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opinião

A vivência da espiritualidade

O que aconteceu foi uma mudança da vivência religiosa em forma de religião sincrética e privada.

Denise Santana

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Culto religioso (Luis Quintero/Pexels)

Denise Santana é jornalista, teóloga e professora.

A religião tem a tarefa de responder à sociedade as perguntas existenciais. Mas o discurso religioso, antes detentor da verdade e do poder, disputa espaço com outras interpretações. Existe uma grande mudança na visão de mundo, na realidade, temos a pluralização, a diversidade e a globalização. Ainda temos as compreensões individualizadas da vida e o crescente egoísmo e o individualismo. Junte todos esses pontos e teremos um retrato do mundo atual onde a tradicional tenta resistir.

Existe crise na fé? As profecias dos teólogos Dietrich Bonhoeffer e Rudolf Bultmann diziam que sim, que a sociedade caminharia para a secularização. Entenda por secularização a ausência do domínio religioso, a religião deixando de ser um aspecto cultural agregador, a vida não mais determinada pela religião e a distância na relação Estado e igreja. Mas a secularização não venceu. O que se vê é que a sociedade caminhou para uma fé autônoma, longe da tutela das instituições religiosas.

O que está em crise hoje é a instituição igreja, mas as pessoas buscam desenvolver a religiosidade de forma individual. A secularização não conseguiu superar o religioso e a religião na mentalidade das pessoas. O que aconteceu foi uma mudança da vivência religiosa em forma de religião sincrética e privada. Hoje as pessoas sentem-se livres para organizar suas compreensões e vivências religiosas. As pessoas buscam o sagrado. A fé não está em crise. A fé tornou-se autônoma. A instituição igreja está em crise. Esse é o panorama que se observa.

Vivemos a pós-modernidade que é uma época de mudança de hábitos, valores, concepções e práticas que marcaram os períodos históricos passados. Temos um conjunto de novos valores na música, na literatura, na arte, nos meios de comunicação, nos filmes, nas novelas, no modo de vestir e no trato com as pessoas. Valores educacionais, sociais, políticos, morais e religiosos são contestados e outros são propostos.

Questiona-se muito sobre como é a espiritualidade na era pós-moderna. Vamos citar algumas características da sociedade do século XXI.

O povo anda avesso à tutela institucional. A religião não é mais institucional, como era em tempos antigos. As pessoas são religiosas sozinhas, autônomas na fé. Estão com Deus, mas longe da instituição. Muitas pessoas não querem mais pertencer a uma denominação. Um bom exemplo são os desigrejados. Também mudou a ideia do que é verdadeiro e falso. As pessoas se preocupam com o que funciona. Não querem saber se suas crenças e atitudes são certas ou erradas.

A religiosidade atualmente é subjetiva. Agora não se está preocupado com a verdade absoluta por que as pessoas querem saber o que é agradável para si mesmas. É a ideia do eu, do meu e do agora. As pessoas querem suas vontades realizadas, suas crenças vividas do jeito que entendem ser melhor. A consciência individual é matriz do religioso. A pessoa capta o que lhe interessa. A ênfase é concentrar em si.

Também existe a característica da espiritualidade tribal. As pessoas não se associam às instituições, mas às tribos. As reuniões são por afinidade, com uma espiritualidade emotiva, com uma religiosidade baseada no sentimento e não no conhecimento.

Egoísmo e individualismo também são marcas desse tempo, além do subjetivismo. Há uma rejeição da reflexão racional e o uso dos sentimentos e desejos como critério de validação das escolhas. As pessoas estão desprezando a reflexão racional e se deixando guiar pelas emoções.

O relativismo está em alta. Não existe mais verdade absoluta. Prega-se o pluralismo e a tolerância sem questionamento. Existe uma tendência para aceitar uma multiplicidade de pensamentos e práticas. Não se contradiz o pensamento dos outros, ainda que esse pensamento esteja biblicamente errado. Há uma total complacência para com os diferentes modos de pensar; todas as pessoas são aceitas, independente da orientação moral, recebendo voz e poder.

