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Estudos Bíblicos

Fé: relação viva com Deus ou conceitos pré-moldados?

O que isso tem a ver com nosso relacionamento com Deus?

Leandro Bueno

Publicado

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Epifania é um termo que vem do grego, significando “aparição; fenômeno miraculoso”. Ou seja, este termo traz a ideia de uma repentina sensação de entendimento ou consciência da essência de algo, e no âmbito espiritual, podemos dizer que são aqueles momentos sublimes que o cristão sente a clara presença e manifestação de Deus em sua vida, independentemente das circunstâncias que esteja vislumbrando naquele momento.

Assim, o que busco estar refletindo neste texto é como muitas vezes, nós, cristãos, acabamos por criar determinados padrões ou situações “pré-moldadas” de como essas manifestações de Deus ocorreriam no nosso dia-a-dia e como esse tipo de comportamento pode minar a felicidade e o contentamento na vida com Deus.

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Um primeiro aspecto que eu vejo é aquela situação em que queremos condicionar a manifestação de Deus a um determinado local.

Algo parecido com o que víamos na Antiga Aliança, quando existia o “Santo dos Santos” que era uma sala no Tabernáculo e que, posteriormente, se tornou uma sala do Templo de Salomão, onde restava guardada a Arca da Aliança. Anualmente, havia uma cerimônia de sacrifício de um cordeiro, sem máculas, conforme nos mostra o livro de Êxodos 12:5, para expiar os pecados do povo (Levíticos 4:34).

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E era nesse único momento em que o sacerdote designado tinha como falar diretamente com Deus, sendo que a sala era separada do templo por uma cortina feita de linho. Em caso de estar em pecado ao adentrar ao recinto, o sacerdote morria, e somente ele podia entrar.

Trazendo isso para os nosso dias, parecem que existem determinados irmãos que pensam que Deus somente se manifestará se ele for a um determinado “santo dos santos”, que existe no seu imaginário.

Por exemplo, ele coloca na cabeça que para as bençãos de Deus chegarem a sua vida é necessário “ir ao monte”, pois somente ali é que o “fogo desce. Ou ele precisará ir à determinados cultos, muitas vezes de igrejas que não são a sua, pois a que frequenta não possui “aquela unção especial”.

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Isso quando não acontece algo também bastante comum, e que eu já vivenciei no início da minha fé, de achar que somente na presença de determinados “ungidos”, a presença de Deus seria mais facilmente perceptível. Assim, ficava impressionado com alguns missionários que contavam um testemunho “poderoso”, pois aquilo seria uma espécie de atestado de uma espiritualidade maior. Assim, eu precisava estar perto destes servos de Deus, para que “por osmose” Deus me tocasse.

Olho esse período e me vejo naquilo que o escritor da Carta aos Hebreus diz, ao tecer um paralelo entre a alimentação de um bebê e a condição espiritual dos cristãos. Estes são reprovados por não terem progredido na fé (Hb 5.11-14), continuando sendo como criancinhas recém-nascidas que necessitam de leite, não suportando ainda alimentos sólidos.

Outra situação são aquelas pessoas que acabam buscando profetas para tudo, em um movimento não muito diferente daqueles que vão a terreiros de cultos afros, para o pai-de-santo dizer o que pode ou não ser feito, abrindo os caminhos. Ou precisam de um irmão para sempre orar pela sua saúde, sendo interessante ressaltar que a própria pessoa ela mesmo não abre a boca para falar com Deus, não lê a palavra, não vai à igreja, etc. Quer se satisfazer apenas com o(a) “menino(a) de recados de Deus”.

Ademais, uma situação infelizmente que já pude observar, conversando com alguns irmãos, é a defesa da falsa ideia de que o dom de orar em línguas seria um comprovante de uma presença maior de Deus na vida da pessoa, esquecendo que tal dom é apenas um dentre vários outros citados na Bíblia, e nem o maior, já que o amor é o dom supremo (Coríntios I, cap. 13; vers. 1 a 13).

