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Estudos Bíblicos

Carta à Assembleia de Deus

A propósito dos seus 107 anos de história

Alex Esteves

em

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Assembleia de Deus,

Eu vos saúdo com a paz do Senhor,

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Neste 18 de junho a senhora completa 107 anos de existência, o que de nenhum modo pode ser desprezado. Parafraseando o apóstolo João, dirijo-me a uma “senhora eleita e aos seus filhos, a quem eu amo na verdade” (II Jo 1). Tenho pela senhora grande afeto, consideração e respeito. Também sou seu filho, já que em dores de parto a senhora me trouxe ao mundo, com muito labor e fadiga, ao que se associou o regozijo por mais um filho na fé nascido no contexto de vossa pregação, ensino, exemplo e orações. Receba, com esse sentimento, minhas felicitações.

Lembra quando, em 10 de novembro de 1910, os suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg aportaram em Belém, provenientes dos Estados Unidos e embebidos do Avivamento Pentecostal? Que boas lembranças! Aqueles dois jovens missionários não tinham o objetivo de estabelecer mais uma denominação evangélica: queriam simplesmente atender ao chamado do Senhor, conforme profecia que indicava o Pará como destino. Nem sabiam em que continente ficava aquele lugar, mas um mapa os socorreu, mostrando que se tratava de um Estado do norte do Brasil, um país continental e exótico, o maior da América Latina.

Vingren e Berg vieram pregar que “Jesus salva, cura, batiza no Espírito Santo e em breve voltará”. Era uma pregação simples, impulsionada pelo poder que haviam recebido no Movimento Pentecostal que destampara no ano de 1906, na Rua Azusa, nº 312, em Los Angeles, Califórnia (a senhora viu como eu lembro de alguns detalhes?). Foi na esteira desse movimento que Vingren e Berg foram cheios do Espírito Santo, não podendo deixar de falar do que tinham experimentado.

Depois de um período congregando na Igreja Batista local, Gunnar Vingren e Daniel Berg tiveram de se reunir, de forma autônoma, com outros irmãos, a partir de 18 de junho de 1911 – sua mensagem do batismo com fogo não fora aceita. O nome adotado para a senhora foi “Missão da Fé Apostólica”, assim como a igreja do pioneiro pentecostal William J. Seymour. Um pouco mais tarde, a senhora adotaria o nome “Assembleia de Deus”, usado nos Estados Unidos por senhoras igualmente eleitas e igualmente pentecostais.

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Lembro que vieram de fora outros missionários, os quais se espalharam progressivamente por todo o Brasil, enquanto os próprios novos membros, em suas migrações, saíam pelos Estados brasileiros pregando a fé pentecostal. O número de protestantes em nosso país aumentou muito nas décadas seguintes. A senhora foi usada por Deus para contribuir com a evangelização, com o testemunho, com a oração sistemática. A senhora ajudou muito o Brasil, ainda que ele não saiba ou não queira admitir.

Círculos de Oração, cruzadas evangelísticas, vigílias (de verdade), missões urbanas, evangelização maciça e massiva, casas de recuperação de dependentes químicos, pregações emocionadas (mas não emocionalistas!), teologia pentecostal ortodoxa, integração social dos mais pobres, preparação de obreiros, respeito às autoridades constituídas, seriedade, carisma, variedade de dons espirituais, respeitabilidade – tudo isso é um legado, uma herança que vossos filhos precisam compartilhar, valorizar e transmitir, sem imitar o que é mau, senão o que é bom!

Eu mesmo sou fruto de tudo isso: criado em vosso ambiente, desde pequeno frequentei a escola bíblica dominical e os Círculos de Oração, fui a alguns congressos, e depois visitei algumas vigílias. Desde a infância a senhora me ajudou a perceber que Deus me chamava para o ministério pastoral, o que foi confirmado mediante profecias e exercício de dons outorgados pelo nosso Senhor. Mas quero retornar à vossa história:

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Num determinado momento, alguns pastores locais – seus filhos – quiseram receber dos missionários autonomia para conduzir os rumos dali em diante. E assim se fez. Parece que essa transição é, de fato, um fenômeno importante na seara das missões transculturais. Aquela decisão – a senhora sabe – definiu a identidade pela qual a senhora viria a ser conhecida, assim como a vossa conduta e maneira de se organizar na vida prática.

