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Estudos Bíblicos

Elitismo evangélico?

Infelizmente, temos visto o “olhar de graça” sendo esquecido nas nossas relações pessoais.

Leandro Bueno

em

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Na carta de Tiago, capítulo 2, versículo 9, o apóstolo nos exorta a não fazer acepção de pessoas: “Mas se fazeis acepção de pessoas, cometeis um pecado e incorreis na condenação da Lei como transgressores.”

O maior exemplo de quem não incorreu nisso foi Jesus. Ele se aproximava de todos sem medo e sem restrições. Levou esperança e compaixão onde não existiam mais. A sua atitude de acolhimento não fazia distinção entre o influente Nicodemos (Jo 3), o coletor de impostos Zaqueu (Lucas 19:1-10), a mulher mal-afamada e pecadora samaritana (Jo 4), a pessoa paralítica há décadas (Jo 5) e o mendigo cego (Jo 9). O exemplo do Mestre é algo ímpar para todos nós.

Infelizmente, temos visto muito deste “olhar de graça” sendo esquecido nas nossas relações pessoais. Um exemplo que me vem à mente é dos membros de determinadas igrejas hoje em dia que passam horas e horas em redes sociais ridicularizando e zombando da fé de irmãos de igrejas mais humildes.

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Algo que poderia ser apenas uma análise equilibrada de eventuais erros doutrinários e teológicos destes irmãos mais simples passa a ser motivo de chacotas sem fim. Conheço hoje páginas nas redes sociais especializadas em falar mal de outros irmãos, evidenciando em muitos comentários uma sensação até de sadismo, de raiva interiorizada, que encontra seu escape neste comportamento diário.

E o interessante é que muitos dos que agem assim são fomentados pelos seus próprios líderes e já pertenceram a estas igrejas que agora adoram caçoar e falar mal. Agora, se sentem crentes de “1a classe”, diferentes do que consideram uma “ralé gospel”.

Adoram, até usar novos termos linguísticos para se sentirem diferentes e superiores. Não falam em igreja, mas em encontros comunitários. Não falam mais em pastores, mas em mentores. Adoram dizer que igreja é desnecessário, que rejeitam as estruturas eclesiásticas, resquício da religiosidade, mas se unem para orar, cantar e celebrar, como qualquer outra igreja.

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Ou seja, mudam muitas vezes apenas a forma, os “rótulos” e não o real conteúdo das coisas. Será que isso não seria uma forma de acepção de pessoas, de indisfarçável orgulho? De um elitismo evangélico vazio? Não tenho dúvidas disso.

Por outro lado, não podemos nos esquecer que vivemos em um país, onde muitas pessoas se encontram, principalmente nas grandes cidades, totalmente desamparadas, sem rumo, ainda mais que temos um governo que só oferece incertezas, não propiciando nenhum tipo de serviço público minimamente de qualidade, a começar pela falta de segurança, passando pela educação ruim, saúde péssima, etc.

Desta forma, é fácil querer cair na atitude anticristã de ficar apenas ridicularizando esses irmãos, porém, não lembrando que muitas vezes aquelas igrejas que para nós são “malucas”, por causa de suas doutrinas, talvez sejam os únicos lugares onde estas pessoas foram ou se sentem acolhidas, conhecidas pelo nome, com algum tipo de identidade, para uma realidade, como visto, que se mostra totalmente inóspita para elas no seu dia-a-dia.

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Ali, nestas igrejas, ela não é mais uma pessoa invisível, como muitos que o mundo não dá importância, apesar de essenciais para o bem de todos.

Os “invisíveis” de nossa sociedade

Será que pessoas como os lixeiros, os limpadores de chão, os empregados de nossos edifícios, são seres “apessoais” para nós?

Não sabemos muitas vezes nem seus nomes, suas fisionomias, suas histórias, suas dores. Nada disso parece nos interessar ou nos dizer respeito, apesar de estarem dia após dia ao nosso lado. Eu que sempre morei em prédios, vejo isso a começar pelo próprio elevador, onde começa a discriminação social, como nos diz Jorge Aragão, em seu engajado samba Identidade: “Não vai no de serviço, se o social tem dono, não vai. ”

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Atente-se que não estou aqui a defender que devemos colocar uma venda nos olhos e endossar, até pela nossa omissão, os abusos doutrinários que temos visto ultimamente em nosso país, muitos deles por meio destas igrejas neopentecostais midiáticas, que parecem estar apenas interessadas em crescer, pois isso significará mais dinheiro, ainda que a Bíblia ali seja algo de enfeite, tal é a deturpação vista.

No meu caso em particular, me deparei com uma situação que me deixou bastante reflexivo sobre tudo isso que estou falando e se também não me enquadro em um comportamento similar ao que citei. Resido em um bairro de Brasília de classe média alta, que possui um shopping vizinho ao meu prédio, com as mesmas características sociais e um cinema.

Pois bem, na semana passada, vi dois ônibus fretados caindo aos pedaços, chegando ali na frente do meu prédio, que fica do outro lado da rua do shopping, e tive uma espécie de espanto e “impacto visual” de ver um contingente gigantesco de pessoas, muitas com roupas velhas, chinelo e aspecto humilde, e aí fui me informar que eram pessoas que estavam indo assistir ao filme “Dez Mandamentos”, a maioria membras da Igreja Universal do Reino de Deus.

Ora, naquele momento senti uma grande vergonha de mim por estar fazendo acepção de pessoas. Será que se eles fossem, como se diz na gíria, “limpinhos e cheirozinhos”, eu teria tido a mesma atitude?

O interessante é que eu não me julgo pessoalmente melhor do que ninguém, sei racionalmente que todos somos iguais e somos todos pó (Gênesis 2:7) e ao pó voltaremos, mas, parece que o contexto em que vivemos e crescemos acaba colaborando para fomentar essas divisões que moram lá no nosso inconsciente, e que adoram fazer uma ligação com a nossa carne, nosso pecado, para nos afastar de nossos irmãos.

Mais a mais, temos que nos perguntar como agiríamos se em nossas comunidades de fé, chegam-se ali para orar na hora do culto um transexual, um mendigo, etc. Qual seria a nossa reação? Colocá-los para fora do templo, convidando-os para sair? Será que nos afastaríamos deles nos bancos onde nos sentamos? Será que iríamos encaminhá-los para os diáconos imediatamente para ver o que estas pessoas precisam para despachá-los o quanto antes dali? Isso é a proposta do Evangelho?

Definitivamente, não. O próprio Jesus não se negou a estar com os excluídos de seu tempo, aqueles que ninguém queria por perto. Ceiava com eles, ouvia suas dores e trazia uma mensagem de esperança.

Poderíamos ainda falar do espírito de “superioridade” que muitos religiosos nutrem quando se comparam aos de outra fé ou descrentes, a denotar outra espécie de elitismo, mas isso já seria um assunto para outra oportunidade.

A minha vontade é que essa consciência permeie os nossos corações, para que assim sejamos, de fato, cristãos. Os seguidores de Jesus Cristo foram chamados “cristãos”, “pequenos Cristos”, pela primeira vez em Antioquia (Atos 11:26) porque seu comportamento, atividade e fala eram como a de Cristo. Que esse seja o nosso espírito, havendo uma coerência genuína do nosso agir e falar para que o Reino seja manifesto neste mundo. Amém.

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