É como que, implicitamente, se colocasse na cabeça de alguns irmãos a heresia de se criar uma espécie de crente de 1a classe e um crente de 2a classe em uma mesma igreja. O de 1a classe seria aquele que já teria o dom de falar em línguas e, portanto, batizado com o Espírito Santo. O de 2a classe seria o que não tem tal dom, e o que, pior: não batizado pelo Espírito Santo.

Não poucas vezes tive a oportunidade de ver em situações diferentes irmãos que neste afã de orar em línguas apenas faziam repetir sons de outros ou tentavam enrolar as línguas, atos claramente humanos, e não espirituais, apesar de ocorrido em um ambiente de grande misticismo e comoção.

A partir destes exemplos que citei o que fica bem claro para mim é que esse tipo de comportamento por parte do cristão não se sustenta ao longo do tempo e acaba por minar, solapar seu contentamento no relacionamento com Deus, pois Ele precisa sempre aparecer em determinados locais, em determinadas horas, em determinadas circunstâncias, as quais fomos muitas vezes ensinados (equivocadamente). E se isso não ocorre, aí nasce um problemão na cabeça daquele cristão.

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E por que penso que isso é um passo para uma vida de desapontamentos com Deus, quando não de neuroses e distúrbios sérios, principalmente se a pessoa não frequenta uma igreja de doutrina equilibrada ?

Para responder isso, faço uma analogia do relacionamento que uma pessoa tem com Deus com o relacionamento que ela pode ter com o seu cônjuge.

Imagine se você precisasse para ficar feliz e sentir o amor do seu cônjuge que ele lhe levasse SEMPRE para determinados locais “fashion” e bacanas. Ou imagine se para você se sentir completo(a), precisasse que este cônjuge apresentasse sempre algo novo, e espetacular, a chamar a atenção.

Creio que passado um determinado tempo, esta relação com seu cônjuge estaria extremamente desgastada, pois aqueles locais tão bacanas de outrora já não seriam mais tão incríveis, as “firulas” que o cônjuge produzia para chamar a atenção e que eram tão “divertidas” antes, não surtem agora mais tanto efeito de criar aquela sensação de alegria contagiante.

Em outras palavras, a rotina chegaria matando aquela relação e aí seria o momento de se perguntar: Essa relação vai perdurar ? O que liga estes cônjuges é uma genuína vontade de crescerem juntos, ou não?

Mas, alguém pode se perguntar: O que isso tem a ver com nosso relacionamento com Deus? Pessoalmente, acredito que muita coisa.

Isto porque, nossa fé pode virar uma espécie de “fé mecanizada”, ou seja, é como se a igreja que você frequenta tivesse lhe passado uma espécie de “mapa da mina”, dizendo tudo aquilo que você deveria ou não fazer, sob pena de Deus não se manifestar na sua vida. Ou você mesmo criou esse mapa, acomodando-se na sua vida espiritual como um lógica meramente de obediência a leis e deveres.

Aí, você busca seguir aquele script feito, e com o passar do tempo, sua fé parece começar a ruir e perder o brilho inicial, já que, mesmo seguindo 100% o “script” recebido, aqueles “momentos espetaculares” com Deus parecem ter ficado para trás. E de quem é a culpa ?

Certamente, não é de Deus, até porque Deus não se confunde com a religiosidade, com a religião. Como nos ensina Karl Kepler, em seu livro O FASCÍNIO DO DEVER PARA OS CRISTÃO, nos ensinos de Jesus, como de Paulo, João e outros autores do Novo Testamento, a motivação principal da vida cristã é a mensagem do amor de Deus, da salvação e descanso em Cristo, e da alegria e comunhão no espírito.

Assim, na realidade, este esgotamento espiritual a que me refiro é uma clara consequência de um tipo de comportamento que adotamos e que manifesta prioridades invertidas, já que busca a satisfação muito mais nas exterioridades, do que na vida interior, na oração e muitas vezes, no próprio silêncio da alma.

