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Sociedade

Atos 2 seria uma “ficção historicizada”?

O “pós-liberalismo esquerdista” no meio pentecostal

Alex Esteves

em

Bíblia aberta em Atos 2. (Foto: Gospel Prime)
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Preciso retornar ao livro “Experiência e hermenêutica pentecostal” – publicado em 2018 e aparentemente retirado de circulação pela CPAD em junho de 2019 – para discorrer especificamente sobre a forma como sua proposta lida com o conceito de “ficção historicizada”, o qual foi introduzido por Robert Alter no livro “A arte da narrativa bíblica” (1980).

Antes de prosseguir, cabe dizer que, conquanto a obra tenha aparentemente saído de circulação, aquilo que ela defende está bem presente de outras maneiras, inserindo-se naquilo que temos denominado “pós-liberalismo esquerdista” no meio pentecostal.

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Repare o leitor que se trata de Atos 2, texto fundamental para a teologia do pentecostalismo histórico, mas devo lembrar sobretudo que as questões aqui suscitadas dizem respeito a temas como revelação, inspiração, infalibilidade, inerrância e autoridade da Escritura, aspectos fundamentais da fé cristã, sendo, portanto, um terreno em que afirmações demasiado avançadas podem configurar violência ao credo das igrejas protestantes conservadoras da doutrina (e não apenas ao mundo pentecostal ou a temas secundários).

Dito isso, leia o que segue, por favor:

A obra afirma que Atos 2.1-13 seria uma “experiência religiosa fundante narrativizada” (p. 185); que “o projeto de expansão do anúncio” (p. 185), em At 1.8, começa a se cumprir no Pentecostes; que o narrador usa “estratégias” (p. 185) para facilitar aos leitores as “relações intertextuais” (p. 185) – até aqui não há o que objetar, e o pentecostal conservador poderia confundir essa proposta com as sugestões provenientes de teólogos pentecostais como Robert P. Menzies e Roger Stronstad.

Entretanto, esse mesmo leitor se assustaria, com razão, ao ler o seguinte: “Robert Alter, professor de literatura comparada, chamaria esse texto [At 2] de ‘ficção historicizada’, vendo a narrativa como a imaginação das origens realizando-se na história primordial da Igreja” (p. 185). “Ficção” e “imaginação das origens” não seriam expressões que se pudessem desprezar liminarmente, correto?

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Nesse sentido, afirma o livro que “Atos 2 seria, então, estratégia literária para promoção e compreensão necessárias da historicização do projeto do capítulo primeiro” (p. 186). Cabe observar que “estratégia literária” não seria algo necessariamente ruim, pois é sabido que Lucas, como habilidoso escritor e teólogo inspirado por Deus, maneja bem as palavras para que elas digam, com maior precisão, harmonia e objetividade, aquilo que ele pretende dizer. Mas é preciso notar que ele não manipula os fatos – apenas maneja as palavras, e sempre sob a supervisão, direção e orientação do Espírito Santo, que o inspirou a escrever (cf. II Tm 3.16,17; II Pe 1.19-21).

Prosseguindo, e ainda conforme a proposta do livro, todo o texto de At 2.1-47 seria o que “alguns autores” chamam de “narrativa de propaganda religiosa” (p. 186), em que, na primeira parte, os vv. 1-4 tratariam de êxtase e glossolalia, e os vv. 5-13, de anúncio às nações.

Citando um autor (Paulo Nogueira), o livro endossa a tese de que “Lucas ‘mascara’ a glossolalia deslocando-a de contexto” (p. 186), pois o narrador tomaria as línguas, não como “êxtase cultual” (pp. 186, 187), mas como “início da pregação do Evangelho” (p. 187).

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Ainda citando esse autor, o livro aponta para esse alegado fenômeno como “reformulação redacional” (p. 187), operada pela “mudança sutil de cenário” (p. 187), localizando a experiência do êxtase em Jerusalém para fornecer o significado pretendido (nesse ponto a citação parece truncada, mas a essência é de que a experiência de êxtase de cristãos primitivos teria sido deslocada para Jerusalém com o intuito de auferir a acepção teológica buscada pelo narrador).

Preste atenção nisto, que ainda é transcrição do autor citado acima, e endossada sem ressalvas pela obra em questão: “O texto dos versos 1-4 poderia ter cabido perfeitamente em um contexto de cultos das primeiras comunidades” (p. 187). A ideia subjacente (não explícita aqui, mas subjacente!) é a proposta teológica liberal de que o Novo Testamento é o registro da fé dos primeiros cristãos, e não a revelação dada mediante inspiração verbal plenária.