É interessante a questão dos usos e costumes, algo que a caracterizou por tanto tempo. Pensando aqui comigo, percebi que na história não é incomum uma senhora  preservar, por anos a fio, costumes adquiridos nos primórdios da fé, os quais, na sinceridade do seu coração, passam às vezes a ser tidos como sinônimo de santidade e modéstia cristã. Mas, então, ao atingir uma idade mais madura, essa mesma senhora é capaz de avaliar o que em seus costumes é fruto da moral social e o que de fato deve permanecer. Esta reflexão considerei importante compartilhar com a senhora neste dia especial, porque sei que a senhora tem avançado positivamente quanto aos conceitos de santidade, modéstia e liberdade cristã.

A senhora foi – e ainda é – muito acusada de anti-intelectualismo, o que demanda uma reflexão um tanto mais acurada. Não está na essência da senhora ser anti-intelectual, e muito de vossas carências nessa área pode ser explicado pelas deficiências de nosso sistema educacional, e debitado do nosso subdesenvolvimento como país. Penso que anti-intelectualismo seria uma distorção, não apenas do pentecostalismo, mas de qualquer religião. Talvez a senhora seja um pouco mais tentada nesse campo em razão de uma herança dualista que costuma visitar aqueles que dão ênfase a experiências espirituais. Mas penso que estamos obtendo vitórias importantes quanto a esse aspecto, tanto pelas novas gerações de assembleianos que chegam à universidade quanto pela teologia de alta qualidade que muitos de vossos filhos têm produzido.

Mudando de assunto, não sei se a senhora acredita, mas na década de 1990 acompanhei o surgimento, em vosso meio, de uma tendência hoje conhecida pela onomatopeia “reteté”, um movimento esdrúxulo que une misticismo, sugestões psicológicas, mau uso dos dons espirituais e teologia fraca, redundando em fogo estranho e esquisitices comportamentais em ocasiões de culto a pretexto de avivamento. Isto nos entristece, mas sei que a senhora também não está contente. Sei que a senhora, quando teve oportunidade, se pronunciou publicamente contra essas bobagens, que a senhora chama de “meninice”. Talvez pudéssemos chamar esse fenômeno de “catapentecostalismo”, ou seja, um tipo de movimento descendente, porque brota do pentecostalismo e o lança abaixo (do grego katá, que significa “para baixo”).

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Outro assunto que nos chateia um pouco – desculpe, é vosso aniversário, mas estou certo de que nossa comunhão nos permite tais digressões – é a imitação de expedientes “neopentecostais” (eu preferiria “pseudopentecostais”), como teologia da prosperidade (confissão positiva), triunfalismo, maldição hereditária, cobertura espiritual, fetichismo evangélico – nada disso é pentecostal, mas a senhora às vezes é confundida com aqueles que defendem tais coisas, porque muitos de vossos filhos entraram infelizmente por esse caminho. O lado bom é que penso estarmos superando muitos desses modismos.

Uma controvérsia mais recente é a do “calvinismo pentecostal”, ou seja, a adesão de muitos de vossos filhos à soteriologia na perspectiva calvinista. Este é um componente atualíssimo, que precisa ser tratado com clareza: como a senhora sabe, a teologia sistemática reformada (ou calvinista) é uma das mais sofisticadas que existem, e todos nós, protestantes, fomos muito beneficiados com a tradição reformada em diversos aspectos, como, por exemplo, uma visão bíblica (correta e não dualista) dos temas da Criação, da Cultura e da Vocação.

Diferentemente do espantalho e caricatura que alguns concebem, os cristãos reformados foram responsáveis por muito da moderna expansão missionária transcultural, e alguns dos melhores pregadores e teólogos da história foram calvinistas.

