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Estudos Bíblicos

A rebelião de Absalão

Nenhum rebelde ficará sem punição!

Tiago Rosas

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Absalão. (Foto: Reprodução / Record TV)

Dando sequência ao nosso estudo dominical sobre O governo divino em mãos humanas, baseado nos livros de Samuel, hoje chegamos aos capítulos 14 a 18 de 2Samuel, que tratam das tramas de Absalão para usurpar o trono de seu pai Davi, bem como as consequências de seus atos que culminaram em sua morte horrenda.

Com a Bíblia em mãos, passemos a meditar nesse assunto, bem como perceber as aplicações práticas que podemos fazer em nossos dias, especialmente no que concerne à autoridade paternal e à disciplina dos filhos.

I. O homem Absalão

1. Descrição

Absalão era o terceiro filho de Davi (2Sm 3.3) e irmão de Tamar (2Sm 13.4), que foi estuprada pelo meio-irmão Amnom, o primogênito de Davi. Ao saber deste fato, o rei muito se irou, porém, nada fez em resposta ao perverso filho Amnom. Talvez a negligência de Davi tenha estimulado ainda mais o ódio no coração de Absalão.

Dois anos passados, Absalão buscou vingança pela sua irmã, e temos, então, no capítulo 13 do segundo livro de Samuel o primeiro registro da conduta sagaz deste moço, ao tramar um banquete para o qual convidou todos os filhos de Davi com o disfarçado intuito de matar Amnom (vv. 28,29). Tamanho apego tinha Absalão por sua irmã que chegou a dar o nome de Tamar para uma filha (2Sm 14.27). Tanto a Tamar irmã como a Tamar filha eram formosas de aparência (13.1; 14.27).

A beleza da filha Tamar assemelhava-se a de seu pai, já que “não havia em todo o Israel homem tão belo e tão aprazível como Absalão; desde a planta do pé até à cabeça, não havia nele defeito algum” (14.25). O texto bíblico ainda acrescenta que Absalão tinha cabelos longos, de tal modo volumosos que, quando cortados, chegavam a pesar algo em torno de um quilo e meio a dois quilos (v. 26).

Absalão fora ainda aquele filho de Davi que deitou-se publicamente com as concubinas de seu pai, à luz do dia, causando terrível escândalo em Israel. Absalão tinha mesmo a intenção de se fazer odioso para com seu pai (16.20-22).

2. Em que consistia a revolta de Absalão

A negligência de Davi no caso em que Tamar foi violentada por Amnom certamente despertou um sentimento de revolta no coração de Absalão. Somou-se a isso certamente o fato de Davi ter, após insistente apelo de seu comandante Joabe, trazido Absalão, que até então era fugitivo, de Gesur para Jerusalém, mas não ter lhe permitido ver o rei durante longos dois anos (14.23,28). Absalão deve ter se questionado: se meu pai já se consolou da morte de Amnon e estava mesmo com saudades de mim, por que não me permite vê-lo?

Até mesmo o comandante Joabe se viu vítima de Absalão, quando este mandou incendiar um campo de cevada pertencente a Joabe, visto que ele renegara por duas vezes atender ao chamado do filho do rei (14.29-30). Novamente vemos a sagacidade de Absalão, já que sua intenção não era exatamente causar prejuízos ao comandante, mas chamar-lhe a atenção. Somente após esse fato é que Absalão foi levado à presença do rei, seu pai, diante de quem se inclinou e de quem recebeu um beijo. Apenas metade de um versículo foi usada para falar desse reencontro (14.33), o que leva-nos a pensar quão fria foi a expressão de sentimentos tanto do pai como do filho.

O fato é que o coração de Absalão jamais foi tratado e curado da ira e insubmissão, e, como os capítulos 15 a 19 vão nos comprovar, a rebeldia outrora enraizada no coração desse jovem desenvolveu-se como uma árvore cheia de frutos perversos. Essa árvore ramificou muito porque nunca foi podada por quem tinha autoridade e dever de fazê-lo: o rei Davi e pai de Absalão! Amnom, Absalão, Adonias… todos estes foram filhos mimados de Davi; a falta de disciplina paterna corroborou para a degradação moral dos filhos e os amargos prejuízos que o pai viera a sofrer. A nós pais exortam as Escrituras: “Castiga o teu filho, e te dará descanso; e dará delícias à tua alma” (Pv 29.17). Davi, porém, ignorou esta mensagem.

Indiscutivelmente, a tudo isso somava-se o fato de que pesava sobre Davi e seu reino a predição de Natã: “não se apartará a espada jamais da tua casa” (12.10). Não é raro que os erros dos pais reflitam nas atitudes de seus filhos. Absalão fora uma espécie de equalização dos piores erros de Davi! O rei estava a colher a desgraça que ele próprio semeou no fatídico caso do adultério com a mulher de Urias e o assassinato deste.

