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Estudos Bíblicos

A porta aberta

Deus abriu uma porta à nossa frente. Se não a fecharmos, se Lhe obedecermos e não negarmos o Seu Nome, passaremos por ela. E ninguém nos pode impedir.

José Brissos-Lino

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Porta aberta. (Photo by Victoriano Izquierdo on Unsplash)

A primeira parte da mensagem constante da visão de João Evangelista na ilha de Patmos, decorrente daquela gloriosa epifania, é inteiramente dedicada às igrejas, as chamadas Cartas às sete igrejas da Ásia Menor (actual Turquia). Nelas Jesus Cristo glorificado faz apreciações específicas, louvando, exortando, confrontando os respectivos responsáveis espirituais de cada uma dessas comunidades. O texto de Apocalipse 3:7-8 menciona uma “porta aberta” que muito nos inspira.

Por vezes parece que só encontramos muros à nossa frente, dificuldades inultrapassáveis, que quase nos levam a desistir. Mas a verdade é que Deus já providenciou uma saída, já nos abriu uma porta. A visão de João é inspiradora e chama-nos a atenção para algumas verdades espirituais preciosas.

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Desde logo podemos contar com uma garantia. É que a porta que Jesus abriu à Igreja permanece aberta, está à nossa frente e ninguém a pode fechar. Ninguém. Nem quaisquer outras pessoas, amigos ou inimigos, independentemente do seu poder ou capacidade de controlo. Nem sequer as forças do mal o poderão fazer. A garantia é dada por Jesus: “Isto diz o que é santo, o que é verdadeiro, o que tem a chave de Davi; o que abre, e ninguém fecha; e fecha, e ninguém abre” (Apocalipse 3:7).

Já Paulo perguntava aos cristãos de Roma, em jeito de retórica: “Quem nos separará do amor de Cristo?” (Romanos 8:35). E acrescentava várias hipóteses: “A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada?” De facto nada nem ninguém nos pode separar do amor de Deus, que João Evangelista tão bem expressou como sendo a Sua essência (“Deus é amor” – I João 4:8). Todavia há uma única pessoa que pode fechar a porta que Deus abre – a própria pessoa. Só eu posso fechar a porta que Deus me abriu.

O facto é que Jesus está atento às obras da Sua Igreja: “Conheço as tuas obras” (8a). Embora saibamos que as boas obras não operam a salvação (“Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” – Tito 3:5), também sabemos que todo aquele que é nascido de novo tem que dar fruto, como evidência visível da sua condição espiritual: “Bem vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada” (Tiago 2:22). Logo, as boas obras são uma evidência e consequência da fé e não um meio de “comprar” a salvação da alma.

O Mestre procurou desmistificar o assunto da fé. Não se trata duma questão de tamanho mas de usar a que temos: “E Jesus lhes disse: Por causa de vossa incredulidade; porque em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e há de passar; e nada vos será impossível” (Mateus 17:20). Aliás, Jesus conhece a (pouca) fé que temos: “… tendo pouca força” (8). De facto não há supercrentes… Muitas vezes vemos um espectáculo de pretensiosismo e orgulho espiritual, que em nada edifica o reino de Deus nem a humildade cristã, que é o legítimo apanágio dos verdadeiros discípulos de Cristo. Ele sempre se colocou ao lado dos humildes de coração e nunca dos soberbos.

Mas afinal o que importa mais na vida cristã? Se não é uma medida apreciável de fé, será o quê? Jesus valoriza essencialmente duas coisas. A primeira delas é obedecer à Sua Palavra. Jesus reconheceu que os crentes da comunidade cristã de Filadélfia haviam persistido na Palavra: “guardaste a minha palavra” (8). Apesar da pouca força (fé) eles haviam guardado a instrução espiritual apostólica que tinham recebido. De facto o importante não é saber muito, mas viver de acordo com a revelação que se recebeu. Quantos conhecem tanto da Palavra e praticam tão pouco?

A segunda coisa é não negar o nome de Jesus: “não negaste o meu nome” (8). Note-se que o acto de negar a fé no Salvador não significa necessariamente uma verbalização. Cada vez que agimos em desacordo com a revelação recebida estamos a negar o nome de Jesus. O essencial não são as palavras mas a vida. A questão não são as proclamações de fé mas o estilo de vida. Quantos não berram proclamações de fé atrás dum púlpito mas negam a sua evidência na vida quotidiana: “Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te” (2 Timóteo 3:5).

Deus abriu uma porta à nossa frente. Se não a fecharmos, se Lhe obedecermos e não negarmos o Seu Nome, passaremos por ela. E ninguém nos pode impedir.

É significativo que mais adiante João menciona de novo uma porta aberta, desta vez na eternidade: “Depois destas coisas, olhei, e eis que estava uma porta aberta no céu; e a primeira voz, que como de trombeta ouvira falar comigo, disse: Sobe aqui, e mostrar-te-ei as coisas que depois destas devem acontecer” (4:1).

Senhor, ajuda-nos a ver a porta que abriste diante de nós e a passar por ela.

Nasceu em Lisboa (1954), é casado, tem dois filhos e um neto. Doutorado em Psicologia, Especialista em Ética e em Ciência das Religiões, é director do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, em Lisboa, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e investigador.

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