Segundo o livro, “alguns estudiosos” (p. 187) dizem que havia uma tradição relacionada a expressões de êxtase, a qual recebera “tratamento redacional” e ficou “‘domesticada'” (p. 187). O que isto quer dizer, senão que experiências reais de êxtase teriam sido explicadas e tratadas como suposta proclamação do Evangelho?

Nessa esteira, o narrador teria “transformado o fenômeno de êxtase e línguas, com auxílio das tradições judaicas, em anúncio” (p. 187). Não há como conferirmos eufemismo ao que é dito aí: a obra propõe que o narrador atribuiu ao êxtase um significado que ele não tinha.

E mais: “O contexto histórico da festa de Pentecostes seria uma estratégia literária” (p. 187), “intuição” esta advinda de uma passagem do livro (não canônico) de Jubileus, em que Fílon, ao discorrer sobre a entrega da Lei, alude a uma voz maravilhosa e terrível que ecoou do fogo do céu, sendo a chama “dotada de linguagem familiar para seus ouvintes” (p. 187). Observe que não se trata de manejo habilidoso de palavras, mas de situar o derramamento do Espírito na festa de Pentecostes sem que isso tenha ocorrido, para aproveitar a tradição rabínica, a fim de servir à referida “propaganda religiosa”.

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Repete-se a noção de que Lucas teria “domesticado” (p. 187) o êxtase para usá-lo com o sentido de “proclamação às nações” (p. 188), o que teria feito a partir da “tradição rabínica”, que inclui “a crença na inicial proclamação da Lei a setenta nações” (p. 187), além de diversas passagens veterotestamentárias – acerca do profetismo de Israel (citadas às pp. 190 e 191) – e da literatura apocalíptica (não necessariamente canônica).

Depois de tudo o que se viu até agora, recordemos alguns termos, que precisam ser lidos em conjunto: “ficção”, “imaginação das origens”, “estratégia literária”, “narrativa de propaganda religiosa”, “Lucas ‘mascara'”, “reformulação redacional”, “o narrador teria transformado…” Sejamos sinceros: o leitor cristão não deve se preocupar?

O capítulo de que foram extraídos esses excertos tem por título “Hermenêutica do Espírito: Atos 2 e o Empoderamento para a Ação Pentecostal”. No entanto, o que podemos perceber é uma peroração que em nada lembra um conteúdo de hermenêutica bíblica, aproximando-se o texto de teorias literárias que costumam ser bem recebidas pelo liberalismo teológico e pelo que chamamos de “pós-liberalismo teológico”, este associado às teorias pós-modernistas de desconstrução.

Não será demais recordar que teorias literárias não podem ser aplicadas à Bíblia como se aplicam à literatura comum, em virtude de a Bíblia ser a Palavra de Deus. O conceito de inerrância não será observado se tratarmos a Bíblia desse jeito. É preciso, ainda, misturar fé às nossas pesquisas, e não desconsiderar o imenso repertório de conhecimento doutrinário e teológico sedimentado no curso dos séculos.

Portanto, a controvérsia que envolve o tema não pode ser vista como simples diversão acadêmica ou gosto por discussões, porque estamos a tratar das crenças básicas do Cristianismo. É muito importante – mais do que isso, é crucial! – perceber a gravidade do problema ora examinado, mesmo porque a retirada do livro pela própria editora não estancou o avanço, no campo pentecostal, das ideias pós-modernistas veiculadas na indigitada obra.

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Anoto, por fim, que tenho me esforçado para compreender e denunciar o fenômeno do pós-liberalismo esquerdista no meio pentecostal, e nisto me tenho feito orientar pelo binômio senso de urgência-necessidade de fundamentação. Ao mesmo tempo em que me posiciono contra esse “cavalo de troia”, e o faço com a urgência que o caso requer, procuro me conduzir de tal forma que minhas intervenções não sejam desprovidas de lastro. Assim tenho procedido, e assim espero continuar, querendo Deus.

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Ministro do Evangelho (ofício de evangelista), da Assembleia de Deus em Salvador/BA. Foi membro do Conselho de Educação e Cultura da Convenção Fraternal dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Estado da Bahia, antes de se filiar à CEADEB (Convenção Estadual das Assembleias de Deus na Bahia). Bacharel em Direito.