II. A revolta de Absalão

A leitura do décimo quinto capítulo de 2Samuel é imprescindível para que vejamos o mau caráter de Absalão, que chegou a usurpar o trono de seu próprio pai Davi.

1. A fraqueza do reinado de Davi

É quase incrível ver como Davi se apequenou em seu reino diante de seus próprios filhos, em especial diante de Absalão. Aquele Davi que sem o reino havia enfrentado urso, leão e gigantes, agora, com o reino, sequer ousa enfrentar o próprio filho rebelde e dar a ele o devido castigo por sua insubmissão e tentativa de golpe.

O texto de 2Samuel 15.13,14 é revelador quanto ao medo e fraqueza que tomou o coração do rei:

“Então veio um mensageiro a Davi, dizendo: O coração de cada um em Israel segue a Absalão. Disse, pois, Davi a todos os seus servos que estavam com ele em Jerusalém: Levantai-vos, e fujamos, porque não poderíamos escapar diante de Absalão. Dai-vos pressa a caminhar, para que porventura não se apresse ele, e nos alcance, e lance sobre nós algum mal, e fira a cidade a fio de espada”

Quanto a tudo isso é muito pertinente a nota constante na Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal:

Davi fez apenas esforços modestos para corrigir seus filhos. Não castigou Amnom por seu pecado contra Tamar, nem adotou uma atitude decisiva contra Absalão, por ter assassinado seu irmão. Essa indecisão provocou a ruína do rei. Ignorar o pecado acarreta um sofrimento ainda maior do que aquele que teríamos se o tivéssemos tratado imediatamente.

Meditemos bem nesta última parte: Ignorar o pecado acarreta um sofrimento ainda maior do que aquele que teríamos se o tivéssemos tratado imediatamente. Tratar o erro pode ser doloroso, mas mais doloroso será não trata-lo e vê-lo causar destruição final! Quem ama, corrige! “Porque o Senhor repreende aquele a quem ama, assim como o pai ao filho a quem quer bem” (Pv 3.12; conf. Ap 3.19).

2. O Absalão político

Absalão bem se comportou como um político do século XXI: enganador, bajulador e interesseiro! Ainda que nem todos os atuais políticos tenham esse caráter, ninguém poderá negar que são as marcas que predominam, ao menos na política brasileira!

Comentando o décimo quinto capítulo de 2Samuel, Charles Ryre diz: “A fim de cair nas graças do povo, Absalão tomava partido dos queixosos sem fazer nenhuma investigação; em seguida, oferecia-se como o melhor juiz para as suas causas”[1]. William Macdonal comenta que Absalão, à porta da cidade de Jerusalém, “praticamente acusou o pai de não prover auxílio legal adequado para seus súditos e afirmou que, se fosse rei, receberiam a justiça que mereciam”.[2]

Ambicionando o trono, Absalão logo forjou uma postura populista, demonstrando falso interesse pelas necessidades do povo (15.2) e distribuindo abraços e beijos a todo mundo que vinha a ele (15.5). E não fazia caso de esconder sua pretensão, ainda que fosse dissimulado: “Ah! Quem me dera ser juiz na terra, para que viesse a mim todo homem que tivesse demanda ou questão, para que lhe fizesse justiça”.

Apesar do clima de conspiração, chega a ser inusitado ver como Absalão é um arquétipo (modelo perfeito) dos falsos políticos da atualidade! Populista, adulador e cheio de promessas com soluções pragmáticas; tudo isso, porém, escondia as reais intenções de seu coração: tomar o lugar de seu pai Davi ou, na melhor das hipóteses, dividir o reino.

Mas não é só na política que se vê esse mau-caratismo travestido de uma postura carismática e lisonjeira; na igreja também se notam os bajuladores e interesseiros, valendo-se de todas as ferramentas para fazer seu nome, difamar autoridades, e granjear posições para as quais não foram chamados. “Se eu fosse pastor dessa igreja… Se eu fosse líder daquele departamento… Se eu fosse professor daquela classe… Se eu… eu… eu…” – é a ladainha dos encrenqueiros de plantão em muitas igrejas!

Tais usurpadores não têm coragem para fazer suas críticas na face dos pastores ou líderes que eles reprovam, antes ficam como Absalão “à entrada da porta” das igrejas, falando mal das autoridades eclesiásticas, promovendo insatisfação coletiva, inflamando corações alheios e sorrateiramente exaltando seus próprios nomes como soluções para todos os problemas da igreja. Mas, como disse Paulo, “Não irão, porém, avante; porque a todos será manifesto o seu desvario…” (2Tm 3.9).

