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Opinião

Existe uma ameaça fascista no Brasil?

O fascismo italiano foi um regime terrível e ditatorial

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Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro. (Foto: Marcos Corrêa/PR)


Existe uma ameaça fascista no Brasil? Sim, responderão alguns, não, responderão outros, o certo é que a palavra fascismo foi um dos verbetes mais pesquisados nas páginas do Google em 2018[1]. Além disso, está ficando cada vez mais comum, as pessoas rotularem alguém de fascista, o que ficou bastante evidenciado nas últimas eleições, e gerou muitas discussões em torno deste termo. Portanto, diante do resultado da última eleição, podemos refletir: o Brasil está à beira da implantação de um regime fascista? Será que estamos vivendo um período de fascização do país? Existem fascistas no Brasil? Será que estamos sendo coerentes, quando rotulamos alguém de fascista? Estas e outras perguntas, iremos tentar responder ao longo deste artigo.

Portanto, para que possamos entender o tempo em que vivemos, devemos primeiramente, compreender o que é o fascismo, não o discurso que é falado no Brasil, onde, para ser fascista, basta pensar diferente, mas, o que realmente foi este regime, e qual o seu contexto histórico. O Fascismo foi um regime autoritário que nasceu na Itália e que permeou a vida de muitas pessoas no início do século XX, sendo este o reflexo direto de muitos acontecimentos que marcaram a primeira guerra mundial, como sinalizou o professor Gianfranco Pasquino: “Teria sido praticamente impossível conceber o fascismo em Itália se não fosse as deslocações originadas pela Primeira Guerra Mundial”[2].

O fascismo começa a se tornar realidade no contexto do pós-guerra, e vai nascendo como uma reação a outros movimentos políticos como o comunismo que estava muito forte na União Soviética e vinha ganhando muita força na Europa, e também, como uma reação ao liberalismo, já que, em 1929 houve a grande depressão, com a queda da bolsa americana, o que gerou abalos na economia mundial. Sendo assim, o povo italiano começou a perder a fé nos sistemas vigentes da época, já que, a Itália, vinha sentindo os efeitos econômicos do pós-guerra, pois, o pais estava atravessando um momento econômico muito deficitário, o que favoreceu a ascensão do nacionalismo, que foi materializado pelo fascismo.

Sendo assim, com o passar do tempo, e como fruto da crescente descrença, a população italiana, vai assistindo a ascensão do partido fascista, e da fascização do país, como sinalizou Glucksmann: “Antes do fascismo, não existirá a fascização, que os prepara e instala? O fascismo nascerá já armado da coxa de júpiter no dia em que se revela como ditadura total (…)? Ou tudo ou nada. Ou o fascismo tomou totalmente o poder, ou então não existe”.[3]

Além destas características, o regime fascista possui completa oposição à democracia eleitoral e a liberdade política e econômica, e gera o totalitarismo, sendo estas algumas das características que fizeram parte do fascismo italiano, personificado por Benito Mussolini, líder máximo do partido fascista, e que tomou o poder na década de 20, ficando  conhecido por sua característica ditatorial e autoritária, o que foi materializado pela  forte repressão da oposição por via da força, presença do partido único,  e pela forte arregimentação da sociedade e da economia. De acordo com Glucksmann, especialista no tema: “O fascismo não nasce de um golpe de estado….O fascismo é uma guerra civil que mobiliza o aparelho do estado e as diferentes classes da sociedade, e o seu combate pela tomada do poder começa desde essa mobilização”[4].

Como regime totalitário, o fascismo impôs à censura a qualquer meio de comunicação, promoveu o fechamento dos partidos políticos, sobrando apenas o partido fascista apoiado pelo nacionalismo exacerbado, fortaleceu os sindicatos, e promoveu o messianismo ideológico por meio do culto ao líder que não ouve ninguém, portanto, Mussolini foi um autocrata e não um democrata.

Sendo assim, para se perpetuar no poder, Mussolini fortaleceu o funcionalismo público, e promoveu o fortalecimento dos sindicatos, e fortaleceu a política de estatização, como sinalizou Maria Antonieta Macciochi: “Os fascistas puderam desenvolver a sua atividade unicamente porque dezenas de milhares de funcionários do Estado – sobretudo nos órgãos de segurança nacional (questuras, guardas reais, carabineiros) e nos da magistratura – se tornaram seus cúmplices moral e materialmente”[5].

Portanto, para que um líder político ou um partido possam ser chamados de fascistas, deve existir algumas características que foram muito comuns neste movimento, como sinaliza o sociólogo italiano Emilio Gentile especialista no tema:  “O fascismo sempre negou a soberania popular, enquanto o nacionalismo populista de hoje reivindica o sucesso eleitoral. Esses políticos de agora se dizem representantes do povo, pois foram eleitos pela maioria.

Isso o fascismo nunca fez. ”[6] Portanto, o regime fascista possui completa oposição a democracia eleitoral e a liberdade política e econômica, sendo este um dos aspectos principais do fascismo italiano que defende ser necessária a mobilização da sociedade sob um estado totalitário de partido único comandado por um líder forte, como um ditador ou governo formado pelos membros do partido fascista.

Por fim, observamos que o fascismo italiano foi um regime terrível e ditatorial, e analisando o fascismo a luz do seu contexto, vemos claramente que o Brasil não está sofrendo nenhuma ameaça fascista, pois, para que um líder político ou um partido possam ser chamados de fascistas, deve existir algumas características que foram comuns neste movimento, mas, que não existem no Brasil, e que não fazem parte do seu contexto histórico e contemporâneo.

Sendo assim, nosso país não passa por uma ameaça fascista, mas, sim, por uma mudança de rumo ideológico, o que respeita o jogo democrático, já que, o atual governo foi eleito democraticamente, e, mesmo que muitos possam acusa-lo de conservador, liberal ou neoliberal, nenhum destes conceitos, possui relação com o fascismo, aliás, o fascismo não era nem conservador, e nem liberal, mas, fez oposição a ambos.

[1] Disponível em:<https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/12/politica/1544636164_055761.html>. Acesso em 17 dez. 2018.

[2]PASQUINO, Gianfranco. Curso de Ciência Política. Cascais: Principia, 2009,p.341.

[3]MACCIOCHI, M.A. Elementos para uma analise do Fascismo. Lisboa: Bertrand, 1977,p.21.A. Apud. Glusckmann, Les Temps Moderns, Fevereiro de 1972.

[4]MACCIOCHI, M.A. Elementos para uma analise do Fascismo. Lisboa: Bertrand, 1977,p.21.A. Apud. Glusckmann, Les Temps Moderns, Fevereiro de 1972.

[5]MACCIOCHI, M.A. Elementos para uma analise do Fascismo. Lisboa: Bertrand, 1977,p.30-31.

[6] FERRAZ, Lucas. O que é o fascismo? Perguntamos a pensadores da Itália, berço do movimento. Disponível em:<https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45750065>. Acesso em 16 dez. 2018.



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