Siga-nos!

Opinião

A restituição é uma consequência, não uma exigência

Ninguém pode exigir nada de quem é Todo Soberano, mas apenas manter viva a maior expectativa nas Suas promessas e misericórdia.

José Brissos-Lino

em

Esdras e israelitas. (Foto: JW.org)

O Livro de Esdras relata que, no tempo determinado por Deus, o povo judeu há muito exilado na Babilónia foi autorizado e estimulado por Ciro, rei da Pérsia, a regressar a Jerusalém, a fim de “edificar a casa do Senhor” logo no início do seu reinado.

Ficou conhecido como o Segundo Templo e foi edificado sob orientação de Zorobabel. A construção iniciou-se pelo altar e os alicerces do edifício foram lançados em 535 a.C.

A vontade de Deus prevaleceu. Ele queria mesmo a restauração do templo e da cidade, sem qualquer dúvida. Deus tem prazer na nossa restauração espiritual e nisso põe todo o seu empenho.

Depois de restaurado o altar e o templo, faltava agora edificar de novo a cidade e os seus muros que haviam sido destruídos pelas tropas de Nabucodonosor.

Sempre que há restauração há restituição

Foi Ciro que, por sua iniciativa, deu ordens ao ministro das Finanças do império, Mitredate, para recolher todos os utensílios que em tempos Nabucodonosor tinha tirado do templo de Salomão como despojos e trazido para os templos dos deuses babilónicos.

Esta decisão de Ciro deve-se ao facto de o Deus de Israel lhe ter falado ao coração: “Também o rei Ciro tirou os utensílios da casa do Senhor, que Nabucodonosor tinha trazido de Jerusalém, e que tinha posto na casa de seus deuses” (Esdras 1:7).

E note-se que não era coisa pouca: “(…) trinta travessas de ouro, mil travessas de prata, vinte e nove facas, trinta bacias de ouro, mais outras quatrocentas e dez bacias de prata, e mil outros utensílios. Todos os utensílios de ouro e de prata foram cinco mil e quatrocentos; todos estes levou Sesbazar, quando os do cativeiro subiram de babilônia para Jerusalém” (Esdras 1:9-11). Um autêntico tesouro que deixava mais pobre o império persa.

De facto nem Zorobabel nem qualquer outro líder judaico foi exigir ao palácio do imperador a restituição das alfaias religiosas anteriormente roubadas, nem os judeus oraram a Deus a exigir restituição.

Simplesmente aconteceu de modo (sobre)natural. Isto é, quando o Senhor “despertou o espírito de Ciro” (Esdras 1:1) e o “encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém” (1:2), enviando dinheiro, materiais e uma escolta militar, não se esqueceu de incluir a devolução dos utensílios da Sua casa.

O princípio da exigência, hoje muito em voga em certos círculos religiosos, aparenta um elevado nível de espiritualidade mas não passa de uma atitude carnal ou equivocada. Ninguém pode exigir nada de quem é Todo Soberano, mas apenas manter viva a maior expectativa nas Suas promessas e misericórdia. Deste modo, a restituição não pode ser uma exigência mas sim uma consequência da fé, e ainda assim condicionada por uma atitude de arrependimento genuíno do crente. 

Não há crescimento espiritual sem oposição

Bislão e companheiros queixaram-se ao rei da Pérsia, Artaxerxes:“No reinado de Assuero, no princípio do seu reinado, escreveram uma acusação contra os habitantes de Judá e de Jerusalém” (4:6). Acusaram os restauradores de que, uma vez edificada a cidade, os habitantes de Judá não pretendiam pagar “os direitos, os tributos e os pedágios”, de forma a prejudicar o tesouro imperial (4:13).

Mostraram-se preocupados com “a desonra do rei” (14) e por isso o alertavam. Pediram que Artaxerxes verificasse o histórico de Judá, como tinha sido “uma cidade rebelde, e danosa aos reis e províncias, e que nela houve rebelião em tempos antigos, por isso foi aquela cidade destruída” (4.15).

No nosso processo de construção espiritual temos que aprender a lidar com a acusação, a murmuração, a calúnia e a intriga. Perante tais acusações e intrigas Artaxerxes mandou suspender a reconstrução de Jerusalém: “Agora, pois, dai ordem para impedirdes aqueles homens, a fim de que não se edifique aquela cidade, até que eu dê uma ordem” (4:21), e fê-lo com alguma violência (4:23). Os poderes deste mundo tentarão parar a nossa “construção” de qualquer maneira. 

Entretanto, passaram-se dezasseis anos durante os quais a reconstrução do templo foi interrompida, enquanto os judeus construíam as suas casas particulares, até que Ageu e Zacarias os encorajam e exortaram a retomar a tarefa. 

O templo onde Deus habita hoje não é de pedra, mas humano. Todos estamos a construir (ou a reconstruir) o nosso templo. Comecemos pelo altar e os sacrifícios, lancemos os alicerces do arrependimento, da adoração e enfrentemos os nossos inimigos.

Sabemos que a obra espiritual nunca prossegue sem oposição. Temos que ser firmes e não desistir, tendo sempre presente que Deus restituirá no momento certo aquilo que nos pertence.

Nasceu em Lisboa (1954), é casado, tem dois filhos e um neto. Doutorado em Psicologia, Especialista em Ética e em Ciência das Religiões, é director do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, em Lisboa, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e investigador.

Publicidade