Neste sentido, uma das coisas que tenho mais aprendido nos últimos tempos é saber aguardar em Deus, em silêncio e é impressionante como tenho sentido em locais diferentes, horas diferentes e de formas bem inusitadas a mão bondosa de Deus na minha vida, me trazendo paz interior. Duas situações recentes me chamaram a atenção.

A primeira se deu quando eu estava fazendo a minha primeira viagem à Israel e no 2o dia, fui conhecer o Lago de Genesaré (também chamado de Mar da Galileia ou Mar de Tiberíades), que é a região ao norte de Israel, onde boa parte do ministério terreno de Jesus se deu.

Lá, há uma réplica de um barco que foi encontrado da época de Jesus, onde os turistas fazem um passeio de uns 50 minutos mais ou menos, cruzando aquele belo lago. Eu estava ali no barco, sem pensar em absolutamente nada, e de repente, fiquei impressionadíssimo com a quantidade de lágrimas que começaram a rolar na minha face, ainda mais sendo uma pessoa pouco emotiva e metida a ser muito racionalista.

E uma paz imperturbável e uma sensação de pertencimento, de completude e de ligação a algo muito maior que eu (o amor de Deus), tomaram conta de mim naquele momento.

Ou seja, uma situação onde a manifestação de Deus se mostrou clara para mim, sem pedir hora, sem pedir local, sem pedir um “ritual” específico meu, nada, nada. E aquilo me fez pensar sobre o que esboço neste artigo.

Deus, ele se manifesta como quer, onde quer e quando quer, e ele age de uma forma toda particularizada para cada um de nós. Vale dizer, ele sabe como falar e nos tocar naqueles pontos que Ele quer mexer. Daí, ser um tanto presunçoso da nossa parte querer rotular Deus, ou criar esqueminhas de como Ele pode agir ou não.

Ocorre que alguém poderia dizer o seguinte: Ter uma experiência espiritual em um local como esse é fácil, ou perfeitamente compreensível. Porém, isso que relato não é algo que se explique a partir de um mero “acidente topográfico”, como cito neste segundo exemplo abaixo.

Neste finalzinho de janeiro, eu estava visitei Arraial do Cabo com minha família. Eu estava ansioso porque queria naquela semana mandar mais um artigo para o Gospel Prime. E já tinham se passado quase dois dias daquela angústia e pensamento recorrente e nada vinha à minha cabeça.

Assim, no final da tarde daquele 2o dia, eu estava ali vendo meus dois filhos brincando na areia da praia e, também, sem pensar em absolutamente nada, além de vê-los e o pôr-do-sol já se fazendo presente, quando veio como um flash todo o texto que eu iria escrever e que viria a ser o artigo “FÉ E PERGUNTAS “SEM” RESPOSTAS”, que foi posteriormente veiculado no site do Gospel Prime.

Esse texto veio como uma resposta a perguntas que me incomodavam e que eu vinha me fazendo há tempos atrás, buscando compreender um pouco da soberania de Deus diante das tragédias humanas. O texto me trouxe conforto interior.

O que me deixou sem palavras, foi a inspiração repentina que mencionei. E vejo nela o cuidado de Deus, falando a mim naquele momento. Uma espécie de “insight” divino e que me trouxe uma paz, bem diferente das alegrias cotidianas, quando conseguimos algo que gostamos ou queremos.

Concluo, no sentido de que possamos estar atentos para as manifestações de Deus em nossas vidas, que se dão em um nível relacional, que muitas vezes se manifestarão nas coisas simples dos nosso dia a dia (o sorriso de uma criança, o sentir da natureza, a dor, o sofrimento, etc.) e que as epifanias sejam cada vez mais presentes neste nosso ano e que não sejamos dominados pelo mecanicismo de uma fé enjaulada e presa a modelos “pré-moldados”, mas livres no Espírito.




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