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Opinião

Chernobyl e o preço da mentira

O grande Mestre disse que somente a verdade é capaz de nos libertar.

JB Carvalho

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Cena de Chernobyl. (Foto: Reprodução / HBO)
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Terminei de assistir hoje à série da HBO que mostra os bastidores do acidente nuclear na Ucrânia Soviética em abril de 1986. Faz 33 anos que parte da Europa ficou ameaçada de se tornar inabitável por conta de uma nuvem radioativa mais potente que 400 bombas de Hiroshima e Nagasaki juntas.

A fumaça mortífera composta de iodo-131 e césio-137 se espalhou pelo vento chegando à Suécia dois dias depois do acidente a cerca de 1100 quilômetros  de distância do local do acidente.

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A catástrofe é o episódio mais desastroso da história da produção de energia nuclear, classificado como um evento de nível 7 (a classificação máxima).

Estima-se que o prejuízo causado seja de mais de 300 bilhões de dólares aos cofres da URSS. Sem falar na contaminação da água, do solo, das plantas, do ar, dos animais e dos seres humanos.

Contudo, o tema principal de Chernobyl — A série, é de cunho moral: qual o preço da mentira? Durante a Guerra Fria o império soviético a fim de não revelar nenhuma mostra de fraqueza para o Ocidente, maquiou os fatos ocorridos em um teste de segurança do reator 4 da usina. Ao que parece, o desastre só aconteceu pelo medo de lidar imediatamente com as implicações da verdade do que estava acontecendo.

A covardia dos envolvidos ao tentarem se autoproteger fez com que os danos aumentassem a cada segundo. A decisão das autoridades de minimizar o acontecido e não avisar a população, maximizou a contaminação.

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A série começa com o cientista, o Valery Legasov (Jared Harris), gravando fitas cassetes com a descrição dos fatos escondidos. Legasov adoecido pela radiação suicidou exatamente dois anos depois do trágico acidente.

Com a licença poética da série, Legasov dispara: qual o preço da mentira? Essa é então a primeira e incalável pergunta.

No caso de Chernobyl foram milhares de vidas, bilhões de dólares, florestas derrubadas, agricultura arruinada e um país quebrado. Nas contas da URSS foram apenas 31 pessoas que morreram, mas é certo que as mortes provocadas pela radiação de Chernobyl chegaram a casa de dezenas de milhares. Uma cultura de mentiras deixa um verdadeiro rastro de destruição.

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Na cena julgamento do caso, no último episódio da série, (aviso de spoiler), Legasov corajosamente expõe o engano com que o acidente foi administrado e sentencia: “Cada mentira que contamos gera uma dívida com a verdade. Um dia está conta deverá ser paga”. Em Chernobyl e na vida real, a mentira tem seu preço. E as coisas só pioram quando escondemos os fatos.

O grande Mestre disse que somente a verdade é capaz de nos libertar.

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Teólogo, professor universitário, compositor filiado a Abramus, jornalista e escritor de 12 livros.