frequentemente converso com ateus em redes sociais e em outros ambientes, e me chama a atenção o fato de que a maioria absoluta dos que conheci não são pessoas que efetivamente acreditam, no seu interior, que seríamos meros produtos do acaso, de um universo frio e impessoal com a nossa existência.

Muitos destes ateus a que me refiro são pessoas feridas pela hipocrisia de determinados ambientes que frequentaram, trazendo dentro de si, amarguras e mágoas com feridas difíceis de fecharem. Ou seja, o “ateísmo” nada mais nestes diversos casos que cito, um mero reflexo de um ranço antirreligioso e anticlerical.

Concluo este meu texto sobre a hipocrisia, com a importância daquilo que Paulo, nos traz na Carta aos Efésios, 4:23, que “vos renoveis no espírito da vossa mente”. Falo isso, porque nenhum de nós está livre de pecar e agir como hipócritas e não nos iludamos que muitas vezes agimos assim, pois somos pessoas de corações duros. Daí a necessidade de buscarmos esta renovação de mente se queremos a cada dia nos assemelharmos mais ao Mestre.

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