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Opinião

Fé coexiste com questionamentos?

Leandro Bueno

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Semana passada, fui assistir com minha esposa, a estreia nos cinemas aqui de Brasília do ótimo filme Deus Não Está Morto 2, que retrata uma realidade que já se encontra bem presente em muitos locais nos EUA e tende a aparecer por aqui com mais força, que é a invocação do Estado Laico, como pretexto para calar qualquer manifestação de fé da população no âmbito público.

Mas, o que quero falar aqui neste artigo não é sobre o filme propriamente dito, mas um personagem que me chamou muito a atenção no filme: o do ator Paul Kwo. Ele faz o papel de um japonês, recém-convertido, chamado Martin Yip, que na sua sede espiritual, leva 143 perguntas para que o pastor da sua congregação possa estar lhe ajudando a compreender Jesus.

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Interessante que esse personagem, depois de ver suas perguntas respondidas, tem mais umas 5 perguntas para fazer de cada uma das anteriormente formuladas. Imagine!

E por que esse personagem me chamou a atenção? Quando me converti, também cheguei para o meu pastor e levei dúvidas e ele aparentemente não gostou de estar conversando comigo sobre o assunto. É como se ele pelo jeito e fisionomia, sentisse que eu, devido aqueles questionamentos, não fosse ainda um “convertido”, que talvez deveria voltar para a classe dos catecúmenos.

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Com efeito, durante um bom tempo, eu calei vários dos questionamentos meus acerca da fé, pois tinha aquela ideia de que se desse vazão a eles poderia estar virando um cético ou podendo receber uma reprovação de Deus.

É como se aquilo soasse para mim como uma espécie de afronta, ao indagar Deus sobre as circunstâncias da vida. Como se “colocasse o Todo-Poderoso” na parede e exigisse uma resposta. E aí, vinha no meu interior aquele constrangimento e humilhação: Quem sou eu para questionar o Senhor?

E esse é um ponto que acho muito importante. Muitas pessoas possuem uma ideia, a meu ver equivocada, de que a fé não pode passar por questionamentos. Se a fé fosse assim, não teríamos, a meu ver, fé, mas sim meros dogmas a serem cegamente acreditados, algo como uma espécie de fé islâmica fundamentalista, onde tudo já está traçado, a começar pelo destino (maktub).

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Assim, como nos diz o teólogo Dennis Allan, devido à dor da vida terrestre, muitas pessoas duvidam da bondade de Deus e até negam a sua existência. Frequentemente ouvimos o triste comentário: “Eu não consigo acreditar num Deus que permitiria acontecer tal coisa”. Estas dúvidas, até crises de fé, são comuns, desafiando até os mais dedicados servos de Deus.

Um bom exemplo encontramos no poema escrito no século XVI por João da Cruz, chamado a NOITE ESCURA DA ALMA (“La noche oscura Del Alma”), um clássico do Cristianismo medieval, onde ele descreve um vale, um deserto, que deve atravessar, na sua caminhada espiritual rumo à união com Deus.

Vemos também isso em Salmos 69,1.2,  quando o salmista afirma “Salva-me, ó Deus, porque as águas me sobem até a alma. Estou atolado em profundo lamaçal, que não dá pé, estou nas profundezas das águas, e a corrente me submerge.”

Ora, não é por outra razão que este salmo é considerado um salmo messiânico, por causa de sua aplicação, no Novo Testamento, à angústia de Jesus, o Servo justo de Deus, nas horas finais antes da crucificação.

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Na cruz, Jesus gritou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por quê?”. Como nos explica o mesmo Dennis Allan, as palavras de Jesus são tiradas diretamente do Salmo 22:1, escrito cerca de 1000 anos antes.

A maior parte deste salmo é uma profecia do sofrimento que Jesus suportou na cruz, e é citada repetidamente no Evangelho, nas narrações da crucificação. O versículo inicial nos lembra que o maior sofrimnto que Cristo suportou não foi a dor física da cruz cruz, mas a agonia emocional de morrer só.

Interessante também é lembrar neste ponto que ter fé em Deus, não significa ter respostas para tudo, compreender a inteireza da natureza de Deus e Sua vontade, que às vezes não é clara para nós. Para mim, ter fé em Deus é saber quem Ele é na nossa vida, o que Ele fez, faz e fará por nós. Ou seja, a fé é algo muito mais RELACIONAL, do que algo que se encerre em compreender toda a realidade que nos cerca, com seus diversos mistérios.

Neste ponto, concordo com o reverendo Rêiner Godoy, pastor em minha comunidade de fé, quando diz que não temos resposta para tudo, sendo ele contra aquelas pessoas que sempre têm uma fórmula mágica para os problemas, e às vezes, pastores e irmãos de oração gostam muito de ajudar as ovelhas com porções de “misticismo gospel”, dizendo que basta fazer tal jejum, tal campanha de oração, dar tal quantia de oferta.

Ou seja, como coloca o aludido reverendo, bastaria ficticiamente “pagar o preço”, que Deus necessariamente vai dar a resposta que queremos. Na realidade, não é tão simples, pois a realidade é que, por vezes, ficamos sem respostas diante das circunstâncias.

E quando a fé passa a se resumir a dogmas, penso eu que a tendência é o esfriamento dela. Vira uma fé monolítica, engessada e que cria padrões e regras de como Deus age e deixa de agir.

Com isso, perdemos nossa capacidade de nos surpreender com nosso Deus, alguém que fala em nossas vidas das formas mais diferentes possíveis e imprevisíveis. Eu, mesmo essa semana, pude ver Deus falando comigo de forma escancarada por 2 filmes que assisti, pela boca da minha esposa e por acontecimentos imprevisíveis que ocorreram na semana.

Assim, concluo o meu texto no sentido de que tenhamos a abertura para vivenciar a nossa fé em toda a sua inteireza, tendo a capacidade de ouvir Deus falando naqueles momentos mais angustiantes que vivemos àqueles momentos de paz e felicidade, e sabendo que Ele é um pai de amor e que está sempre ao nosso lado, ainda quando o silêncio parece ser a única resposta.




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