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Opinião

A verdadeira Marcha para Jesus

A Igreja não precisa do Estado para ser Igreja.

Maycson Rodrigues

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Marcha para Jesus. (Foto: Reprodução)
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Sei que fatalmente serei mal compreendido por muitos, mas tenho uma vocação profética e não posso me calar. Já passaram quase uma semana do acontecimento deste evento (“Marcha para Jesus”), porém eu toco neste tema sensível para muitos evangélicos brasileiros com a finalidade de glorificar a Deus por meio de uma reflexão autocrítica de quem vive a Igreja e ama Missões.

A questão não está na participação do Presidente Jair Bolsonaro ou na necessidade ou não de se haver uma caminhada em nome da fé evangélica. Eu creio que, num estado democrático de direito, a liberdade de expressão, de crença e o direito de ir e vir devem ser garantidos pelo poder público. Então, até uma Parada Gay tem o seu espaço de participação como movimento popular.

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O problema é quando – historicamente – o dinheiro do povo está no meio disso.

Verba pública tem de ser destinada à educação, saúde e principalmente segurança pública. Nada para eventos que podem ser financiados pela iniciativa privada. Ainda mais um evento como a “Marcha para Jesus”, que conta com o apoio de grandes líderes evangélicos como o Valdomiro Santiago, que todos sabemos ser um homem riquíssimo pela via da comercialização da fé.

O que de Jesus tem nessa marcha? Eu diria que praticamente nada. Talvez o que tenha é uma grande quantidade de irmãos sinceros no meio da multidão que foram ali para um manifesto legítimo pelo fim do preconceito religioso – pois todos nós sabemos que a classe evangélica é a classe mais estigmatizada pelos artistas, [pseudo] intelectuais, jornalistas, políticos e outros.

Fora isso, fica difícil justificar um gasto tão mal feito. E caso não tenha havido gasto público neste ano, ainda acho complicado justificar um gasto que poderia ser destinado à obra missionária para um evento que protagoniza políticos e líderes como o Apóstolo Estevam Hernandes.

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A Igreja não precisa do Estado para ser Igreja. Precisamos de um distanciamento mínimo para que ainda tenhamos voz profética na nação, pois o Presidente pode e deve ser criticado quando age fora da verdade ou da justiça.

A Igreja precisa cobrar como nenhuma outra Instituição que o poder público combata a fome e a miséria. Deve se colocar numa posição de conflito, a fim de que o Estado cumpra o seu papel de garantidor da liberdade e facilitador do desenvolvimento nacional. Não é o Governo que gera riqueza e sim o povo; logo, o cristão tem de estar sempre alerta para cobrar do Governo quando necessário e também apoiá-lo quando este demonstrar que está trabalhando em prol da população.

Um evento como a Marcha para Jesus – financiado com o dinheiro do trabalhador ou do fiel – é desnecessário porque este mesmo dinheiro poderia ser canalizado para quem de fato precisa receber em forma de serviços humanitários. Como um liberal na economia que sou, não concordarei nunca com o dinheiro público voltando para o povo em forma de entretenimento e showmício. Como um cristão que sou, jamais acharei válido investir-se tanto dinheiro em cachê de cantor gospel e no deslocamento e hospedagem desses líderes enquanto temos tantos irmãos pobres e desempregados. Leio Atos e leio as notícias da semana que passou e vejo que há um distanciamento do ideal de cristianismo no Brasil.

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Sei que muitos pensam diferente de mim (e eu respeito) só que a gente precisa refletir mais sobre o quão a Igreja tem salgado esta terra. Cresce o número de evangélicos no Brasil e a criminalidade só aumenta também. Temos a maior bancada evangélica da história da República e a corrupção não diminui. Temos um Presidente que se diz cristão e, em 100 dias, temos pouca perspectiva de mudanças profundas na economia e na redução da taxa de desemprego.

Caro leitor, quem apoiou Bolsonaro provou isso votando nele. Agora, o que devemos fazer é cobrar as melhorias e continuar orando e crendo que as coisas vão melhorar. No entanto, em paralelo a isso precisamos de uma Igreja que marche para Jesus no cuidado do pobre, na promoção da paz nas relações humanas, nas campanhas contra o aborto, suicídio e toda forma de violência etc.

A Igreja precisa marchar para Jesus na evangelização dos perdidos, na visita aos órfãos e viúvas e na solidariedade com os irmãos que estão passando necessidades. Já pensou num movimento de milhões de evangélicos lutando em oração pela conversão dos incrédulos? Ou milhares de cristãos que são empresários oferecendo vagas de emprego para os irmãos desempregados?

Não precisamos de atos públicos que não se enquadram às atividades missionárias sugeridas acima. Não precisamos nos aliar a nenhum político, nem mesmo temos de contar com nenhum centavo do dinheiro público para nada, pois o nosso Deus é quem comanda a Missão e nos provê todas as coisas.

Sou contra a marcha política que usa o nome de Jesus para tão somente se sujar neste jogo imundo que é a política brasileira. Sou a favor da uma marcha para Jesus que promova arrependimento e fé, que traga lágrimas e não festa porque temos ainda muitos jovens caindo nas mãos do tráfico ou das drogas, que de fato nos faça lamentar os pecados e buscar santidade e, sobretudo, que nos faça retornar às Escrituras e abandonar o altar para cantores gospel e falsos apóstolos que usam a fé para enriquecer e continuar controlando espiritual e emocionalmente os pequeninos de Deus.

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Que voltemos ao primeiro amor, à prática das primeiras obras e que Cristo seja o centro de tudo o que fazemos.

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Casado com Ana Talita, seminarista e colunista no site Gospel Prime. É pregador do evangelho, palestrante para família e casais, compositor, escritor, músico, serve no ministério dos adolescentes e dos homens da Betânia Igreja Batista (Sulacap - RJ) e no ministério paraeclesiástico chamado Entre Jovens. Em 2016, publicou um livro intitulado “Aos maridos: princípios do casamento para quem deseja ouvir”.