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Estudos Bíblicos

A rebeldia de Saul e a rejeição de Deus

Subsídio para a Escola Bíblica Dominical da Lição 6 do trimestre sobre “O Governo Divino em Mãos Humanas – Liderança do Povo de Deus em 1º e 2º Samuel”.

Tiago Rosas

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Rei Saul. (Foto: Reprodução / Record TV)

II. A rebeldia de Saul

1. Não cumpria com a ordem divina

O declínio de Saul não demorou acontecer. Conforme registro do décimo terceiro capítulo de 1Samuel, o seu primeiro ato de desobediência ocorreu ainda no segundo ano de seu governo (v. 1), quando Saul não aguardou os sete dias ordenados pelo profeta Samuel, que viria até ele em Gilgal para oferecer sacrifícios a Deus antes da batalha contra os filisteus, além de dar ao rei conselhos e direções sobre a guerra (conf. 1Sm 10.8).

Saul, porém, parece não ter aprendido com sua primeira derrota pessoal e, mais à frente, comete outro ato de desobediência, quando no décimo quinto capítulo de 1Samuel, tendo recebido ordens para aniquilar totalmente os amalequitas (incluindo pessoas e animais), o monarca cumpre apenas parte da ordem, poupando ao rei Agague (talvez, como Payne pondera, visando alguma vantagem política, financeira e diplomática com outros grupos amalequitas[4]) e ainda permitindo ao povo poupar “o melhor das ovelhas e dos bois, os animais gordos, os cordeiros e tudo o mais que era de bom” (1Sm 15.9), sob o falso pretexto de “sacrificar ao SENHOR, o seu Deus” (v. 15).

É preciso lembrar aqui o que já dissemos em Lições passadas: Samuel, mais que conselheiro pessoal do rei Saul, era na verdade um profeta de Deus, isto é, um navi, termo em hebraico que geralmente é traduzido por porta-voz. Visto que portava a voz de Deus, isto é, falava o que Deus lhe dizia, as palavras de Samuel eram de igual valor à Lei de Moisés; tanto esta como aquelas eram tidas por “mandamento do Senhor” (1Sm 13.13) e “palavra do Senhor” (15.23,26). Desobedecer ao profeta de Deus era, portanto, desobedecer ao mandamento do Senhor!

O primeiro mandamento para Saul fora sobre paciência nas coisas de Deus; ele falhou. O segundo mandamento fora sobre zelo pela santidade de Deus (já que a aniquilação dos amalequitas representava um cuidado de Deus com o povo de Israel, para que este não viesse a se contaminar com os hediondos pecados daquele povo ímpio); nesse mandamento o monarca também falhou.

E não adiantaria Saul tentar justificar que sua “meia obediência” ao segundo mandamento devia-se ao fato do povo ter pego, como que à revelia, do despojo ovelhas e bois destinados à destruição para oferecer ao Senhor (15.21). Querer transferir a culpa para o povo só demonstrava o fracasso da liderança de Saul; e querer transformar o que estava destinado à destruição por mandamento divino em sacrifício religioso por deliberação humana era grave demonstração de insubmissão. Se de fato o povo queria sacrificar, então não passava de “sacrifícios de tolos”! (Ec 5.1).

Quem realmente quer honrar a Deus, deve fazer o que Ele manda, do jeito que Ele manda! A meia obediência é na verdade desobediência! Jesus é muito claro quando se dirige aos seus discípulos: “Vocês serão meus amigos, se fizerem o que eu lhes ordeno” (Jo 15.14). O conselho de Maria aos serviçais da casa, em Caná da Galiléia, é muito oportuno para todos nós: “Façam tudo o que ele lhes mandar” (Jo 2.5). Faça tudo o que Jesus lhe mandar! Tudo!

2. Deus “se arrependeu” em relação a Saul

Aqui temos uma aparente contradição no texto bíblico. Examinemos.

