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Opinião

A linguagem do sagrado

Uma abordagem missiológica III

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Acharam o corpinho da criança de uns quatro anos de idade boiando no rio e agora a estavam enterrando no centro da aldeia, porque ela era a filha do cacique. Haviam feito um buraco vertical e circular de quase dois metros de profundidade. Mas, no fundo do buraco, havia uma câmara horizontal cavada para receber o corpo da criança.

Quando se olhava de fora do buraco, via-se a barriguinha pintada com desenhos, além de outros enfeites como a borduna e o arco e flecha. Os parentes cantavam, as mulheres choravam. E o luto tomava conta de todos.

Um a um, os parentes mais próximos desciam no buraco para tocar o corpo da criança ainda uma última vez, todavia, naquele momento, recebiam um choque elétrico e era preciso que outros indígenas mais fortes os tirassem de dentro do buraco.

Eles saíam convulsionando seus corpos e isso se repetiu por horas naquela madrugada até que jogaram areia e tamparam o buraco, colocando sobre o túmulo uma panelinha com caldo de mandioca. Outra pessoa mostrou para mim que havia cortado um pedaço de cabelo e um pedaço do dedo da criança.

O missionário transcultural é preparado por anos para fazer algumas perguntas diante de uma manifestação do sagado como a descrita acima, por exemplo: Quais as ideias por trás dessas cenas? O que elas significam para os participantes? Quem fez o quê em cada momento desse evento? Por que nem todos são enterrados no centro da aldeia? Para quê cortaram um pedaço de cabelo e dedo da criancinha falecida?

Tenho convivido há quase 20 anos com missionários transculturais que são excepcionais no discernimento e interpretação de outras culturas. Todavia, muitos desses missionários perdem a sensibilidade de analisar a manifestação do sagrado em sua própria cultura.

Mesmo em nossa sociedade é preciso que venhamos a discernir a linguagem do sagrado de forma correta para que possamos nos comunicar eficientemente com nossa geração. Mas qual a linguagem do sagrado? O sagrado se manifesta através do símbolo, do mito, do rito e do dogma.

Como já mostrei no artigo anterior, o próprio livro de Atos nos dá uma ótima demonstração do poder de um líder, Paulo, que se dedica a distinguir a linguagem do sagrado em meio a confusão do seu tempo.

O sagrado é a essência de tudo o que fazemos e pensamos, quer concordemos com isso ou não. Entre os tantos teólogos que já trataram desse tema na história, além do próprio Paulo (At 17:23b), temos Agostinho e João Calvino. Este chamava essa percepção de sagrado de “semente da religião” e “sentido da divindade”, e aquele se referia a uma “saudade de Deus”.

A diferença do nosso tempo para os de Agostinho e João Calvino é que, por causa da decadência da nossa Modernidade e do enfastiamento com o Iluminismo, que é como defino a chamada “pós-modernidade”, a nossa geração está muito mais sensível a ter de novo a percepção diária do sagrado.

A Cruz vazada que ilustra este artigo foi erguida originalmente no gramado da Universidade Católica Gwynedd-Mercy, próxima a Filadélfia. Depois essa cruz foi copiada e fincada no CEM (Centro de Evangélico de Missões), em Viçosa-MG.

Como todo símbolo, a cruz vazada aponta, indica algo que não está nela mesma, mas o que ela transmite é arbitrário, é uma convenção, um acordo social e cultural. Por isso, mesmo que para você não haja nada de sagrado naquela cruz, para muitas pessoas, o sagrado é referido ali, porque aquela cruz manifesta verdades capitais ao cristianismo para alguns segmentos.

E mesmo que você relativize minimizando ou até anulando a quantidade de carga de informação religiosa presente numa cruz, a percepção do sagrado é tão forte que, dificilmente, um cristão não se ofenderia se visse crucificado ali um porco ou um bode, por exemplo. Portanto, não só a presença de um elemento estranho causa reação negativa, mas, também, a própria ausência (a cruz vazada) revela a presença de uma mensagem positiva.

E a manifestação do sagrado no símbolo, de modo algum, é idolatria. Todavia, a história do cristianismo é repleta dessa confusão na comunicação da Igreja com o mundo, mas isso eu abordarei no próximo artigo.

Cabe aqui tão somente suscitar sua reflexão, convidando-o a olhar a ilustração desse post e responder: o que essa cruz vazada comunica a você? Qual a ideia por trás dela?

Lei também ao 2º artigo desta série: “Paulo e o espírito do novo tempo“.

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