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Opinião

A casa e a cidade

A vida só faz sentido se tiver um propósito, se for protegida e se Deus fizer parte dela.

José Brissos-Lino

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Casa no campo (Foto: Luke Stackpoole on Unsplash)

No Salmo 127:1-2 podemos ler: “Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela. Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores, pois assim dá ele aos seus amados o sono.” 

Estas três frases definem e simbolizam a relação entre a pessoa crente e o seu Deus, na perspectiva da construção dum edifício, da guarda duma cidade e da inutilidade do esforço humano.

A vida humana como casa

A vida deve ter um propósito. Não se constrói um edifício sólido e bem edificado sem um projecto de arquitectura. Por outro lado a vida é uma construção contínua, um processo de construção que demora tempo.

E por vezes tem que se desmanchar aquilo que está mal feito para corrigir, fazendo de novo. Contudo o humorista Millôr Fernandes dizia: “Viver é desenhar sem borracha”. De facto não existe qualquer fórmula humana eficaz para apagar os erros do passado que nos atormentam no presente.

Só mesmo a graça de Deus nos permite apagar o sofrimento provocado por tais erros, mas ainda assim as consequências permanecem frequentemente vivas e incomodam.

Por exemplo, um pai de família pode um dia ter caído em adultério, mas arrepender-se e experimentar o perdão de Deus e dos seus, mas a criança nascida da relação adulterina está aí e vai provocar desconforto durante muitos anos.

De todo o modo, a vida precisa dum orientador, um construtor. Caso contrário edifica-se em vão. Ou seja, o produto fica defeituoso, não serve para nada.

A vida humana como cidade

A vida precisa de ser protegida e cuidada, para ser preservada. E para isso a vida necessita de aprender a ver ao longe, de forma a antecipar os problemas e perigos potenciais, tal como faziam as sentinelas que vigiavam as cidades muralhadas no mundo antigo.

Por alguma razão o conselho de Jesus de Nazaré aos seus discípulos foi: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mateus 26:41), pois sabia que o homem espiritual precisa de vigiar para que o homem carnal não se deixe abater.

E por isso a vida também precisa de se situar num lugar alto, carece de elevação, mais perto do céu.

Se a vida for sempre rasteira, demasiado comprometida com as coisas que são “de baixo”, a nossa perspectiva é a da galinha e não a da águia, ao contrário do que profeta Isaías dizia: “Mas os que esperam no Senhor renovarão as forças, subirão com asas como águias; correrão, e não se cansarão; caminharão, e não se fatigarão” (40:31).

A inutilidade do esforço humano só por si

O esforço, o trabalho, o cansaço e o sacrifício muitas vezes serão importantes, mas não chegam. Nada disto é decisivo para o sucesso da vida. Deus precisa de estar presente na equação.

Note-se que o salmista não desvaloriza a necessidade de edificadores ou construtores, nem sequer de sentinelas. Pelo contrário, apenas enquadra a sua importância, que é relativa mas não decisiva, em consonância com o velho princípio que David passou a seu filho Salomão: “E disse Davi a Salomão seu filho: Esforça-te e tem bom ânimo, e faze a obra; não temas, nem te apavores; porque o Senhor Deus, meu Deus, há de ser contigo; não te deixará, nem te desamparará, até que acabes toda a obra do serviço da casa do Senhor” (1 Crónicas 28:20).

O factor que faz a diferença não é o esforço humano (esforça-te), nem a determinação (ânimo) ou o trabalho (faze a obra), mas sim a presença de Deus na sua vida.

Quando fazemos a nossa parte e deixamos Deus dirigir a construção e supervisionar a vigilância, então podemos descansar: “Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça” (Isaías 41:10)

A vida só faz sentido se tiver um propósito, se for protegida e se Deus fizer parte dela. Qual é então o factor decisivo na vida? A saúde? O dinheiro? O amor? Não. O factor decisivo é… Deus.

Quando falta um propósito na vida, quando a pessoa não se sente protegida, quando tem dificuldade em ver ao longe, se a vida não está num lugar elevado, se a pessoa se esforça e luta muito mas não vê resultados, é caso para parar, reflectir e mudar de rumo.

Nasceu em Lisboa (1954), é casado, tem dois filhos e um neto. Doutorado em Psicologia, Especialista em Ética e em Ciência das Religiões, é director do Mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, em Lisboa, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e investigador.

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