3. Proclamando-se rei

Ao final de quatro anos (e não de quarenta, como diz a versão Almeida Corrigida)[3], após seu retorno de Gesur para Jerusalém, Absalão pede ao rei para ir a Hebrom, sua cidade Natal, sob a alegação de que iria ali cumprir um voto que tinha feito ao Senhor (2Sm 15.7). Mentia!

Absalão usou a religiosidade como uma falsa desculpa para sua trama: proclamar-se rei em Hebrom. Como bem anotou Jimmy Swaggart, o Senhor era o assunto mais distante da mente de Absalão[4], porém, conhecendo a piedade de seu pai Davi, Absalão julgou que facilmente o enganaria se apelasse para a religião. Novamente vemos em Absalão um arquétipo para muitos políticos da atualidade, que fazem falsa profissão de fé e até aceitam passar pelas águas batismais, não por uma profunda convicção de pecado e arrependimento, mas tão somente como um caminho fácil para a ascensão política com o apoio dos cristãos, num país extremamente religioso (ainda que superficial), como o nosso.

Mas novamente ressalto: essa é também uma realidade de muitas igrejas, com falsos crentes ostentando uma religiosidade vazia, desprovida dos “frutos dignos de arrependimento” (Mt 3.8), visando apenas a ascensão eclesiástica e ministerial, com os possíveis ganhos que daí advenham. Como disse Paulo, os tais julgam que a piedade seja causa de ganho (1Tm 6.5); eles apenas têm “aparência de piedade”, mas não vivem genuinamente segundo a religião cristã (2Tm 3.5).

Acompanhado de duzentos ingênuos convidados e de uma grande multidão de gente que tomava partido ao seu lado, Absalão foi a Hebrom a partir de onde enviou “emissários secretos por todas as tribos de Israel, dizendo: quando ouvirdes o som das trombetas, direis: Absalão é rei em Hebrom!” (2Sm 15.10). Tal conspiração assustou Davi e o pôs em fuga. Finalmente Absalão entrou em Jerusalém, capital do reino de Israel (15.37).

4. A lealdade dos servos de Davi

O texto bíblico é ainda enfático ao dizer que, tomando conhecimento da trama de Absalão para usurpar o trono, Davi fugiu a pé de Jerusalém junto com seus ministros e uma grande multidão de soldados fiéis, além do próprio povo que o seguia. Por três vezes se diz: “a pé” (15.16,17,18) e mais: “pés descalços” (v. 30). Davi sequer montou cavalaria real! Além do que ele chorava muito, inspirando igual pesar no coração do povo que o seguia, que também chorava “sem cessar”.

É impossível não nos perguntarmos: por que Davi não evitou tal humilhação pública e pranto? Por que não preferiu ele repreender e até anular os planos do rebelde filho Absalão, nem que para isso precisasse usar a força militar? Por que Davi preferiu fugir chorando, como que pranteando sua própria desventura como pai e como rei?

Davi tinha a Deus, que o perdoou, do seu lado, tinha um exército (que contava até com muitos soldados estrangeiros, os mais valentes, como o geteu Itai!), tinha os sacerdotes e levitas, além do próprio povo. Parece que Davi só não tinha a si mesmo! Faltaram-lhe a coragem e ousadia que tão comuns foram a ele durante sua juventude. Como fugira outrora do maligno Saul para evitar um confronto direto, agora passa a fugir também de Absalão; todavia, antes fugira como um súdito apaziguador, agora foge como um pai omisso e como um rei enfraquecido.

III. A morte de Absalão

O final do capítulo 17 e todo o capítulo 18 são de leitura obrigatória para a compreensão do contexto em que se deu a morte de Absalão.

1. Coração de pai

Diante do inevitável conflito entre as forças militares leais a Davi e os golpistas que acompanhavam o autoproclamado rei Absalão, Davi quis ir à guerra, mas foi impedido pelos seus soldados. O que tencionava Davi senão garantir ele mesmo que Absalão fosse protegido em meio ao conflito? Como se pode ver em sua insistente recomendação paternal, o rei queria que seu filho fosse tratado com brandura (2Sm 18.5).

É verdade que todo pai quer o melhor para seus filhos, e não deseja que nenhum deles, mesmo que em flagrante rebeldia, seja maltratado. Aliás, a própria Palavra exorta aos pais que não provoquem seus filhos à ira (Ef 6.4), para que não percam o ânimo (Cl 3.21).

Todavia, o amor paternal não pode anular a autoridade paternal e cegar os pais a tal ponto que não lhes permitam discernir a gravidade das ações de seus filhos. Estava mais do que evidente que a intenção de Absalão era tomar o trono, envergonhar seu pai, fazer-se odioso para ele e destruí-lo! Se havia algum amor genuíno no coração de Davi, ele não podia contar com a reciprocidade de seu filho.