As pessoas querem espaço para a fala, interpretam princípios religiosos e bíblicos ao seu modo e não são ou não querem ser questionadas. A Bíblia é adequada ao discurso. As Sagradas Escrituras não estão servindo mais para transformar mentes, corações e comportamentos. A religiosidade é modelada à maneira de pensar de cada um.

Já no aspecto do pragmatismo, as pessoas querem o prazer aqui e agora. O que se pode obter no momento é mais importante do que os resultados a longo prazo. É a satisfação do momento em detrimento do futuro. É a ênfase no resultado.

Tempos atrás, ouvia-se pregação de um Evangelho que daria esperança para uma vida futura, que pregava a vinda de Jesus, que dizia que o cristão, mesmo sofrendo nesse mundo, tinha a esperança de uma vida gloriosa nos céus. Esse tipo de pregação foi trocada pela promessa de uma vida boa e confortável na vida mundana mesmo. Por que esperar para uma vida futura junto a Deus se é possível hoje viver prosperamente? Observa-se que o discurso religioso mudou a prática da religiosidade.

É importante pensar o mundo atual para entendermos o contexto no qual vivemos e para conhecermos as pessoas para as quais estamos comentando sobre o Evangelho. Podemos perceber as escolhas religiosas praticadas ao entendermos a cosmovisão.

O brasileiro vive a religiosidade de uma forma bem peculiar. É múltiplo nas formas de cultuar o sagrado. É sincrético. O Brasil mostra um campo muito fértil para a religião, mesmo com pessoas se dizendo decepcionadas com a instituição igreja. A forma das pessoas viverem a religiosidade na pós-modernidade tem características próprias. Deus, por exemplo, é self service. Assim Ele é visto e vivido.

As pessoas vivem a fé atualmente do jeito que entendem. Escolhem o que desejam, o que combina com as suas próprias ideias, o que convém. Dá para exemplificar fazendo uma comparação entre a religião e um buffet. A fé é vivida na pós-modernidade igual uma pessoa escolhe a comida no restaurante. Ou seja, de acordo com o gosto do cliente.

Uma pessoa vai a um restaurante self-service e escolhe colocar no prato arroz, feijão, bife, batata frita e salada. Escolhe pudim de sobremesa. Também quer suco de laranja. Pesa o prato e paga a conta. Da mesma maneira que age em um restaurante, as pessoas estão se comportando quando o assunto é religião e religiosidade. Passam no balcão de oferta da fé, escolhem o que desejam e usufruem.

Ou seja, vão à missa pela manhã, ao centro espírita tomar um passe, apelam para os búzios e tarôs, ouvem o pastor pregar na TV, leem livros espiritualistas, passam para fazer a caminhada pela espiral e se energizar com o cristal sagrado que serve para conectar o ser humano a Deus.

Outros escolhem se afastar dos templos tornando-se isolados na prática da fé. Vivem de participar de debates e assistir vídeos nas redes sociais, buscam as comunidades que endossam seu modo de interpretar a religiosidade, alimentam-se de mensagens postadas, dos programas de rádio e de televisão. Muitos dispensam compromisso com uma comunidade de fé. E assim seguem a vida.

Além do sincretismo religioso, existe também o questionamento de todos os tradicionais valores. Por que não acreditar somente no que entende como certo e melhor para a vida? Essa é a pergunta das pessoas. Por que aceitar a opinião dos outros que insistem em dizer que o comportamento e as ideias são contrárias à Bíblia, por exemplo? As pessoas querem viver a seu modo, do seu jeito, com suas escolhas. Egoísmo e individualismo explicam esse comportamento. Autonomia na fé também explica essa vivência sincrética e independente. As pessoas têm a visão de um Deus self-service onde cada um se serve da parte que lhe cai bem. Entendeu a comparação entre o comportamento da religiosidade pós-moderna com um restaurante?

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Denise Santana é jornalista, teóloga e professora. Tem mestrado em Teologia pela Escola Superior de Teologia, no Rio Grande do Sul. Pós-graduação em MBA Gestão da Comunicação nas Organizações pela Universidade Católica de Brasília. Bacharelado em Comunicação Social, Jornalismo, pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília. Licenciatura plena em História pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília. Bacharelado em Teologia pela Faculdade Evangélica de Brasília.

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