Em 1Samuel 15.29, quando repreende Saul pela desobediência no episódio da batalha contra os amalequitas, o profeta Samuel declara: “E também aquele que é a Força de Israel não mente nem se arrepende; porquanto não é um homem para que se arrependa

Porém, logo mais adiante, no versículo 35, quando o autor bíblico descreve o lamento do próprio Senhor pela reiterada desobediência do primeiro rei de Israel, o texto bíblico assim afirma: “…E o Senhor se arrependeu de haver posto a Saul rei sobre Israel”. Como explicar essa aparente contradição? Tomemos a explicação do comentarista William MacDonald, que diz:

“O primeiro [versículo] diz que Deus não muda de ideia nem se arrepende, enquanto o segundo diz que ele se arrependeu de haver constituído Saul rei. O versículo 29 descreve Deus em seu caráter essencial. Ele é imutável e inalterável. No versículo 35, a mudança na conduta de Saul exigiu uma mudança correspondente nos planos e propósitos de Deus para ele. Para se manter coerente com seus atributos, o Senhor deve abençoar a obediência e castigar a desobediência” [5].

Noutras palavras, Deus em seu caráter é imutável (“Eu, o Senhor, não mudo” – Ml 3.6); para sempre é e será Deus, santo, justo, verdadeiro… Porém, os planos e as direções de Deus para nós mudam, conforme a resposta que lhe damos. Foi o que aconteceu em relação à Saul: Deus se arrependeu, isto é, lamentou (o que demonstra tristeza) de tê-lo feito rei, mas não se arrependeria (não declinaria da decisão) de substitui-lo por outro rei melhor, como já havia predito (13.14).

3. A rebelião é como pecado de feitiçaria

Ao repreender Saul pela segunda vez, o profeta Samuel ainda explica a gravidade do pecado do rei: “Porque a rebelião é como o pecado da feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e o culto a ídolos do lar” (1Sm 15.23; NAA). O leitor pode se perguntar: mas o que isso quer dizer? Por que a comparação entre rebelião e feitiçaria, obstinação e idolatria? A explicação é simples e lógica.

Embora não esteja dito nada sobre as práticas pagãs dos amalequitas, é possível inferir por um estudo contextual daqueles antigos povos orientais, especialmente os que habitavam na região da antiga Canaã, que os amalequitas também eram praticantes de toda sorte de idolatria e feitiçaria (conf. Dt 18.9-12), além de serem um povo historicamente hostil aos hebreus (como se vê desde a saída do povo do Egito – Êx 17.8-14). Quando Deus ordenava a aniquilação de um povo, não permitindo que fossem poupadas sequer mulheres e crianças, nem mesmo animais, é porque este povo já havia chegado ao limite da tolerância divina no que concerne as suas práticas de violência, imoralidade e idolatria.

Pois bem, ao recusar cumprir cabalmente a ordem dada por Deus através de Samuel, Saul, um rei hebreu, estava se fazendo tão reprovável diante de Deus quanto o povo amalequita, praticante da idolatria e da feitiçaria. Se ele achava que podia se orgulhar de haver cumprido parte da missão, agora é em verdade repreendido por se fazer igual aos que ele deveria aniquilar. Noutras palavras, Samuel estava dizendo: Saul, tu és como um dos amalequitas; te fizestes para Deus tão abominável quanto eles!

É bom que sempre lembremos disso: se vivermos em desobediência diante de Deus, nossa capa de religiosidade não será suficiente para colocar-nos sob vantagem em relação aos idólatras e bruxos lá fora! Iguala-se aos adoradores de demônios todos os que professam serem crentes, mas vivem em rebeldia contra os mandamentos do Senhor.

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Casado, bacharel em teologia (Livre), evangelista da igreja Assembleia de Deus em Campina Grande-PB, administrador da página EBD Inteligente no Facebook e autor de dois livros: A Mensagem da cruz: o amor que nos redimiu da ira (2016) e Biblifique-se: formando uma geração da Palavra (2018).

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