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Opinião

Ainda sobre a morte do sequestrador: não confunda justiça com vingança

O Estado não só pode como deve proteger os inocentes, e da mesma forma punir os criminosos.

Maycson Rodrigues

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Willian Augusto da Silva. (Foto: Reprodução / TV Globo)

Escrevi recentemente um artigo tratando da forma que o cristão deve reagir ao fato relacionado ao sequestrador, que foi alvejado e morto no episódio desta semana que se deu na Ponte Rio – Niterói, no Estado do Rio de Janeiro. Agora, quero rebater alguns pensamentos e falas que surgiram, dando a entender que o Estado errou na neutralização do criminoso. Pretendo mostrar que não se fundamenta biblicamente este tipo de visão sobre o ocorrido.

Numa situação de alto risco e elevado nível de tensão como essa, não é razoável que medidas mais drásticas pudessem ser tomadas, e isto para preservar a vida dos inocentes. É importante deixarmos claro que o jovem assumiu o risco de morte quando sequestrou o ônibus e ameaçou atear fogo em todos os presentes no veículo.

Diferentemente do indivíduo, o Estado é servo de Deus o bem da igreja e da sociedade. Se o cristão comete crimes, então deve temer o Estado, pois Deus o constituiu vingador para castigar o que faz o mal (Rm 13.4). Agora, se o cristão age dentro da legalidade e civilidade, não há o que temer. É assim que a Escritura estabelece.

Quando o regime do Estado é totalitário, como o comunismo norte coreano, já não está sujeito à revelação escriturística; logo, não se aplica o princípio de “que todos estejam sujeitos às autoridades superiores” (Rm 13.1). Procedem de Deus as autoridades que tão somente agem dentro do princípio normativo da equidade e da justiça.

Todos nós possuímos um senso daquilo que é bom e correto e daquilo que não o é. Está dentro de nós o bem e o mal e praticamos ambos de forma consciente (salvo raríssimas exceções, como em casos de crianças ou pessoas com algum tipo de doença psiquiátrica). Portanto, não temos de agir de forma dissimulada quando temos de compreender o papel do Estado no mundo criado por Deus.

A Escritura não dá base para o indivíduo se vingar de forma alguma – nem mesmo nos tempos em que se vigorava a Lei de Moisés –, mas o Estado pode. Quando o indivíduo mata, configura-se no pecado da vingança (exceto em casos de legítima defesa, o qual possui base escriturística); porém, quando o Estado mata, dependendo do caso, é justiça.

Agora, não confunda o que a Escritura ensina com aquilo que regimes comunistas totalitários fazem. Definitivamente, não se tratam da mesma coisa.

Se eu defendo minha família de um estuprador ou sequestrador e este vem a óbito, por exemplo, e as circunstâncias comprovam que eu apenas defendi os meus e não agi de forma temerária ou além das proporções previstas no senso comum dos direitos humanos, você não encontrará um texto bíblico que me condene por fazer isso. Eu posso amar o inimigo e defender a minha mulher de um criminoso, e não estarei pecando.

O problema é que transformaram o amor bíblico numa prática leniente, especialmente em casos em que a verdade deve ser salvaguardada. A verdade é que o marido dá a sua vida pela esposa em casos assim, e não o contrário. No entanto, se ele pode contar com o Estado para proteger sua casa em tempo… este é o mundo ideal.

Quando políticos de esquerda condenam a polícia ou o governador do Rio pela maneira que tudo foi conduzido, temos aqui uma assustadora inversão de valores. Ninguém deve comemorar a morte de ninguém, mas se o governador disse que celebrou a vida dos que foram salvos, não cabe a mim nem a você julgar sua subjetividade. Se ele mentiu, não foi para mim nem para você que o fez.

O fato foi lamentável porque estamos falando de um contexto de depressão, carência e inconsequência por parte do criminoso. Só que ele cometeu crime e foi neutralizado pela legítima e eficiente ação da autoridade civil. Logo, não devemos achar que o Estado deveria esperar para ver se o jovem iria mesmo atear fogo ou não. Há momentos críticos que exigem medidas severas, principalmente para se agir em legítima defesa de terceiros, que no caso eram a verdadeiras vítimas deste fatídico episódio.

A ideia de preservar a vida do criminoso como se fosse inocente é uma verdadeira inversão de valores e uma compreensão errada do que significa a justiça, tanto na Escritura quanto na vida.

O Estado não só pode como deve proteger os inocentes, e da mesma forma punir os criminosos. Prender sempre será a melhor opção, mas nem sempre será a opção mais viável.

A base formadora da opinião progressista na sociedade tentou criminalizar os que agiram dentro da Lei e inocentar quem agiu fora da Lei. E nada disso faz sentido.

Lamento pelas famílias das vítimas e também do criminoso, que levarão as sequelas deste dia de horror e morte para o resto da vida. Que possamos orar também por aqueles que vivenciaram horas traumáticas naquele ônibus e, também, que não deixemos de mencionar diante de Deus em oração que o poder público, em todo o país, haja sempre de forma justa e correta, a fim de que tenhamos paz e segurança.

Casado com Ana Talita, seminarista e colunista no site Gospel Prime. É pregador do evangelho, palestrante para família e casais, compositor, escritor, músico, serve no ministério dos adolescentes e dos homens da Betânia Igreja Batista (Sulacap - RJ) e no ministério paraeclesiástico chamado Entre Jovens. Em 2016, publicou um livro intitulado “Aos maridos: princípios do casamento para quem deseja ouvir”.

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