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Opinião

Andando sobre as águas

Se quisermos transformar esse mundo, não podemos aplicar os seus valores.

Andrei Alves

em

Mar da Grécia. (Foto: Anastasia Taioglou / Unsplash)

O filósofo polonês Zygmunt Bauman chamou o tempo que vivemos de modernidade líquida, marcado por constantes transformações, sempre em movimento, imprevisível, fragmentado e caótico.

A chamada pós-modernidade, não seria um novo tempo, mas a negação dos valores éticos, morais, familiares, sociais e, até mesmo, de direitos da modernidade.

Sabemos que o cristianismo foi a base para a formação do mundo moderno no Ocidente, influenciando a sua estrutura social, ordenamentos jurídicos e o pensamento humano. Diante disso, uma pergunta importante nós precisamos fazer:

Como o cristianismo continuará sendo a influência no mundo ocidental diante da liquidez moral, relacional, familiar e sistêmica desse tempo?

No Antigo Testamento, duas situações interessantes aconteceram em relação à manifestação de Deus sobre as águas: Moisés abriu o mar Vermelho com o seu cajado e Josué parou as águas do rio Jordão criando uma represa. Nas duas situações, o povo de Israel caminhou em chão firme.

Será que é tempo de abrirmos o mar, apontando para esse mundo um chão que existe debaixo de toda essa liquidez? Será que é tempo de frearmos e represarmos a correnteza que tem levado essa geração a viver um caos de identidade e destino?

Já no Novo Testamento, os evangelhos narram a forma como Jesus Cristo apareceu para os seus discípulos em alta madrugada caminhando sobre as águas.

Um momento tão extraordinário que os discípulos ficaram aterrorizados e somente Pedro viu uma oportunidade para participar desse milagre. Jesus Cristo nessa situação não pisou em um lugar estável, mas caminhou sobre lugares instáveis.

Será que o nosso chamado é apontar para o chão que está debaixo das águas ou andar sobre as águas?

Diante de um tempo de moralidade líquida, de relacionamentos líquidos e de estruturas sociais líquidas somos chamados para apresentar um evangelho que se manifesta acima da instabilidade desse mundo e revela pela fé um chão que não é terreno, mas celestial.

Enquanto, estivermos olhando para Jesus Cristo, assim como Pedro, teremos condições de caminhar sobre a realidade que vivemos, transformando-a não por meio de recursos dessa terra, mas revelando o poder de Deus que é superior a toda religião, a todo ordenamento jurídico e a todo valor terreno.

O apóstolo Paulo diz em 1 Coríntios 13.13 que “assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor”. O Espírito Santo revelou a nós por meio de Paulo que existe uma dimensão e grau em relação aos valores. A fé e a esperança são valores e princípios poderosos e transformadores, mas o amor é um valor superior a eles.

Jesus Cristo nos mostra, em João 4.35, a chave para vivermos numa dimensão de valores superiores que têm poder para transformar a terra, atraindo o mover sobrenatural de Deus sobre a nossa realidade, quando ele diz: “Vocês não dizem: ‘Daqui a quatro meses haverá a colheita’? Eu lhes digo: Abram os olhos e vejam os campos! Eles estão maduros para a colheita”.

Vivermos de acordo com a realidade da terra nos fará colher no tempo e na dimensão que ela pode produzir.

Jesus disse que o olhar humano para aquela situação revela que é necessário quatro meses para a colheita, mas aqueles que têm os olhos abertos pelo Espírito Santo conseguem ver uma realidade superior, onde o tempo, as circunstâncias e as pessoas deste mundo não conseguem compreender, ver e tampouco interferir.

Nós colhemos de acordo com o princípio que aplicamos. Jesus não veio restaurar uma religião, porque não foi isso o que perdemos no Jardim do Éden. Ele veio para restaurar o nosso relacionamento com o Pai e a nossa identidade de filho amado de Deus.

Através de Cristo Jesus, somos chamados para abrir os nossos olhos e ver coisas que nenhum homem natural pode ver se não for pelo poder do Espírito Santo.

Se quisermos transformar esse mundo, não podemos aplicar os seus valores. Não podemos fundamentar a nossa esperança e expectativa no chão que está abaixo da liquidez desse tempo.

Nós somos daqueles que não procuram um lugar estável nessa terra, mas dos que caminham sobre as águas com os olhos fitos no autor e consumador da nossa fé.

Andrei Alves é pastor de discipulado da Igreja da Cidade em São José dos Campos e diretor executivo do Instituto Propósitos de Ensino. Casado com a pastora Esther Alves e pai de Daniel, Gabriel e Miguel. Graduado em direito e pós-graduado em Direito do Trabalho. Mestre em Liderança Pastoral (MDiv). Graduando em Pedagogia e pós-graduando em Educação Moderna pela PUC do Rio Grande do Sul.

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