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Opinião

É melhor fazer o bem

Sem desfalecer.

José Brissos-Lino

em

O Bom Samaritano
O Bom Samaritano. (Foto: JW.org)

Vivemos em tempos em que se começa a duvidar que seja oportuno ou vantajoso fazer o bem, face a notícias de campanhas de solidariedade em que os bens recolhidos são desviados do seu destino, de criminosos soltos, corrupção e abusos de toda a ordem.

O texto neotestamentário da Epístola aos Gálatas, capítulo 6, mostra-nos que os crentes das comunidades cristãs em toda a região da Galácia precisavam de saber que o importante não era a sua origem judaica ou gentia. Apesar da discussão estar em cima da mesa na época, isso não interessava nada. O importante era ser uma “nova criatura” (6:15). E uma nova criatura não se cansa de fazer o bem, até porque é melhor optar por fazer sempre o bem. A história bíblica fornece múltiplos e eloquentes exemplos desta verdade espiritual.

No Egipto dos faraós – talvez a nação mais poderosa da terra na altura – o poder absoluto do soberano era inquestionável. Perante a evidência de que a bênção de Deus estava sobre o povo hebreu, que ostentava uma taxa de mortalidade infantil muito inferior à dos naturais, o poder real decidiu, num arrobo de xenofobia, eliminar à nascença todos os nascituros masculinos. Tratou-se dum genocídio selectivo ao qual escapou o pequeno Moisés, filho de Joquebede, de acordo com o relato genésico.

Quarenta anos depois, aquando do Êxodo, o Deus de Abraão, Isaque e Jacob enviou a última das dez pragas sobre a terra, tendo através dela sido sacrificados naquela noite todos os primogénitos dos egípcios, o que quebrou finalmente a obstinação do faraó em não querer permitir a saída do povo oprimido.

Mais vale fazer o bem.

A geração dos hebreus que saiu da escravidão manifestou a sua rebeldia contra o Deus que os havia acabado de libertar de modo tão glorioso, logo no início da sua jornada no deserto do Sinai. A atitude imediata face à primeira adversidade enfrentada, depois de três dias à procura de água para beber e face à frustração de deparar com as águas amargas de Mara, foi a murmuração (Êxodo 15:22-27).

O facto é que Deus levou Moisés a lançar um ramo de árvore que lançou nas águas e estas tornaram-se boas. Pouco mais à frente Deus providenciou um oásis com diversas fontes de água potável e inúmeras sombras, em Elim, mas aquela geração de murmuradores que saiu do Egipto acabou por morrer no deserto, sem alcançar a terra da Promessa, devido à sua repetida murmuração e rebeldia.

Mais vale fazer o bem.

A sede de poder do maquiavélico Hamã e a inveja que alimentava contra Mardoqueu levou-o a planear o genocídio dos judeus na Pérsia, nos anos do exílio, mas o resultado de tal monstruosidade foi que acabou enforcado pelo rei Assuero: “Porque o judeu Mardoqueu foi o segundo depois do rei Assuero, e grande entre os judeus, e estimado pela multidão de seus irmãos, procurando o bem do seu povo, e proclamando a prosperidade de toda a sua descendência” (Ester 10:3).

Mais vale fazer o bem.

Judas Iscariotes, o membro do colégio apostólico em quem Jesus Cristo investiu sensivelmente o mesmo que em todos os outros onze, acabou por ceder ao mal (Lucas 22:3), acabando por entregar o Mestre ao poder do Templo, a troco de trinta moedas de prata (Mateus 26:15). Mais tarde arrependeu-se da sua traição, prevendo a iminente execução de Jesus e suicidou-se.

Mais vale fazer o bem.

A certa altura o apóstolo adverte claramente os gálatas: “Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará” (6:7). Quem faz o bem lança uma semente à terra.

Mais vale fazer o bem. 

Para escândalo dos religiosos judeus Jesus ensinou não só a fazer o bem, mesmo aos inimigos, mas até a amá-los: “Mas a vós, que isto ouvis, digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam” (Lucas 6:27).

Mais vale fazer o bem. 

A estória do bom samaritano e tantos outros episódios bíblicos ensinam-nos a importância de praticar sempre o bem. O problema é quando desistimos do bem devido ao mal que nos cerca. Mas a orientação é clara: “E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido.” (6:9).

Vale sempre a pena fazer o bem. Sem desfalecer.

Nasceu em Lisboa (1954), é casado, tem dois filhos e um neto. Doutorado em Psicologia, Especialista em Ética e em Ciência das Religiões, é director do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, em Lisboa, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e investigador.

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