Ainda nesse tema, a senhora sabe também que eu mesmo tenho me esforçado, junto a outros pastores, no sentido de mostrar para nossa comunidade em que consiste a fé arminiana e pentecostal, e qual a nossa identidade ministerial e eclesiástica, o que passa por destacar nossa soteriologia e nossa pneumatologia. Todavia, não passa pela nossa cabeça uma atitude provinciana, coronelística e autoritária de acusar os calvinistas do que eles não são, tampouco de querer impedir que quaisquer obras produzidas por eles sejam distribuídas em vossas livrarias – assim como não queremos ser acusados de pelagianismo ou semipelagianismo…

É claro que uma editora assembleiana confessional publicará material arminiano e pentecostal, mas as livrarias precisam exibir prateleiras um tanto diversificadas, até para efeito de pesquisa (não sei se a senhora sabe, mas tenho em minha biblioteca um livro de Ellen White, um exemplar do Livro de Mórmon, um outro de Benny Hinn e a biografia autorizada de Edir Macedo…, mas costumo gastar meu tempo mais com obras com as quais tenho afinidade doutrinária e teológica). De toda maneira, cabe a seus filhos mais experientes orientarem os demais quanto àquilo que devem ler, conforme seu estágio de maturidade cristã, o que é muito diferente de criar uma espécie de index librorum prohibitorum.

O ponto fundamental talvez esteja na pregação expositiva: percebendo que nossos preletores mais incensados são justamente aqueles que pregam em congressos sensacionalistas de última hora (falo como homem), que, de maneira vazia, interpretam a Bíblia alegoricamente e usam o púlpito para uma ridícula exibição de seus pantagruélicos dotes de oratória, muitos de vossos filhos devem ter se voltado para ouvir pregadores calvinistas, porque estes geralmente valorizam a exegese do texto (e não a eisegese). Será de bom alvitre mostrarmos que há na homilética pentecostal espaço garantido para a pregação expositiva, e que nossa teologia do Espírito Santo pode contribuir para sanar muitas dúvidas com relação aos dons espirituais e seu papel na missão da Igreja de Cristo.

O derradeiro tema que gostaria de tratar está relacionado à política eclesiástica. Para nossa infelicidade, alguns, motivados por sentimentos estranhos, e procurando interesses diferentes, podem aparecer em certa imprensa marrom, porque é disso que se faz uma imprensa marrom. No entanto, essa minoria barulhenta e obscura, de espírito sindicalista ou de inspiração oligárquica, não representa a família que a senhora constituiu. Alguns deles podem ser bastardos. Outros são filhos imaturos. Em meio a tudo isso estão os filhos verdadeiros, que, juntos, constituem a maior igreja evangélica do Brasil e a maior igreja pentecostal do mundo, para glória de Deus e benefício dos santos.

A esta altura, de tudo o que vos tenho escrito a suma é que nutro por vós sentimentos de profundo amor e sincera gratidão. Embora eu não seja bairrista, e nem possa ser considerado o protótipo do assembleiano segundo a concepção média, sei valorizar e reconhecer a importância que tem a memória afetiva para o assentamento de virtudes cristãs, assim como o lugar da boa tradição eclesiástica – não se trata de denominacionalismo, mas de guardar o bom depósito que nos foi confiado, atentando para nossos pastores e imitando a fé que tiveram.

E isto faremos, se Deus nos permitir.

Não posso falar pelos outros, mas, no meu caso, estou convicto de que meu ministério se acha vinculado à senhora, uma distinta cristã protestante, evangélica e pentecostal, filha de uma história que começou no Calvário.

Por fim, senhora eleita, se este vosso filho tiver condições de vos rogar alguma coisa, rogo que caminhe para frente, sem descurar dos valores que marcaram uma trajetória tão bela.

Vossos filhos a amam e querem o vosso bem.

Sem mais, agradeço pela oportunidade em nome de Jesus.

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Ministro do Evangelho (ofício de evangelista), da Assembleia de Deus em Salvador/BA. Foi membro do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Fraternal dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Estado da Bahia, antes de se filiar à CEADEB (Convenção Estadual das Assembleias de Deus na Bahia). Bacharel em Direito.

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