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Opinião

Características da falsa piedade

As pessoas sabem de sua existência e até dos males que provoca, mas poucas pessoas percebem pontualmente sua ação

Artur Eduardo

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Há um texto interessante no Evangelho de João, em que Judas, o traidor, ao ver Maria, irmã de Marta e Lázaro, ungir os pés de Jesus com Nardo e enxuga-los com seus cabelos, perguntou porque não se vendeu o óleo – muito precioso à época – e o dinheiro se repartiu com os pobres (Jo. 1:1-8). A resposta de Jesus é interessante. Apesar de João, no Evangelho, afirmar que Judas não se preocupava com os pobres, mas queria na verdade roubar a bolsa (pois era o tesoureiro do grupo dos discípulos), o que nos faz imaginar que Jesus deveria saber as reais intenções de Judas, ainda assim ele não responde segundo a intenção maligna do falso discípulo, ou seja, repreendendo-o, mas afirma que o que Maria lhe fizera era fruto de honra e os pobres, se quisessem mesmo ajuda-los, sempre os discípulos os teriam. Não sei de melhor exemplo bíblico acerca da falsa piedade.

Particularmente, penso que só se descobriu que Judas era ladrão após sua morte, do contrário, teria sido destituído da função de tesoureiro ainda em vida. Ninguém teria “provas” contra Judas enquanto ele fora o tesoureiro, portanto. Mas, o que importa mesmo aqui é o ensino sobre a percepção espiritual. A falsa piedade é um mal antigo que sempre esteve presente no meio da Igreja, como um parasita, uma chaga que teima em se manter aberta. O pior é que as pessoas sabem de sua existência e até dos males que provoca, mas poucas pessoas percebem pontualmente sua ação. Contudo, a partir do exemplo de Judas, podemos elencar alguns aspectos do que podem ser sinais indicadores da falsa piedade tentando angariar aliados para seus propósitos funestos.

Uma das características que se nos salta os olhos no texto de “João”, e que parece entrar em consonância com os demais exemplos corriqueiros do mesmo mal, é o fato do falso piedoso falar em nome ou por aparente defesa de determinado grupo. Judas, no caso, falou em nome dos “pobres”. Este foi o grupo escolhido diante do qual pudesse posar de defensor. Mas poderiam ter sido as viúvas, os paralíticos, os leprosos, etc. O grupo em si não importa; o que importa é como é usado. Normalmente, o falso piedoso assenhora-se de determinado grupo, falando em nome do mesmo. Geralmente é um grupo mais necessitado, e por isso mesmo mais suscetível a aceitar as assertivas do falso piedoso: se pobres tivessem ouvido a argumentação de Judas, tenderiam a apoiá-lo de imediato, não sabendo que estavam apoiando, na verdade, um ladrão traidor.

Outra característica importante do falso piedoso é a capacidade de falar as coisas aparentemente certas nas horas certas às pessoas suscetíveis. A Bíblia, no texto, diz-nos simplesmente que “Judas perguntou…”. Bem, com certeza foi a alguém. E é mais certo ainda que sua argumentação foi direcionada a pessoas suscetíveis, ou seja, àquelas que ele sabia, por instinto, que tenderiam a receber, sem nenhum tipo de crivo, a sua crítica. Judas não comenta uma semana depois do acontecido, mas, ao que tudo indica, na hora em que Maria está enxugando os pés de Jesus com seus cabelos.

Ele, provavelmente, perguntou inclusive à própria Maria, pois a principal motivação do falso piedoso é desvirtuar a genuína piedade dos piedosos. Judas ainda tinha um agravante, que era o fato de ser ladrão e, talvez, quisesse que Maria ofertasse algo ao grupo dos discípulos para que ele, depois, roubasse da coleta. Mas, o fato que fica claro é a tentativa de desvirtuar o ato nobre, espiritual e de reconhecimento de Maria da pessoa de Jesus. Os que tentam desvirtuar as boas e nobres ações, sob pretextos diversos e por mais racionais e justificáveis que pareçam, o fazem por sentimentos escusos, sombrios, e não pouparam nada nem ninguém no seu objetivo de concretizá-los.

Por fim, outro sinal do falso piedoso, a exemplo do texto, é justamente parecer piedoso aos olhos de suas vítimas. Sim, como um sociopata, o falso espiritual é alguém que age camaleonicamente. Este tipo de ação, de adequação ao meio, moldando-se àquilo que as pessoas querem ouvir é, se não a maior, uma das maiores e mais fortes facetas de sua personalidade. Sabedor do fato de que nós, seres humanos, temos problemas inerentes à nossa natureza quanto à liderança – principalmente a espiritual -, não é de admirar que os falsos piedosos valham-se desta fraqueza humana para usá-la em benefício próprio.

Na frente das demais pessoas, o falso piedoso é um genuíno defensor dos preceitos cristãos. Aparentemente, suas colocações, suas assertivas e ênfases são vistas como as de uma pessoa que realmente se preocupa com as demais, que estão bem intencionadas e que pensam sempre de forma coletiva. Ledo engano. Suas palavras e ações, se observadas mais acuradamente, dividem, enfraquecem, afastam de alvo divino, fomentam a discórdia, enchem os corações de dúvidas, desconfiança, rancor e, por fim, fazem com que o homem se levante contra o próximo.

A Bíblia nos alerta quanto a este tipo de pessoas, as quais não estão cheias de Deus, mas de si. Engodadas e ludibriadas por elas próprias, mentem para si mesmas, achando que  sempre escaparão da justa condenação de Deus. Enganam-se miseravelmente. O próprio Deus, em sua Palavra, inspirou homens a escreverem sobre o que Ele mesmo sente diante de quem vive assim. Não importa o mal que faça e a quantos engane, o falso piedoso jamais enganará a Deus e, para todo o que age e insiste em continuar vivendo uma espiritualidade enganosa, desprovida do Espírito que aparentemente professa, cabe lembrar das seguintes palavras do livro de Salmos:

“Socorro, SENHOR! Porque já não há homens piedosos; desaparecem os fiéis entre os filhos dos homens. Falam com falsidade uns aos outros, falam com lábios bajuladores e coração fingido. Corte o SENHOR todos os lábios bajuladores, a língua que fala soberbamente, pois dizem: Com a língua prevaleceremos, os lábios são nossos; quem é senhor sobre nós? Por causa da opressão dos pobres e do gemido dos necessitados, eu me levantarei agora, diz o SENHOR; e porei a salvo a quem por isso suspira”, Salmo 12:1-5.

Bacharel em Teologia e Filosofia. Pós-graduado em Gestão EaD e Teologia Bíblica. Mestre e Doutorando em Filosofia pela UFPE. Doutor em Teologia pela FATEFAMA. Diretor-presidente do IALTH -Instituto Aliança de Linguística, Teologia e Humanidades. Pastor da IEVCA - Igreja Evangélica Aliança. Casado com Patrícia, com quem tem uma filha, Daniela.