Em face dessa ameaça real, e levando em conta que a própria Lei ordenava morte ao filho rebelde (Dt 21.18-21), Davi deveria ter se demonstrando mais firme e menos emotivo. Especialmente da figura paterna espera-se mais essa firmeza na palavra e postura para com os filhos.

2. O preço da rebelião de Absalão

No bosque de Efraim, a batalha sangrenta envolvendo as forças de Davi contra as forças de Absalão resultou na morte de 20 mil pessoas. Quantas vidas Davi podia ter poupado se tão somente tivesse disciplinado seu filho nas primeiras demonstrações de rebeldia!

Tentando esquivar-se dos adversários, Absalão, que estava montado num jumento, acabou ficando preso pelos seus longos cabelos aos ramos de um grande carvalho. Que ironia: a própria vaidade de Absalão o prendeu a árvore onde ele seria liquidado por Joabe, que ignorou os apelos de Davi para que tratasse seu filho com brandura, e traspassou Absalão com três dardos. Dez outros jovens terminaram de por fim à vida de Absalão ali mesmo (2Sm 18.9-15).

Cedo ou tarde Absalão amargaria esta sentença, pois o filho rebelde não pode prosperar. Quando os homens não fazem justiça, Deus mesmo o faz, nem que se instrumentalize da natureza para executar seus juízos contra o rebelde contumaz! Nas palavras do apóstolo Paulo, o salário do pecado é a morte (Rm 6.23). Absalão trabalhou no engano, na ira, na discórdia, na rebelião e na violência; agora receberia a paga de seu trabalho.

Faltaram a Absalão a verdadeira devoção a Deus, o respeito ao pai, a submissão à autoridade e o discernimento para as amizades. Não levou em conta esta verdade: “Meu filho, tema o Senhor e o rei; não se meta com os revoltosos, porque de repente serão destruídos, e a ruína que virá do Senhor e do rei, quem a conhecerá?” (Pv 24.21,22).

Conclusão

Já vimos no início deste trimestre, quando estudávamos a rebelião de Saul, que a rebelião é como pecado de feitiçaria. Deus que puniu Saul por sua rebelião contra o profeta Samuel, não deixaria de punir Absalão por sua rebelião contra o rei Davi, seu pai. Ainda que a má conduta de Davi no caso de Urias tenha contribuído para as desavenças em sua família, sobre o próprio Absalão repousou a culpa de sua dissidência.

Creio que esta é a séria mensagem desta Lição: nenhum rebelde ficará sem punição, mesmo que filhos de grandes lideranças políticas ou eclesiásticas! Como está escrito: “Deus é um juiz justo, um Deus que manifesta cada dia o seu furor. Se o homem não se arrepende, Deus afia a sua espada, arma o seu arco e o aponta, prepara as suas armas mortais e faz de suas setas flechas flamejantes. Quem gera a maldade, concebe sofrimento e dá à luz a desilusão (Sl 7.11-14).

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Referências

[1] Charles Ryre. Bíblia de Estudo Anotada Expandida. 2Samuel 15.3-4, nota de rodapé.

[2] William MacDonald. Comentário Bíblico Popular – Antigo Testamento, Mundo Cristão, p. 229

[3] 2Sm 15.7: quarenta anos (ARC); quatro anos (ARA). De acordo com a versão siríaca, a Septuaginta e, segundo registro de Flávio Josefo, é preferível crer que o pedido de Absalão para ir a Hebrom se deu QUATRO ANOS depois de seu retorno de Gesur, e não quarenta anos depois. Como bem notou o comentarista William MacDonald, “Uma vez que o reinado todo de Davi durou quarenta anos, a tradução tradicional aqui (‘quarenta’) consiste, sem dúvida, num erro de copista. Nos manuscritos hebraicos, os números são particularmente difíceis de serem copiados com perfeição”. Ressalte-se que a maioria das traduções em português tem preferido traduzir “quatro anos” (ARA, NAA, NVI, NVT, etc.). E o próprio comentarista da Lição, pastor Osiel Gomes, trabalha com essa posição, pois no ponto 2 do tópico II ele diz que Absalão “trabalhou incansavelmente durante quatro anos para pôr seu plano em prática”.

[4] Jimmy Swaggart. Bíblia de Estudo do Expositor, SBB, comentário em 2Sm 15.7.

Casado, bacharel em teologia (Livre), evangelista da igreja Assembleia de Deus em Campina Grande-PB, administrador da página EBD Inteligente no Facebook e autor de quatro livros.

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